quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

BALANÇO LITERÁRIO 2012 & OLHANDO PRA FRENTE

Estimados seguidores do Companhia de Papel! 
Com um fiapo de 2012 nas mãos, livros pendentes de resenha, e outros 30 me aguardando na estante, vamos ao BALANÇO LITERÁRIO 2012!!

Tudo bem que eu atingi minha singela meta de no mínimo 1 livro por mês, mas sinto que poderia ter feito mais. Aliás, a gente sempre acha que poderia ter feito mais e melhor... mas ok, porque é baseado nisso que os pequenos se tornam grandes, e os melhores se tornam melhores ainda.
Tendo por parâmetro eu mesma, sinceramente, poderia, sim, ter encarado mais clássicos; conhecido aclamados lançamentos; ter sido mais agressiva quanto às trilogias e distopias que espreitam minha companhia (Crônicas de Gelo e Fogo; Millenium; As Crônicas de Nárnia; Divergente...), maaaaasss considerando que faço carga horária de 40 horas no trabalho, somado ao tempo despendido com transporte e mais umas duzentas atividades extra, digamos que o saldo é positivo!

Minhas leituras de 2012 foram:

Cinquenta tons de cinza, E. L. James; [Update! Não adianta clicar, pois me abstive de resenhar esse best-seller, nem tão ''the best'' assim (...) ]
Já lidos e pendentes de resenha (em seguida vou postar): O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde; e Coraline, Neil Gaiman.

18 livros num ano é considerado pouco na ´´Blogosfera literária`` em que, por diversos motivos - parcerias com editoras, vontade, tempo, organização –, a galera alcança marcas de 50 a 70 livros/ano! ((A saber, a Karol Albuquerque, o Luciano Santos, a Lu Tazinazzo e o pessoal do Mais1livro)). Morro de inveja (rosa) deles, mas considero forte estímulo!! 

Para nossa alegria (e tristeza de outras) segue uma lista não estanque dos meus ´´troféus`` 2012:

Troféu ''MELHOR do ano'':     DOM QUIXOTE

Troféu ''REVELAÇÃO do ano'':     FRANKENSTEIN

Troféu ''PERDI TEMPO do ano'':     FOMOS LONGE DEMAIS

Troféu ''PIOR do ano'':      CINQUENTA TONS DE CINZA (linkado o post da Lu, pois compartilho integralmente!)

OLHANDO PRA FRENTE

Amigos, o meu maior desejo para 2013 é ´´saúde em abundância``!
Tendo saúde, o velho ´´amar e ser amado`` acontece naturalmente e independente de querer, não é mesmo? ... E por falar em desejar, ´´conquistar metas`` é basicamente resultado de pequenas escolhas diárias, e, nesse ponto, destaco a ´´boa administração do tempo`` como outro voto para 2013!! :D
Que tenhamos a serenidade e sensatez para organizar a rotina da semana, na busca de saúde mental, física, emocional, e literária, sempre refazendo a pirâmide de prioridades. Eis a minha pirâmide: 


...
Por fim, quero dizer que a Companhia mais importante das nossas vidas é a que nos apresenta uma nova visão de mundo e, em consequência, nos faz crescer como pessoa..

Essa COMPANHIA pode ser um familiar, um amigo, ou um livro.
Ela nos abre os horizontes, possibilita escolhas diferentes, com resultados acertados ou não. 
O que importa é a mudança que sentimos e fazemos sentir, cujo reflexo é a pluralidade de opiniões.

Em 2013, abra sua vida para Companhia de papel.

Um beijo bom, 
Camilla.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

PELAS RUAS DA CIDADE, João Marcos Adede y Castro


O final do ano é um cometa louco para transformar-se no vindouro, mas isso não é desculpa para abandonar metas tampouco negligenciá-las.
Entre um amigo secreto e outro, uma das minhas leituras de dezembro foi o recém lançado PELAS RUAS DA CIDADE, de João Marcos Adede y Castro – escritor local, advogado, Promotor de Justiça aposentado, com outras 17 obras publicadas, membro da Academia Santamariense de Letras.
Ele mantém um blog que vale acompanhar, onde, além de postagens jurídicas e culturais, se pode ler na íntegra o capítulo 1 e o capítulo 17 deste livro, que tem trechos assim...

(...) Outro dia estava dormindo embaixo de uma árvore, no meio da avenida, bêbado, pois fico tonto fácil, bebo dois copos de cachaça e já estou pronto para fazer todas as bobagens que todo bêbado faz, deito na sarjeta, vomito nos pés das pessoas que passam, uma desgraça. Acordei sentindo frio no meio das pernas, tinha urinado nas calças, puta que pariu, estou cada vez mais sujo, fedorento mesmo, vou ter de providenciar um banho no corpo e nas roupas. Para conseguir alguma esmola tenho de me aproximar das pessoas, mas se nem eu mesmo suporto mais meu cheiro, imagine os outros, as pessoas fogem de mim, e elas tem razão. (...)

Considerei Pelas ruas da cidade uma série de contos (capítulos) explorando a vida de morador de rua, da ótica de um morador de rua, cuja narração detalhada é assustadoramente real. Parece que o próprio escritor fez espécie de ´oficina` para reunir tantas minúcias da rotina daqueles que estão à margem.
(Não cheguei a perguntar para o Adede qual fonte de inspiração e/ou pesquisa para ter escrito esse livro, mas ofereço o espaço dos comentários para tanto! )

A realidade escrachada, e chocante em alguns pontos, causa efeito inevitavelmente transformador no leitor. Por meio desse impactante conteúdo vesti novos óculos para observar com atenção moradores de rua ou guardadores de carro ou mendigos, despida de medo e preconceito comumente sentidos. #meaculpa.

