segunda-feira, 30 de abril de 2012

O DIÁRIO DE ANNE FRANK

Hoje é 30 de abril de 2012.
Em 30 de abril de 1945 foi o dia em que "suicidaram o Hitler".
(...)

Escolhi O Diário de Anne Frank para fazer companhia durante minhas férias em março: uma porque ele estava me esperando havia algum tempo, duas porque seu tamanho 12cm x 18cm é super prático para levar na mochila, e três porque são 378 páginas relacionadas à Segunda Guerra Mundial, tema pelo qual tenho especial apreço!

Uma adolescente de 13 anos escreve um diário entre 12 de junho de 1942 e 1o de agosto de 1944, enquanto vive (sobrevive!) num esconderijo em Amsterdã, porque ela e sua família são judeus e temem a ocupação nazista nos Países Baixos!

Ela personifica o diário, chamando-o de Kitty, como se conversasse com uma amiga!! E com essa pegada dá um ar de intimidade na mensagem, necessário para contar todos os detalhes do sofrimento. Sofrimento tanto da situação de escondida por ser judia, quanto de seu desabrochar menina-mulher. Anne teria um brilhante futuro pela frente, não fosse ter sido capturada (junto com os demais) e levada ao campo de concentração de Auschwitz, e depois para Bergen-Belsen, campo de concentração perto de Hannover (Alemanha), onde veio a morrer de tifo.

Foram dois anos de tensão, superação e otimismo.
Os moradores do Anexo foram Anne, seus pais (banqueiro e dona de casa) e a irmã Margot – todos alemães, que no verão de 1933 foram morar na Holanda –, além de Hermann e Auguste van Pels, seu filho Peter e Fritz Pfeffer. Vivem no chamado “Anexo Secreto” (sótão do escritório de Otto Frank – pai da Anne), e logo no início do livro tem até planta baixa para gente compreender onde cada um dorme, toma banho e come! Eu marquei a página para toda hora voltar e dar uma espiadinha.
São 8 seres humanos que se tornaram verdadeiros RATOS escondidos dos tresloucados nazistas que impuseram tensão e horror a milhões de famílias desde a Alemanha até nossos confins. O Nazismo – prescinde explicação – foi mau, fez mal, motivou violência, deixou rastros profundos na nossa sociedade e é rememorado constantemente em filmes e escritos, para servir de exemplo negativo.
A perspectiva da Anne pouco revela as questões políticas do período da guerra – só em algumas passagens, porque os ajudantes levavam notícia e mantimentos – cúmplices que tornaram possível sua permanência por longos dois anos sem serem descobertos. 
Anne Frank dá lição de vida com bom humor e ousadia, descrevendo como faziam a divisão da comida, o revezamento no banheiro, o recolhimento dos dejetos (!), o silêncio mórbido que tinham que fazer, sob pena de alguém do escritório os descobrir, e os dilemas da convivência!!
Ela humoriza situações subumanas e traz à baila as pequenezas que nos irritam ou causam sofrimento, e que dentro do contexto deles foi fundamental para evitar de – metaforicamente – se matarem!
O diário original é escrito na língua neerlandês (Het Achterhuis - Dagboekbrieven 14 juni 1942 - 1 augustus 1944) e o texto foi preservado basicamente como ela escreveu, porque qualquer tentativa de alterá-lo e torná-lo mais claro seria inadequada em um documento histórico (lembrando que a autenticidade do diário fora questionada desde a sua primeira publicação, mas isso se resolveu depois!).

O diário de Anne Frank foi traduzido para 67 línguas e é um dos livros mais lidos no mundo!
(...) Ele destaca sentimentos, aflições e pequenas alegrias de uma vida incomum, problemas da transformação da menina em mulher, o despertar do amor, a fé inabalável na religião e, principalmente, revela a rara nobreza de um espírito amadurecido no sofrimento (contracapa).
Por meio do Google encontrei o interessante Anne Frank Guide, com especificidades dos moradores, do alojamento, das circunstâncias da guerra numa linha do tempo. Para quem se interessar é uma boa fonte de pesquisa! :)

A Anne é um mito e representa um eito de pessoas que tiveram suas vidas interrompidas em nome de  ....... quê?! Nada justifica o holocausto, mas não se pode deletar a história.
Apesar dos dilemas próprios da adolescência, e com o turbilhão de conviver com manias e vaidades dos demais (em especial a chata Sra. van Dann), revela maturidade: 
(...)Para ser franca, não consigo imaginar como alguém poderia dizer "Eu sou fraco" e continuar assim. Se você sabe isso ao seu respeito, por que não luta contra, por que não desenvolve o caráter? (...) Tenho uma característica notável que pode ser óbvia para qualquer pessoa que conviva comigo há algum tempo: eu me conheço bastante. Em tudo o que faço, posso me ver como se fosse uma estranha. Posso me afastar da Anne de todos os dias e, sem preconceitos ou sem me desculpar, ver o que ela está fazendo, tanto as coisas boas quanto as ruins. Essa autoconsciência nunca me abandona, (...) Eu me condeno de tantas maneiras que estou começando a perceber a verdade no ditado de papai: “Todo filho tem de se criar”. Os pais só podem aconselhar os filhos ou apontar a direção certa. Em última análise, a própria pessoa forma seu caráter. Além disso, enfrento a vida com uma reserva extraordinária de coragem. Sinto-me forte e capaz de suportar fardos, jovem e livre! Quando percebi isso pela primeira vez, fiquei satisfeita, porque significa que posso enfrentar com mais facilidade os golpes da vida.
Está vendo como a guria é faca na bota?
Por Deus, eu até escrevia poesias com 13 anos, mas não me lembro de fazer raciocínios inteligentes e perspicazes como ela fez! Está certíssimo quem diz que a dor ensina a gemer!

Dentre tantas passagens, gostei em especial dessa: Quem é religioso deve se alegrar, porque nem todo mundo é abençoado com a capacidade de acreditar numa ordem superior. Você não precisa viver no medo da punição eterna; os conceitos de purgatório, céu e inferno são difíceis para muita gente, mas a própria religião, qualquer uma, mantém a pessoa no caminho certo. Não o temor a Deus, mas a manutenção de nosso sentimento de honra e de obedecer à própria consciência. As pessoas seriam muito mais nobres e melhores se, no fim de cada dia, pudessem rever o próprio comportamento e pesar o que fizeram de bom e de mau. (Exame de consciência! Alô José Engling!) Automaticamente tentariam melhorar a cada manhã e, depois de algum tempo, com certeza realizariam muita coisa. Todo mundo pode seguir essa receita: não custa nada e é utilíssima. Os que não sabem terão de descobrir por experiência própria que “uma consciência tranquila dá força às pessoas”.
Eu tenho a edição definitiva por Otto H. Frank e Mirjam Pressler, segue fotinho da capa:


Update!! A casa onde Anne Frank ficou escondida e escreveu o famoso diário durante a ocupação nazista na Holanda é hoje um museu! Para quem tiver viagem marcada pra Amsterdã, é imperdível!!
Casa de Anne Frank: Prinsengracht 263-267. Funciona diariamente, das 9h às 21h, de março a setembro. Julho e agosto, o museu permanece aberto até as 22h. De setembro a março, fecha às 19h. Preço: 8,50 euros

Um beijo bom,
Camilla.

domingo, 29 de abril de 2012

QUAL É A TUA OBRA?, Mario Sergio Cortella

Quem tem vinte e poucos quase trinta, provavelmente está na fase de consolidação do seu papel no universo. Perguntas sobre que sou? Para que sirvo? Para onde vou? são bem comuns e, ao que parece, a grande maioria responde confirmando o caminho escolhido aos 16 anos. 
É preciso coragem e ousadia para, dentro do processo de autoconhecimento, parar, refletir e, quiçá, mudar de ideia e aventurar-se noutras bandas. 
Conheço pessoas que fizeram isso e se dizem mais felizes agora. Pois bem. 
Meu amigo cabeção (cursando pós-doc na área de pesquisas da cura do câncer – me perdoa se eu simplifiquei?), Rafael Zanin, indicou o livro do Mario Sergio Cortella, Qual é a tua obra? que tem a ver com aquela questão de “seu papel no universo”.
Em só 141 páginas, o filósofo Mario Sergio Cortella apresenta de forma sistêmica inquietações (não respostas!) para a pergunta Você se sente confortável e satisfeito quando pensa na sua obra? Ou se sente inquieto e um tanto quanto desconfortável? 