Como meros figurantes nas calçadas e semáforos, essa parcela da sociedade é invisível para muitos, por isso junto as mãos em aplausos ao escritor que consegue romper essa cegueira! 

Na calçada em frente a um restaurante esperando restos de jantares, ou em frente a vitrines de boutique sonhando trajar fraque e gravata – todos são livres para sonhar, não? o narrador em primeira pessoa nutre suas maiores esperanças: conquistar o alimento para a(s) refeição(ões) do dia e salvaguardar seu papelão que faz as vezes de cama à noite... Além de, em casos extremos, livrar-se de agressões gratuitas de homens-bicho sem um pingo de amor no coração.

Aborda e desborda solidão, alcoolismo, drogadição, carência, sexualidade, medo, etc...
E ao final de cada capítulo há comentário de um ouvinte das histórias do morador de rua, com pontuações ora críticas, ora cruéis...

Sem querer querendo, essa leitura aconteceu no mês da suposta sensibilidade de que todos são tomados, mobilizados por campanhas sociais de Natal onde necessariamente enxergam os menos favorecidos (talvez na tentativa de expurgar uma parcela da culpa por cuidar só do seu umbigo). Todavia, o espírito cristão, ou o ´´Papai Noel``, deve agir durante o ano inteiro, porque fome, frio e medo não escolhem estação.

Estou bem contente em prestigiar essa obra do militante social no município de Santa Maria, Prof. Adede, que não poupou palavras para tentar extrair da gente essa péssima reação chamada indiferença.

Sinto que a perfeita trilha sonora de Pelas ruas da cidade é este poema recitado pela Ana Carolina, que a meu ver fala do semblante pedinte, profundo e carente do qual quase sempre desviamos o olhar.

Um beijo bom,
Camilla.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

FRANKENSTEIN, Mary Shelley

Eu não sei o que vai sair da cachola nesse momento em que acabo de ler a última página da obra e abro imediatamente o editor de texto.. Sei que durante TODA a leitura fui tomada de inúmeras ideias, insights, ganchos e, no entanto, na hora de escrever meu pitaco tudo me escapa à mente. :P

Sem dúvida, apresento-lhe um dos livros MAIS SURPREENDENTES que já li: Frankenstein. Sabe o livro do Salinger que fiz resenha? Pois nesse mesmo dia passei no caixa com o inofensivo livrinho preto, constituindo o famoso caso do ´´livro que te escolhe``.

Filha de celebridades literárias, Mary Shelley, com nem 20 anos de idade, foi com sua família da Escócia para a Suíça, tornando-se vizinhos de Lord Byron. Num verão muito chuvoso, sugeriu que cada um escrevesse uma estória sobrenatural para que se distraíssem durante a estação. A jovem Shelley escreveu Frankenstein ou o Moderno Prometeu (nome original). 

O monstro é conhecido publicamente como o gigante verde todo costurado e com parafusos na cabeça/pescoço, que foi criado por um cientista. Pois te digo, hipotético leitor, que muito mais que um suposto conto de horror, essa é uma obra incrível sobre o afã criador do homem e a origem dos males, baseada – conforme constatei depois – na lenda mitológica de Prometeu. 

Vitor Frankenstein é um jovem estudante de Genebra que vai pra Universidade de Ingolstadt e inclina seus estudos para Ciências naturais, especificamente para ramos da História natural ligados à fisiologia. Eis que, no capítulo 4: ''Após dias e dias de incríveis trabalhos e fadigas, consegui descobrir a causa da criação e da vida; mais ainda, tornei-me capaz de conferir vida à matéria''. Depois de reunir partes de cadáveres, construiu um gigante de 2,40m com tecidos mortos e assim começa o quinto capítulo:
Foi numa sombria noite de novembro que eu contemplei a realização de minha obra. Com uma ansiedade que quase tocava as raias da agonia, tomei dos instrumentos que estavam à minha volta, a fim de que eu pudesse infundir uma centelha de vida na coisa inerte que jazia aos meus pés. Era já quase uma hora da madrugada; a chuva batia tristemente nas janelas; e minha vela estava quase consumida quando, ao lusco-fusco da luz bruxuleante prestes a extinguir-se, via abrir-se o baço olho amarelo da criatura. Ela respirava com dificuldade, e um movimento convulsivo agitava seus membros (...).
Se fores seguir faça por sua conta e risco, pois farei spoiler até o final!!
Contemplando a criatura, o criador sentiu horror e asco, e FUGIU da sua própria obra... mas ao retornar ao laboratório percebeu (e comemorou) o sumiço de Frankenstein!
Nesse ínterim, Vitor recebe carta do pai contando que um dos irmãozinhos tinha sido assassinado. Ele vai até Genebra para o velório e a principal suspeita era uma parente próxima. No entanto, afirma com convicção que era o MONSTRO o real assassino, mas sem nenhuma prova a respeito, Justine acaba condenada e recebe pena de morte. Inconformado, decide ir atrás da sua criação!!
Nas montanhas, Vitor Frankenstein-criador encontra Frankenstein-criatura. E este o culpa por 'brincar' com a vida e a morte: ''Lembra-te de que fui criado por ti; eu devia ser o teu Adão, porém sou mais o anjo caído, a quem tiraste a alegria, por algum crime cometido. Por toda parte vejo reinar a alegria da qual estou excluído. Eu era benévolo, bom; a desgraça tornou-me um demônio. Faze-me feliz, e tornarei a ser virtuoso.''
                                                                           