Quem escreve o prefácio é sua filha Ana Carolina Krämer, advogada criminalista, que ao final responde que a nossa obra é o futuro. E suas indagações foram para a contracapa: qual é a minha obra? É ser reconhecida? Tornar-me uma Rocky Balboa? Aprender a aprender? Saber o significado da minha poiesis? Construir uma nova competência? Distinguir o líder do chefe? Enfrentar a jornada do herói? Saber a diferença entre erro e negligência? Saber que não sei? Ser humilde? Saber aproveitar as oportunidades? Enfrentar o medo da mudança? Saber o tamanho do que tenho dentro do planeta? Saber o que a satisfação faz com a gente? Saber a velocidade das mudanças? Combater o bom combate?
É bem interessante se deparar com todas essas perguntas nebulosas que, mesmo para quem é estável, feliz e satisfeito com sua vida de trabalhador-assalariado, impõem umas quantas pulgas atrás das duas orelhas. Num mundo veloz e competitivo não sobra espaço para dúvidas. Ou sobra?

Senão vejamos... o autor inicia tratando de – profundo dilema – enxergar um significado maior na vida, aproximando a espiritualidade do trabalho. Dizendo que espiritualidade é a capacidade de olhar que as coisas não são um fim em si mesmas (...) E, assim, retrata um pouco da ideia de trabalho x prazer, ou se ela deve ser trabalho + prazer. Temos carência profunda e necessidade urgente de a vida ser muito mais a realização de uma obra do que de um fardo que se carrega no dia a dia. 
Com um apanhado histórico, o filósofo vai às origens da palavra trabalho, sugerindo que a ideia de trabalho como castigo precisa ser substituída pelo conceito de realizar uma obra (que os gregos chamavam de poiesis). Poiesis = minha obra, aquilo que faço, que construo, em que me vejo. A minha criação, na qual crio a mim mesmo na medida em que crio no mundo. Por isso aquela velha história de que para ser feliz precisamos plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Tudo são CRIAÇÕES, que trazem o LEGADO no seu âmago, né? Então é mais ou menos isso: nós buscamos ter qualidade de vida (enquanto vivos!), mas temos no nosso íntimo a vontade de nunca sermos esquecidos! :)

Ele falou que um dos traumas mais fortes que se tem atualmente é o de não ter reconhecimento: Todas as vezes que aquilo que você faz não permite que você se reconheça, seu trabalho se torna estranho a você. (...) Não vou falar capítulo por capítulo, porque como o livro é fininho, é justo que eu não faça spoilers e sua curiosidade faça com que o adquira imediatamente! Heheh
No mais, aborda a infame pergunta “sabe com quem está falando”, trazendo à tona a humildade como chave... e que a física quântica também ajuda: 
Você é um entre 6,4 bilhões de indivíduos, pertencente a uma única espécie, entre outras três milhões de espécies classificadas, que vive num planetinha, que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer.

O cara é muuuuito bom mesmo. Eu tenho uma sorte danada de sempre me indicarem títulos incríveis, que passo a amar e tomar como “diretrizes” para alcançar uma sabedoria razoável aos 50 anos e não encasquetar com coisas pequenas e materiais que não sejam amor, saúde, paz e netos!!

Além disso, só vou citar algumas frases phoda que ao longo dos capítulos conquistam nosso carisma (e não são necessariamente clichês, mas, sim, conclusões de um estudioso e bem sucedido filósofo do nosso tempo): Cuidado com gente cheia de certezas (...); Arrogância é um perigo porque ela altera inclusive a nossa capacidade de aprender com o outro, de entrar em sintonia (...); Ninguém fica num local apenas por conta do salário, mas sua permanência é também condicionada pela capacidade de enxergar a finalidade positiva do que faz, do reconhecimento do que obtém, do bem-estar que sente quando seu trabalho é valorizado e se percebe ali a possibilidade de futuro conjunto (...); Se eu sei que preciso passar por algumas atribulações, mas elas são a obtenção do positivo, farei com prazer e alegria. Se eu não conseguir entender por que estou fazendo aquilo e ficar em lamúria de forma contínua, aí o que vou obter é mero sofrimento (...); cautela imobilizadora x ímpeto inconsequente. 