A partir daí considero os capítulos mais interessantes, em que o monstro conta sua estória, ou seja, o que passou enquanto perambulou sozinho.
Conta os acontecimentos primeiros de um ser vivo, como a descoberta dos sentidos, da lua, das árvores e dos animais. A descrição do fogo fornecendo calor e luz, inclusive para preparo do alimento. Os sons dos pássaros e as belezas da natureza, tudo com aquele tom romântico que não foge à inspiração byroniana. Ademais, ele é autodidata e apreende a linguagem verbal e não verbal dos humanos por observação de uma família de camponeses; e pelo 'estudo' de alfarrábios dos bolsos das roupas com que fugiu do laboratório do criador. A partir dos laços afetivos da família que observa, questiona-se porquê ele também não tem uma família, amigos e alguém para amar! Nessa parte da leitura senti muito carinho e simpatia pelo monstro sensível, e me apaixonei pelo livro.
A narrativa nos carrega nos braços e com fluidez apresenta a conversão da bondade em maldade, ao descrever um Frankenstein disposto a fazer contato com o ser humano, mas por conta de sua aparência espanta e provoca medo e desespero. Em suas próprias palavras: ''Eu era horrendo e gigantesco. Que significava aquilo? Quem era eu? O que era eu? Donde vinha eu? Qual era o meu destino? Era constantemente assaltado por essas perguntas, mas não conseguia respondê-las.'' 
Por absoluta rejeição, sua boa índole é encolerizada pela vingança e maldade: ''A partir daquele momento, declarei uma guerra sem quartel contra a espécie, e mais do que tudo, contra aquele que me havia criado e me lançara a essa insuportável desgraça.''
(...). Eu avisei antes... Para eu falar das minhas impressões era necessário eu contar toda a história. :X 

Seguindo.. Nas cercanias de Genebra, avistou um menino e tentou fazê-lo ''seu filho'', para poder amar e ser amado, mas o garoto lutou e gritou de medo, e pronunciou que levava o sobrenome Frankenstein... Esse era o irmãozinho de Vitor. O monstro fez sua primeira vítima! Com opressivo sentimento de injustiça e ingratidão, Frank resolveu que o responsável de quem exigiria justiça, piedade e reparação seria Vitor Frankenstein, seu criador. Após estrangular o menininho, pronunciou: ''- Eu também posso criar a desolação; meu inimigo não é invulnerável. Esta morte vai enchê-lo de desespero. Milhares de outros tormentos hão de torturá-lo e destruí-lo.''

Foi no encontro na montanha que, depois da criatura contar suas andanças ao criador, culminando com a confissão da morte do garoto, Frank desgraçado e horripilante menciona que nenhum homem se associaria a ele, motivo pelo qual pede a Vitor que crie uma fêmea com quem possa viver em perfeita consonância! ''Minha companheira deve ser da mesma espécie que eu e ter os mesmos defeitos. Você tem que criar esse ser''. 
Depois de muito papo eles fazem esse ''acordo'', que Vitor descumpre!!
Então, um por um, todos os familiares, amigos e noiva de Vitor Frankenstein vão sendo assassinados. 
* Não pense que é terror, porque as descrições são bem diretas e objetivas. O livro, por sinal, passa longe de terror. Talvez para a época tenha sido, hoje em dia não. *

Bom, acontece um monte de coisas mais... Mas ''resumindo'', por fim, a sociedade aponta Vitor como o autor dos diversos crimes que se seguiram, tanto que é preso, entra em estado febril, tem delírios, é considerado louco. O monstro só ''aparece'' para ele, como que perseguindo seus passos para lembrar o sofrimento que é ser diferente e incompreendido! ... 
(...)
Não hesite em ler Frankenstein para perceber a profundidade filosófica das passagens e fatos que constroem um sentido belo, apesar de monstruoso. Meu espanto diante da obra é devido a sua originalidade que obviamente não conseguirei transmitir nessa resenha, mas que certamente será uma provocação à leitura.
Ai. Já sinto saudades da minha segunda companhia de papel de novembro! :(

Destaco os pontos que mereceram minha atenção/dúvida/curiosidade! 
Quero encontrar, logo, alguém que já tenha encarado Frankenstein pra debater estas ideias:

a) a bondade nata do homem; 
b) a aparência como determinante de aceitação social;
c) a maldade como produto da integração social (?); 
d) o afã natural de amar e ser amado para, então, dar sentido à existência;
e) o ideal do par romântico em todas as espécies; 
f) o potencial vingativo dos seres; 
g) o monstro e seu criador como metades antitéticas de um mesmo ser;
h) seria Vitor o próprio assassino e o ´´monstro`` apenas uma criação de uma mente perturbada? (tipo o filme Amigo Oculto).... 

Um beijo bom,
Camilla.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER, Goethe

Aquele clichê ´melhor mudar de opinião do que não ter nenhuma pra mudar` é bem válido para uma Camilla um tanto quanto avessa aos romances de amores reais, platônicos ou correspondidos pela metade... Então, para experimentar um novo gosto literário, em novembro, me entreguei aos encantos do escritor alemão Goethe! 

Foi um divisor de águas (com açúcar) ler Os sofrimentos do jovem Werther (1774), pois negava fortemente que histórias de amor com ou sem final feliz fossem literariamente dignas de tomar meu tempo. Daí que fui muito feliz na escolha dessa leitura, confirmando que os clássicos tem que receber nossa devida atenção em meio a tantos best-sellers cinzas.