E, para não cansar o meu leitor (olha que metida!) colaciono só mais essa: Reconhecer significa conhecer a si mesmo. Eu preciso me ver naquilo que faço. Do contrário, não me realizo. Se não me realizo – usando a palavra em duplo sentido -, não me torno real ou, se eu usar o termo em inglês, to realize, não me percebo. E se não me percebo no que faço, eu me sinto infeliz.

Dá vontade de colacionar inúmeras passagens para dar mais credibilidade à minha leitura de março, mas me limito a elencar os demais temas: ética, aética, integridade, arte de liderar, alteridade,... 
A leitura é bem gostosa e fluida, abre a mente para alguns pontos não antes considerados, convida a um refletir mais profundo sobre a utilidade que temos no nosso trabalho e o quanto a ideia de pertencimento é fundamental para ser feliz.

Baratim e finim, só não lê quem não quer.

Fechando com a frase de François Rabelais (escritor de Gargântua, Pantagruel, no século XVI): “Conheço muitos que não puderam quando deviam porque não quiseram quando podiam”.

Um beijo bom,
Camilla.

QUEM NUNCA?


Começou um livro – ainda que maravilhoso – e parou no início, no meio ou quase terminando?
Foi assim com a leitura de fevereiro, tendo parado na metade do Pequenas Alegrias. 
Para justificar esse corte, desculpas das mais variadas espécies serão inócuas de serem citadas, afinal, em fevereiro tem carnaval, tem carnaval. 
Todo caso, garanto que o conteúdo é jóia. O escritor alemão Herman Hesse - filósofo do belo e do vital, apologista da simplicidade franciscana e do franciscano respeito pelas coisas vivas - é EXTREMAMENTE descritivo, o que pode tornar seu texto meio truncado, mas mesmo assim sempre vale a sua filosofia! 
Exponho publicamente que estou com essa pendência na minha vida, porém, já que toquei no ponto, vou colocar um trechinho da orelha: (...) Começando com reflexões da juventude, aos 22 anos, sobre a arte de viver moderadamente e de apreciar os pequenos prazeres da vida, o livro termina com melancólicas considerações do homem enfermo e solitário de 83 anos. Mas esse ancião ainda não perdeu o senso de beleza que, nele, mais do que uma posição estética, é uma profunda filosofia de vida (...).

Uma leitura interrompida é aquilo que eu chamo de descaso com o autor, afinal ninguém quer ser abandonado no meio de uma conversa, né? Outros já passaram na sua frente, mas o meu Pequenas Alegrias amarelado, porque o achei num sebo, segue me espiando da estante. ;)

Vale ressaltar que conheci Hesse por meio do meu amigo Harold Hoppe, que indicou o livro Demian e, na sequência, O lobo da estepe, que estiveram dentre minhas leituras de 2010/2011 e oportunamente receberão merecida atenção nesse singelo blog. :}

Pequenas Alegrias (1977),  é mais ou menos assim:
(...) Cada dia experimentar tanto quanto possível de pequenas alegrias, e distribuir os prazeres mais extenuantes, maiores, parcimoniosamente pelos dias de feriado e pelas horas livres, é o que eu gostaria de aconselhar a qualquer pessoa que sofre de falta de tempo e de algum desgosto. Para nos recuperarmos de qualquer coisa, especialmente para alívio diário, foram-nos dadas as pequenas alegrias, e não as grandes (...).

Um beijo bom,
Camilla.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA, Alain de Botton

Outro título que ganhou minha atenção em Janeiro, foi Como Proust pode mudar sua vida.
Alain de Botton é o cara!
 
Descobri ele em 2009, num cantinho duma página da revista Casa Cláudia, onde indicavam o livro A arquitetura da felicidade (leitura de 2009). Espetacular! Fiquei encantada com o escritor de O Movimento Romântico, A arte de viajar (presenteei ex-namorado) e Prazeres e desprazeres do trabalho (presenteei minha amiga Josianne Zanoto).
 