Os sofrimentos do Jovem Werther (pdf do livro aqui) é formado de cartas que o personagem Werther endereçou ao editor-personagem Wilhelm contando em minúcias as emoções e dissabores de amar Charlotte Buff, moça já comprometida com Albert. É um romance quase autobiográfico, pois o próprio Goethe, exercendo o Direito na cidade de Wetzlar, centro da corte de Justiça Imperial, conhece Charlotte Buff, por quem se apaixona perdidamente, apesar de sua musa ser noiva de um colega. Esta paixão quase o conduz ao suicídio, evento que posteriormente seria o mote inspirador do romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de 1774.(http://www.infoescola.com/biografias/goethe/)

No início, confesso, pensei que ia ser chatinho, mas surpreendi-me porque o texto é sincero, profundo e despido da complexidade da literatura alemãEnquanto declarava uma afeição louca por Lotte (apelido carinhoso), o jovem Werther descrevia o amor lato sensu com uma riqueza de detalhes (própria dos românticos quando falam a sua musa) e, ao mesmo tempo, com a simplicidade da vida real, deixando um espaço de atuação para o leitor criativo.
Na medida em que fui avançando, veio à tona a vibe de Dom Casmurro, obra eivada de mensagens não ditas para o leitor suspeitar, inventar ou supor... (obs: Talvez eu esteja concluindo, agora, que uma das características que eleva livros a clássicos é justamente essa proposital-simbiose-futura que o escritor permite acontecer de o leitor somar-se ao texto, tornando, portanto, cada leitura uma unidade em si; e cada leitor um escritor em potencial!). :)

Marco inicial do romantismo, considerado por muitos como uma obra-prima da literatura mundial, Os sofrimentos do Jovem Werther causou polêmica por instigar ao suicídio vários jovens apaixonados da época. Isso porque Werther tira a própria vida por amor (não é spoiler, porque, afinal, todos sabem seu the end).

Algumas transcrições...

´´Só isto basta: ela tomou conta de todo o meu ser.``
´´Tudo nos falta quando faltamos a nós próprios.``

´´Nada neste mundo nos torna mais necessários aos outros como o amor que lhes temos.``

´´ - Enquanto seus olhos estiverem abertos – respondi-lhe, fitando-a – não há perigo de que eu feche os meus.``

´´Wilhelm, que seria do nosso coração em um mundo inteiro sem amor?``

A obra reúne muitas características do movimento romântico: o individualismo e o subjetivismo, o instinto e  a exacerbação dos sentimentos, o escapismo e a imaginação, a religiosidade, o sonho, o culto à natureza, a melancolia, a idealização da mulher e do amor, etc. Veja bem, não pense que ele tooodo é tão meloso assim, pois tem inúmeras reflexões sobre a beleza da vida, humor, paz, natureza, etc. 

Rolou fortemente uma identificação comigo, por exemplo, nesse trecho (quem me conhece saberá heheh): 
(...) Concordo (porque já sei o que você vai dizer a respeito) que os mais felizes são exatamente aqueles que vivem sem pensar nos futuro, como as crianças, passeando, despindo e vestindo suas bonecas; aqueles que rodam respeitosamente em torno da gaveta onde a mãe guardou os doces e, quando conseguem agarrar, enfim, as cobiçadas guloseimas, devoram-nas avidamente e gritam: ´´Quero mais!``, eis as criaturas felizes. (...)
Enfim, Goethe descreveu como um sentimento desenfreado e sem limite ocupou a mente e coração de Werther que impossibilitado de viver o sonhado romance surtou e tirou sua vida! A alguns olhos é uma leitura meio down, mas eu achei desafiador perceber as inquestionáveis pureza e força do amor, perfumadas de ternura, apego e idolatria, tornarem-se loucura e resoluta morte. Pra dizer a verdade, eu estava sentindo uma peninha do Werther, etc, etc, até que vieram parágrafos reveladores!!! Ora, não era tão platônico assim: ela retribuía a paquera e alimentava os anseios dele, ainda que comprometida, e, por vezes, ela era grosseira com ele para eximir sua culpa pela reciprocidade. Enfim.
O seguinte trecho é desta resenha super detalhada, que ora tomo licença para copypaste:
 
Ambos se comovem, choram, se abraçam e se beijam. O mais sublime e apaixonado beijo da história da literatura, mas em seguida Charlotte repele-o, dizendo que nunca mais quer vê-lo. Charlotte (Carlota) sabia que amava Werther, mas também sabia que este amor era impossível. Assim, ela pediu para nunca mais vê-lo e ele assentiu.
Assim, depois de mais alguns escritos em que cogitava o suicídio constantemente, é tomada a decisão. Eis abaixo uma das últimas coisas que deixou à tinta:


A morte de Werther, quadro de Baude.
(...) Que me importa que Albert seja seu marido? Seu marido! ... O casamento só vale para este mundo, e é só neste mundo que cometo um pecado, amando-a, desejando arrancá-la dos braços dele para estreitá-la nos meus! Um pecado! Que seja!! Dele vou me punir. Saboreei esse pecado em toda a sua voluptuosidade celestial, meu coração sorveu nele a força e o bálsamo da vida. Desde aquele momento, você é minha, minha, Lotte! Parto antes. Vou ter com meu Pai, o seu Pai! Dir-lhe-ei as minhas penas e ele me consolará ate a sua chegada. Então, correrei ao seu encontro, abraçar-te-ei, e ficaremos, em face do Eterno, unidos por um abraço eterno. (...)
O escritor Goethe, ao morrer, profere uma famosa frase: ''deixem entrar a luz''.
Bom conselho, não?!

E para fechar uma resenha incompleta, pois, a meu ver, senti não ter alcançado a profundidade que a obra possui, despeço-me nas palavras de Ítalo Calvino:
 ''Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer."

Um beijo bom,
Camilla.
obs: Eis um artigo bem jóia com pontuações sobre a obra do Goethe: ''As razões de Werther''. Vale a pena conferir, mas só depois de ler o livro para não comprometer a interpretação.

UPDATE 25/nov!!! NÃO DEIXEM DE LER esse texto do site Obvius: Ainda sentimos os sofrimentos do jovem Werther?