Alain é o filósofo suíço mais influente dos últimos tempos. Tem um estilo de escrever fantástico (by Hugo Carson), e eu fico passada com as conclusões lógicas que ele faz sobre qualquer assunto. Ouso dizer ´´eu já pensei nisso antes, só não conseguiria escrever``, mas lá no fundo fico com a sensação do quanto eu preciso estudar e viver (não só existir) para minhas sinapses colaborarem.
 
Cheguei ao Como Proust pode mudar sua vida ocasionalmente, apesar de já conhecer o autor, porque fui em busca do A arquitetura... para presentear minha amiga Natália Maicá que se formava em arquitetura no início do ano, porém o carinha da Livraria Cultura disse que estava esgotado inclusive na editora. :/
Aí comprei o do Proust, um para ela e outro para mim.
 
Marcel Proust despontou e foi reconhecido só depois da morte (normal!) e seu título Em busca do tempo perdido está na minha listinha, mas seria como prometer ler Pontes de Miranda e se formar em Direito sem terminar o primeiro capítulo do Tomo I: é difícil, chato e extenso.
Para meu alento, Alain explora, em nove lições, a sabedoria existente nas páginas de Em busca do tempo perdido. Com humor e erudição, ele revela como o escritor Marcel Proust pode ser um bom conselheiro sobre a vida, as relações sociais, o amor e o sofrimento, e assim celebra a força atemporal de um grande romance (copy-paste da contracapa).
 
O texto é engraçado, estimulante e inteligente. Daqueles que tu destaca várias frases de efeito (!), e tem vontade de contar bem feliz para todo mundo que encontrou a solução para os problemas.
Os 9 capítulos tem os seguintes títulos: Como amar a vida hoje; Como ler para si mesmo; Como não se apressar; Como sofrer com sucesso; Como expressar suas emoções; Como ser um bom amigo; Como abrir os olhos; Como ser feliz no amor; Como abandonar os livros.
 
Não. NÃO é da categoria auto ajuda! Hehe O título e os nomes dos capítulos levam a crer que é da (mais vendida) categoria de auto ajuda, do tipo ´Como ser feliz no matrimônio sem lavar a louça do almoço`, ou ´Como subir na carreira sendo simpático com a tia do café`, mas católica e schoenstatteana que sou não acredito nos livros de auto ajuda, em regra, porque até segunda ordem tenho vivido super bem com a minha fé.
Voltando aos capítulos, cada um explora a ideia com base em trechos do livrinho do Proust. Só que a interpretação é bem divertida e recheada de exemplos, tanto que eu li rapidinho em 2 dias.

Eu acho que essas 251 páginas vão te fazer mais feliz do que Queijo, Segredo ou Lauro Trevisan. Vai por mim, vale a pena.

Um beijo bom,
Camilla.