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

GERTRUD, Herman Hesse

Clica aí pra curtir uma música que, em 1978, ocupava o segundo lugar na parada de sucessos no Brasil:

Tomavam o mesmo ônibus. Ele a observava sempre. Ela era esguia, charmosa, e de vez em quando usava lenço na cabeça. Distavam 8 anos em idade, dado que foi esclarecido depois.
Um papel datilografado foi cuidadosamente colocado entre as páginas de um livro e esse gesto determinou o início da minha família.
Aquele a quem vim chamar de pai cruzou a roleta do ônibus e,ao passar pela moça do lenço, foi discreto e ligeiro ao repousar o livro no colo dela e, na sequência, desceu do ônibus pois já era a sua parada.

Muito mais que a resenha do livro Gertrud, do Herman Hesse, o que relato hoje é o início da história de amor dos meus pais.
Há algumas semanas, num sábado à noite, estive com eles e os incentivei – com um merlot – a contar em detalhes como se conheceram, eis que me apresentaram um livro... já querendo amarelar, com seus 30 e poucos anos, encapado com plástico transparente, uma etiqueta com nome de solteira da mãe na capa e a assinatura do meu pai na segunda página. :D
Coração pulsou forte ao ver que minha remota origem está num objeto tão caro para mim que é um livro.
A emoção daquela noite fez com que essa leitura (histórica para nossa família) passasse ao primeiro lugar da fila, sendo a companhia de papel escolhida de outubro.
Eis o bilhete mais lindo do mundo:

´´Prezada....
Viajando apertado por uma multidão completamente alheia do que eu estava pensando, sentia-me feliz com o pensamento voltado para uma nobre e simpática pessoa que apenas me olhava sem sorrir, mas que todo o seu rosto exalava uma dignidade simples e benévola encantando a multidão.
Espero que entenda a minha mensagem e analise-a de forma serena sem no entanto frustrá-la, pois se eu não atingi o objetivo, peço que esqueça tudo e desejo-lhe muitas felicidades; caso contrário encontro-me com você sábado à noite no Grêmio para trocarmos algumas palavras. Este livro é para você como recordação.
Em 20 de janeiro de 1978. (...)``

Não preciso nem dizer que toda mulher pularia de emoção com uma mensagem desta, tão bem pensada e escrita quanto singela e arrebatadora. Letras reunidas transportaram sentimentos de um coração para outro e um casal se formou.

Fiquei feliz por ser um livro do Herman Hesse (nobel em 1946), de quem virei fã em 2010 (fiz umpost aqui), pois apreciei Demian e O lobo da estepe.. BUT Gertrud, por sua vez, não é um livro do Hesse que eu recomendaria.. não me emocionei muito heheh.
Gertrud é um conto-romance sobre a vida de Kuhn, um jovem que, após sofrer um acidente, fica puxando uma perna e usando bengala. Dentro do seu mundinho nostálgico e melancólico, a música é o ar que respira e dá sentido à sua existência. Kuhn é violinista e compositor e deixa-se inserir a contragosto no meio dos artistas, onde conhece Muoth e depois Gertrud. Todos seus sentimentos – profundamente refletidos nos capítulos – transfiguram-se em composições que depois são enaltecidas em concertos na cidade. Tema central seria algo como ''violinista portador de deficiência que se torna compositor famoso''. :D
A narração se arrasta um pouco, na medida que não acontecem coisas interessantes na pacata rotina do protagonista, em contrapartida os poucos clímax do livro retratam a profunda beleza dessa arte que alimenta o coração dos homens..
Veja-se uma das reflexões do jovem Kuhn: ´´Considero a vida humana como uma noite profunda e triste, que não se suportaria se, num ponto ou noutro, não rutilassem repentinos clarões, de uma luminosidade tão consoladora e maravilhosa que seus segundos podem apagar e justificar anos de escuridão.``

Maria João Cantinho resenhou e opinou sobre Gertrud no sentido de que (...) o que pode se descobrir aqui, através da voz sóbria e contida do narrador, é uma séria reflexão acerca da fragilidade da vida e da finitude humana, que vislumbra na arte o caminho para a luz e para a redenção, num sentido bem alegórico (...).
E prossegue: ´Gertrud, não sendo a personagem principal, acaba por revelar-se o motivosecreto desta obra — e daí o seu título. Ela personifica o desejo amoroso, não apenas físico, mas sobretudo o ideal que alimenta o impulso criador de Kuhn e ofaz transbordar (...)`.

Eu sinceramente achei o livro chato e lento, comparado com outros mais velozes e interessantes que tem por aí. Mas Hesse é Hesse e sua mensagem só vem à tona no nosso coração após atento e investigatório mergulho nas profundezas das frases misturado com o que a gente acha que acha da vida. :P
É isso. :)

Ah! E se alguém aí ficou coçando de curiosidade digo que, sim, eles se encontraram no clube Grêmio no sábado seguinte. Ela usava o Deoparfum Cristal Toque de amor, ele, Glostora no cabelo. Sua primeira dança foi discretamente arquitetada com a ajuda daquele que se tornou meu padrinho Mauro, porque meu futuro avô Gentil cuidava da chapelaria do clube e da dignidade da caçula de onze irmãos com o mesmo zelo. Assim foi que o cupido ou a Divina Providência uniu esses dois seres que eu amo com todas as minhas forças.

Poderia ser uma rosa - também tão cheia de significado –, mas foi um livro.

Pai e mãe, este post é uma homenagem aos 31 anos de casados que irão comemorar neste 17 de outubro.