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, Emily Brontë

O único romance escrito pela britânica Emily Brontë, lançado em 1847, tornou-se um clássico da literatura mundial. E eu cheguei a este título justamente pela fama de clássico
(porque normalmente não compraria um romance!).
Wuthering Heights é, na maior parte do tempo, uma narração que a governanta Ellen Dean faz a Lockwood (locatário da propriedade ´´Granja da Cruz dos Tordos``, localizada em Gimmerton no interior da Inglaterra) contando a história da família que ali viveu.
Como ela foi testemunha ocular de todos os acontecimentos (by Wiki), está a par de tudo e todos, e descreve detalhes da personalidade de cada envolvido na trama: uma sequência de fatos de 1757 a 1803.
Só quando terminei tive a brilhante ideia de fazer uma árvore genealógica da família, por isso sugiro que o leitor interessado faça isso desde o início, no decorrer dos capítulos, sob pena de, sempre que retornar à cia. do livro, voltar algumas páginas para pegar o fio da meada.
´´Seeenta, que lá vem a história´´: Earnshaw faz uma viagem e adota um órfão chamado Heathcliff. O filho legítimo Hindley fica enciumado da afeição do pai pelo menino, já a filha Catherine se afeiçoa por ele. Quando Earnshaw morre, Hindley humilha Heathcliff. E, apesar do amor entre este e Catherine, ela casa com Edgar Linton – um moço que daria mais condições para ela viver. Heathcliff vai embora e anos depois retorna rico, chamando atenção de Catherine. Ela tem uma filha de Edgar e morre na sequência.
Ufa, está acompanhando?? Continuando: Heathcliff tem desejo de vingança contra Edgar e Hindley, então se casa com Isabella (irmã de Edgar), que vem a abandoná-lo e deixa um filho de nome Linton. Hindley ´´se joga no jogo`` e bebida e perde seus bens para Linton. Hareton (filho de Hindley) fica sem herança. Aí, antes de Edgar morrer, Heathcliff casa Linton com Cathy (filha de Catherine e Edgar). Ocorre que quando Linton morre, Cathy se vê desamparada e sem bens, porque Heathcliff apresenta um testamento em que o filho passara tudo para ele. Por fim, Heathcliff morre na loucura e solidão, e como último desejo é enterrado ao lado de Catherine.
Então é isso.. o amor (?) é consolidado e ´´vivido`` apenas na eternidade. Suspiros! #ironia.
Enfim, acredito que não fiz spoiler, porque quando você for ler já vai ter esquecido toda essa confusão, né?

Ao ler O Morro dos ventos uivantes tinha a apreensão de que em seguida ia ler a felicidade dos personagens, mas isso não acontece já que é um texto que pouco fala de amor!
Amor de verdade é cuidado, tolerância, admiração, e tudo o mais de lindo e rosa que, apesar dos percalços, se sustenta porque tem um propósito maior. E o que sentia na trama era uma paixão devastadora, que resistiu ao tempo, mas permeada de muito rancor e ódio.
Sinceramente, esse paradoxo me fez questionar o porquê do senso comum elevar esse livro a um clássico dentre os romances...
Aí fui atrás:
Associamos romance ao Romantismo (movimento artístico, político e filosófico..). E quando a gente vai na seção Romance de uma livraria esperamos ver ali só belas histórias de amor. Natural, né?
Acontece que o termo romance, no sentido moderno, quer dizer ´´uma composição em prosa`` (Inclusive, o Realismo (!) teria no romance sua base fundamental, pois apenas este permitia a minúcia descritiva, que exporia os problemas sociais). Portanto, aí está o pulo do gato e a justificativa que eu queria para dizer que aos meus olhos a história de ´´amor`` entre Heathcliff e Catherine, amigos de infância e cruelmente separados pelo destino, não passa de uma história de obsessão e loucura por possuir o outro, mas que está no gênero literário romance.
Pois bem, paro aqui porque sequer tenho formação para debater categoria, gêneros ou escolas da literatura.

Quanto a história em si, é cheia de idas e vindas, desejo, ódio, traição e vingança. O coraçãozinho véio até aperta por pensar que o ser humano é capaz de tudo, ainda que o movel seja vazio e sem sentido.
Acho que vale, sim, a leitura, por se tratar de um livro histórico e muito aplaudido, que teve mil adaptações, virou filme, série, ópera, musical, além de novelas (inclusive brasileira). Além do mais, é muito envolvente e com forte conteúdo nas entrelinhas.
Segue o link do livro em pdf:

O Morro dos ventos uivantes

* Já tinha encerrado o post, mas me ocorreu de trazer pontos de vista de experts.
Desculpem pelo post gigante!
Então, para quem quiser aprofundar, apresento links de 3 críticas literárias do livro:

Daíse Lílian Fonseca Dias, estudiosa da UFCG, é autora de um artigo intitulado ´´O erro trágico de Cathy em O Morro dos ventos uivantes``. O texto é ótimo, com uma análise histórica do gênero em que o livro se insere, bem como dos seus reflexos na sociedade da época. Aborda a tragédia x trágico, e pontua, por exemplo: (...) Brontë parece denunciar que a sociedade inglesa e imperialista é responsável pela transformação de Heathcliff em um homem amargo, infeliz, vingativo. Ele representa o terror do inglês sobre o que poderia acontecer se um homem que foi considerado e tratado como inferior à própria raça humana tivesse o poder de ação, porque o resultado seria a vingança e a destruição insensata dos antigos opressores. Durante muito tempo de sua vida, Heathcliff só conheceu aspiração e derrota de várias naturezas, tensão entre seus próprios impulsos e a resistência absoluta do mundo que o cercava. Apenas em Cathy ele encontrou identificação, compreensão, união, companheirismo, um lar, amor, mas a sociedade foi inimiga do seu ideal, condenando-o à impossibilidade de encontrar um ambiente acolhedor, à errância, e à dissolução do eu com a perda de Cathy; sua única culpa é ser ele mesmo (...). Artigo inteiro da Lilian Fonseca Dias

No site shvoong.com ( Boa crítica! )
(...)A obra conta com personagens fortes, bem estruturadas e com presença marcante, cujas emoções e sentimentos são colocados em primeiro plano. Mostra o amor e a obsessão em suas formas mais cruas, sem qualquer alegoria, e põe em evidência o egoísmo humano, onde as vontades, desejos e crenças se chocam numa luta constante. Estas são características que mostram o distanciamento da autora ao estilo da época, a tradição vitoriana, e as possíveis influências de Emily Brontë, como a poesia e o romance góticos de vários autores da época, como exemplo o clássico Frankstein, de Mary Shelley (...) 

Marcos Cassiano opina (Vale a pena ler tudo hihi):
(...) “O Morro dos Ventos Uivantes” foi tido como maldito quando do seu lançamento, com severas críticas à autora, que se escondia sob um pseudônimo masculino. Para muitos críticos era impossível uma história tão densa ter saído da mente de uma mulher, vista por alguns como se tivesse um demônio dentro de si para criar tão amoral personagem. Ao contrário de “Jane Eyre” e “Agnes Grey”, romances de Charlotte Brontë e Anne Brontë respectivamente, irmãs da autora, que se tornaram sucesso de critica e leitores, “O Morro dos Ventos Uivantes” sofreu com a rejeição dos leitores ingleses, que não sabiam onde situar a obra, com sua trama complexa transitando entre um romantismo desconstruído e um realismo silvestre. (...) 

Um beijo bom,
Camilla.
obs: preciso de dicas pra editar em html, help me! :X

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Uma ideia que num ímpeto virou blog

Quando temos uma ideia, melhor a fazer é colocá-la em prática.
Se ficar pensando muito a coisa não sai.

O Companhia de papel foi uma ideia que num ímpeto virou blog.
Objetiva – vou delinear um foco, mas isso não exclui alguns desvios do caminho, ok? – acompanhar meus progressos nas leituras.

Minha meta é sempre, no mínimo, 12 livros ao ano. E bons livros.
É claro que bom ou ruim é um adjetivo que normalmente vamos definir lá pelo terceiro capítulo, mas entenderam que a regra é seguir inspiração, indicação ou intuição na escolha das leituras, né? E torcer para ser seduzido e rolar um entrosamento com o texto. Até porque nosso tempo é corrido e, salvo algumas exceções, ter uma companhia chata é um saco!

Estamos em abril, mas vou dar efeito ex tunc para o blog e escrever sobre os livros de janeiro, fevereiro e março, se me permitem...
Das lindas leituras de 2011 para trás, facinho lembrarei de tudo. :P
Então fica o compromisso de um post futuro sobre elas.. nem que seja um apanhado geral.

Companhia de papel. Uma das melhores.
No tapete, bus, avião ou no confortável sofá de fibra siliconada.
Vinho, chá ou com sede. Sentado, deitado, torto ou de bruços.
Segurando com uma ou duas mãos, o que importa é o prazer.

Um livro é uma boa companhia porque pode estar em qualquer lugar, nunca te cobra, está sempre disposto a te fazer feliz, entende quando tu é negligente e omisso...
Te leva para longe e traz para dentro, otimiza teu coração e emociona teu lado racional.

Sem mais delongas, fico por aqui nesse primeiro ímpeto.
Que esse espaço seja útil, especialmente para mim. :)

Um beijo bom,
Camilla.
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