Um beijo bom,
Camilla.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

QUATRO GIGANTES DA ALMA, de Mira y López

Cheguei nesse livro porque minha irmã transmitiu dicas literárias do Professor Pablo Stolze – reconhecido Juiz de Direito no TJ/BA e profe de direito civil da Rede LFG – dentre as quais estava o magnífico Mira y Lopéz. Vindo de quem vem (quem foi aluno do Pablito sabe do que estou falando) dei a atenção devida e logo encomendei Quatro gigantes da alma. Antes de apresentar o milagre vou apresentar o santo e te direcionar para esse link onde, já nos primeiros parágrafos, deparamos com a trajetória do notável Emilio Mira e López (*1896 +1964). [Acho que vale a pena situar-se na vida e história do autor porque valoriza a compreensão da obra. Eu tenho essa mania!]

Como o próprio Professor Mira y López escreveu em 1941, na motivação do Manual de Psicologia Evolutiva da Criança e do Adolescente, "toda a obra humana, por insignificante que seja, acha-se nitidamente vinculada à rota existencial de seu autor. Para avaliá-la, não basta conhecer este último; é indispensável saber as circunstâncias em que ele vivia ao produzi-la".

Pois bem. Estou aqui com a tela do Word em branco e aquele sofrimento prévio de quem não vai conseguir falar de uma coisa com a riqueza de detalhes que ela requer. (Nem adiantava tentar GRIFAR trechos mais importantes, porque todas as linhas ganhavam sublinhado!). #Regra geral eu (não tenho pena) risco muito os meus livros!)
A par de leitores, Quatro gigantes da alma imprescinde de estudiosos. É um livro para ser ESTUDADO. E digo mais, ESTUDADO E UTILIZADO COMO INSTRUMENTO DE TRABALHO E CONSULTA por juristas e por psicólogos (Alô Larissa Berger, Carlos Eduardo Seixas e Andressa Botton!).

Se para Mira y Lopez os estudos psicológicos são fatores relevantes da felicidade individual e da harmonia coletiva, para nós, reles mortais, são mais uma peça na tentativa de compreensão do próprio umbigo. Diante desse didático estudo científico e metódico, emudecemos com a ideia de que DENTRO DE NÓS RESIDEM QUATRO GIGANTES!
Emilio Mira y López nos convida a explorar aspectos neurológicos e psíquicos, herdados e adquiridos, estáveis e mutáveis, coletivos e individuais de reações do ser humano, chamados de EMOÇÕES: MEDO, IRA, AMOR e DEVER são quatro forças/núcleos energéticos que coexistem no ser humano, ora se debatendo, ora se aglutinando para determinar se a gente explode, ironiza ou se comove em variadas situações, com pontos de contato – mas indo além – da questão dos temperamentos que a gente sempre estuda lá no Movimento de Schoenstatt (Sobre temperamentos: página 101 em diante dessa bela Dissertação!)

No início do book, o autor refere que se estudarão a história, evolução e estruturas bélicas dos quatro gigantes da alma: ´´com isto pretendemos fazer algo mais que entretê-lo; desejamos ajudá-lo a libertar-se, embora seja parcial e temporariamente, das consequências mais angustiantes de seu jugo. Não pretendemos usar de pseudo-erudição nem seguir normas sistemáticas; usaremos de nossa própria psicologia didática para tornar atraente a exposição, sem falsear seu fundo conceitual.``

Vamos lá! O Medo é o Gigante Negro cuja origem primitiva seria o instinto de sobrevivência, que às vezes se alia com a imaginação e nos perderemos entre monstros da nossa própria criação?
Muita coisa acontece só na nossa mente, por representações e bloqueios infundados... por isso a importância da distinção de causa e motivo que faz no Capítulo II: causa é intrínseco (pólvora) e motivo é extrínseco (estopim). O medo pode ser motivado por carência (o sujeito se assusta ante sua crença de que lhe falta algo que na realidade tem); por insuficiência (complexo de inferioridade); baseados em conflitos (paradoxo ante a várias ações possíveis pra escolher); seus estímulos ou ´´agentes`` são a dor, sofrimento moral, morte, enfermidades, solidão, instintos, guerra; e pode se apresentar com diferentes níveis de intensidade, a saber: prudência, concentração, alarme, angústia, pânico e terror.
Ufa! Estou me esforçando pra esmiuçar o livro, mas podia rolar uma foto do sumário, né? Heheh Por fim, ele ´´ensina`` maneiras de dominar o medo, como por exemplo o Princípio similia similibus curantur: se tem medo de cobra, se joga num tanque cheio delas! Heheheh

Daí vem o Gigante Rubro, a IRA. ´´Todas as formas de substância viva apresentam de maneira constante esta propriedade, que poderíamos denominar ´´explosiva``, no sentido de que são capazes de devolver mais do que receberam.`` = Irritabilidade. Nem todos os seres irritáveis são agressivos, mas todos os agressivos são irritáveis. E no homem essa agressividade traduz-se no afã ou desejo de poder, que pode levar a destruição, assassinatos, etc. Todos nós temos parte de temperamento colérico, mas nossos gigantes conversam entre si e abrandam as reações. Ainda bem. Na mesma toada do capítulo do Medo, o autor define fases, graus de intensidade e formas de camuflagem da Ira. Elenco alguns dos seus disfarces: a chamada sede de justiça; a crítica falando mal que procura desvalorizar algo; a ironia; a soberba. Além disso, Mira separa capítulo para um Estudo especial do ódio e outro para a Catamnese do ódio (formas de descarregá-lo: desprezo, vingança e ressentimento).
Keep calm, o livro é bem light e tem só 224 páginas! :D

No prefácio à 20ª edição, Alice Madeleine Galland de Mira escreve que é um livro de otimismo, da força do saber e do conhecimento, no sentido da libertação e superação dos muitos problemas individuais e coletivos; viabiliza, assim, o equilíbrio dos gigantes do amor e do dever, em oposição aos gigantes do medo e da ira.
Respira aí e segue lendo porque desisti de ser coesa. :P
Sério.. num determinado trecho eu juro ter visto uma mão saindo da página e dado uns tabefes no meu rosto!! :P Não tem como ler esse livro sem se identificar um tiquitito que seja e repensar nossas atitudes pro futuro. E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar, Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda nossa vida, e depois convida a rir ou chorar.

Aí a gente chega no Gigante Róseo, o Amor. Momento suspiro: Ahhh o amor!! O autor inicia tratando da sua raiz ancestral (reprodução) e o grande paradoxo biológico do amor – existe de forma bifásica, determinando constante fluxo e refluxo vital. Passa pelas raízes tânica e niilista, e também agressiva, possessiva e genital. Fala da raiz érgica, criadora ou fáustica do amor, ou seja, que somente o Amor pode extrair de cada homem ou de cada mulher seu máximo potencial criador (...) A pessoa que se encontra dominada pelo desenvolvimento de um processo amoroso, no qual esta raiz intervenha decididamente, sente seu Ser exultar, transbordante de felicidade. A vida se lhe apresenta sob seus mais belos prismas, atraentes e incitantes à ação criadora (...). Ohhimm!
O capítulo mais cor-de-rosa do livro explora as fases do amor (iluminação/eleição; ilusionismo; exploração; correspondência (desbordamento do âmbito individual!!); fusão e simbiose; elevação e criação), e os tipos de amor, sem deixar de fora as crises e o instituto do ciúmes.

Por fim, o DEVER, Gigante incolor em que as malhas de sua rede estão articuladas pela imensa força da Lei, da Tradição ou da Razão predominante no grupo do qual fazemos parte. Esse gigante só nasce com a vida em sociedade, quando sobrevêm o Direito, a Lei e a Autoridade... O dever é a crença na inevitabilidade de certos efeitos ante cuja possível ocorrência o ser humano se obriga a determinadas privações ou ações. Aqui nesse capítulo me senti de volta ao início da faculdade de Direito, onde estudávamos o ser e dever ser, a moral, e todos os freios necessários para a galere não surtar. Ainda mais agora que está na moda asminapira, todospira, etc.


Esticando o braço dá pra enxergar perfeitamente a nossa mão, mas quanto mais aproximamos dos olhos a visão dificulta... Confere?
Se quanto mais próximo do objeto, mais dificultada é a análise, que se dirá quando o objeto analisado é nós mesmos?
Aí está o ponto que reputo central do Quatro gigantes da alma: autoconhecimento.
Há pessoas que passam a vida inteira cuidando e se importando com a vida alheia, travando batalhas emocionais com familiares, disputando territórios profissionais, e negligenciam sua própria alma, mente e coração! A gente precisa se desnudar e conhecer, até mesmo calçar novos óculos e mudar de opinião sem medo disso parecer fraqueza! Essa é a minha humilde forma de reconhecer que o autoconhecimento é um processo que dura a vida toda e nunca se esgota..
((Por isso o acréscimo de anos (ou decréscimo de tempo de vida) só faz bem pra gente, porque aprofundamos o autoconhecimento e colocamos em prática a auto-educação, não é verdade?))

"Por isso, avante! Avancemos nas pesquisas e conquistas do nosso mundo interior, através da auto-educação consciente. Quanto mais progresso exterior, tanto mais aprofundamento interior." (Kentenich, 1912)

Pra vc que chegou até aqui, eu concluo dizendo que obviamente o livro não estanca o conteúdo proposto, mas é um bom começo pra quem gosta de psicologia!! :)

Agora.. se tu achas que um livro não é capaz de per si gerar TODA essa reflexão, então tenta dois, ou três, ou mais.. heheheh Eu estou tentando. ;D

Um beijo bom,
Camilla.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

CARPINTEIROS, LEVANTEM BEM ALTO A CUMEEIRA & SEYMOUR, UMA APRESENTAÇÃO, de J. D. Salinger

Desde que li ´´O apanhador no campo de centeio`` de J. D. Salinger, em 2011, criei mais um escudo literário: não-faça-expectativas-com-best-sellers (já tinha os escudos não-faça-expectativa-com-títulos-bonitinhos, não-subestime-autores-criticados e não-abandone-livros-chatos) porque tudo pode nos surpreender negativa ou positivamente!
É. Sinto informar, caros amigos, mas O apanhador não é TUDO aquilo que TODOS dizem – outra hora farei um post digno da sua fama e aí poderão tirar suas conclusões. 
Mas falei nele agora pra dizer que, segurando um dos escudos – e também para demonstrar como sou teimosa/persistente –, a minha leitura de setembro foi mais uma obra de Jerome David Salinger (precisava tirar a prova se o cara é bom mesmo ou não passava de uma lenda hehe)!

Raras vezes fui ao Carrefour, mas nesse dia entrei na Livraria anexa ao mercado para comprar papéis e envelopes. Dei de cara com aquela torre da Editora L&PM cheia de livros pockets e na altura do meu nariz estava um título do Salinger. TIVE QUE comprar!
Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação.

São duas novelas que formam um livro. 
Na primeira, Buddy Glass narra o escândalo causado pelo sumiço de seu irmão Seymour Glass no dia do próprio casamento: ´´ele amava demais, era feliz demais para se casar``. Na segunda, Buddy tenta esboçar um retrato do irmão, tido como prodígio de programas radiofônicos, poeta precoce, voluntário na Segunda Guerra, ...

Seymour e Buddy são irmãos da grande família GLASS - principal contribuição pro mundo que o Salinger deixou, sendo frequente objeto de estudiosos da literatura pela profundidade dos membros/personagens!

Acho ousadia que com rasos conhecimentos sobre narrativa e linguagem eu vá conseguir expor minimamente o MUITO que representa – e já se estudou sobre – Seymour e sua personalidade (esquizóide?!), mas ´´Pensar é um ato; sentir é um fato``, dizia Clarice.. 
Então, o fato é que Seymour nos intriga e provoca, mesmo sem falar nada. Ele é e não é. O que sabemos da sua psiqué é resultado do filtro da opinião dos outros personagens, PRINCIPALMENTE de Buddy que, com nuances de obsessão, coloca o irmão num pedestal ao mesmo tempo em que deixa escapar a insatisfação de tê-lo como parâmetro de comparação na família!
Quem tem a felicidade de ter irmãos sabe o significado da palavra EXEMPLO e, tanto faz ser o caçula ou o mais velho, reconhece que são os protótipos de seres humanos mais próximos que temos na vida, e que caberá aos pais a sutileza de tratar os desiguais de maneira desigual (Princípio da isonomia) e formar uma família de comercial de margarina (#ounão). Salinger explora isso com maestria!
[Comecei a escrever esse post na noite de 6 de setembro, coincidentemente um dia depois da enxurrada de postagens no Facebook relativas ao DIA DO IRMÃO, que eu desconhecia até ver a emocionada homenagem da minha irmã mais nova. S2
Também te amo, Mika! :*
Obs: Como é prático ter data especial pra dizer aquilo que deveríamos dizer diariamente, né? hehe] 

Buddy é um narrador-personagem que usa da escrita e descrição pormenorizada para eternizar seu amor e admiração pelo irmão – ´´Embora nunca tenha escrito um único poema, ele (Seymour) trasmitia poesia por todos os poros`` –  justificando que este cometeu suicídio pelo sofrimento decorrente da infância não vivida e/ou traumas pós-guerra... 
MAS REPAREM que Buddy TAMBÉM compartilhou da mesma infância não vivida (porque eram astros de um programa infantil) e TAMBÉM foi para a guerra!!!
Ou seja, .............................! (completem o tracejado com suas conclusões depois de lerem o livro).
: )
Para Alfredo Monte (blog Monte de Leituras), ´´O texto é sempre muito mais interessante ao mostrar o universo neurótico e mundano da classe média alta de Nova York e mesmo os problemas pessoais do próprio Buddy do que quando envereda para a santificação da figura de Seymour, ...``. Na minha opinião, o texto todo é interessante. Amei o preciosismo da narrativa envolvente, a mágica absurda de dizer MUITO nas misteriosas e irônicas entrelinhas, e aquele jeitinho machadiano (amo!) de conversar com o leitor, insinuar que a gente possa estar cansado, provocar para que larguemos o livro antes que seja tarde... 

Um pouco mais de quem já estudou o Salinger... a Juliana Cunha disse: ´´Buddy Glass é o personagem que mais parece ter a voz de Salinger, embora essas aproximações entre autor e personagem sempre sejam (mesmo agora, definitivamente o é) uma coisa extremamente forçosa e forçada. Mas, faça-me uma garapa! Se não pudermos forçar um tiquinho só as coisas para defendermos uma tese, se os fatos não forem feitos de algum material menos obtuso que diamante, então as teses jamais serão defendidas. E eu defendo que Holden Caulfield e Buddy Glass sejam as duas ocasiões em que o reservadíssimo Salinger se deixa entrever entre uma linha e outra. Os dois personagens parecem-se muito com o pouco que conhecemos do Salinger. São irônicos, auto-irônicos, mentirosos, sensíveis e eremitas (Holden diz querer morar numa cabana no meio do mato. Buddy de fato mora numa cabana no meio do mato). E, principalmente, os dois são obcecados pelo fantasma de um irmão morto (Allie para Holden e Seymour para Buddy).``

Um aparte:
Na mesma época de O apanhador no campo de centeio, Salinger escreveu alguns contos extraordinários, reunidos em Nove estórias. Então, pra ficar bem redonda essa dica literária de setembro, acho válido te direcionar para o texto em que a Juliana Cunha faz uma análise da primeira e mais impactante das Nove estórias: ´´Um dia especial para os peixes-banana``. (Os comentários no post também são ótimos!) 
E para ficar melhor ainda, leia a íntegra do conto e descubra como foi o dia do suicídio do Seymour! 
Considero que ter lido esse livro agora foi uma baita coincidência, porque há pouco é que fui ver o post da Juliana. De certa forma adentrei na história da família Glass com conhecimento de causa, motivo pelo qual eu já sabia desde o início do livro o porquê do sumiço do noivo Seymour! :D 

Só pra dar uma palinha, talvez cumpra colar aqui um trecho do livro onde tem uma cartinha do Seymour para Buddy:
(...) Uma das poucas coisas no mundo, afora o próprio mundo, que ainda conseguem me entristecer é a impressão de que você se aborrece quando a Boo Boo e o Walt dizem que está falando alguma coisa como eu falaria. Você parece tomar isso como uma acusação de plágio, uma censura à sua individualidade. O quê que há de errado se às vezes um de nós fala como o outro? A membrana que nos separa é tão fina! Será tão importante que cada um de nós jamais se esqueça quem é quem? (...) Não será que para nós a individualidade de cada um começa justo no ponto em que reconhecemos quão extraordinariamente profundos são os nossos vínculos e aceitamos a inevitabilidade de tomar emprestado as piadas, os talentos e as besteiras uns dos outros? (...)

É nessas horas – digo livros – que a gente se dá ao luxo de mudar de opinião, deixando autores nos surpreenderem positivamente para demonstrar que na vida são INÚMEROS e INCONTÁVEIS os pontos de vista.

J. D. Salinger, falecido em 2010, te dedico!


Um beijo bom, Camilla.


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