terça-feira, 24 de julho de 2012

Sobre Tintim e a teimosia das lembranças

Como a memória da gente é condicionada e, às vezes, aprisionada.
Ao ver uma chamada, na internet, para o filme As Aventuras de Tintim, eu meio que quis fechar os olhos (!) pra não ver a imagem dele como animação no cinema: preferi não confundir a lembrança feliz que construí no tempo em que via os desenhos do Tintim, seu cãozinho Milu e o Capitão Haddock.
Acho que acontece o mesmo com certas pessoas ou livros. Relutamos em ver noutra versão.


Um beijo bom,
Camilla.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

FÁBULAS, Paulo Coelho.

Tenho certeza que alguns fizeram uma reserva mental crítica quando viram PAULO COELHO no título do post, mas aí está a minha leitura de junho: Fábulas – Histórias de Esopo e La Fontaine para o nosso tempo.
Depois de muito tempo sem ter nas mãos um livro deste autor, novamente estive com Paulo, que vendeu, até hoje, um total de 100 milhões de livros, em mais de 150 países, tendo suas obras traduzidas para 66 idiomas e sendo o autor mais vendido em língua portuguesa de todos os tempos. :O
Mesmo com todo esse currículo ele divide opiniões por conta da conturbada biografia [mundo das drogas, manicômio, ocultismo, sociedades secretas..] e das ideias sobre espiritualidade e esoterismo.. nem todos lembram que o sucesso de Raul Seixas muito se credita às letras compostas por PC! #tenteoutravez
De todas as suas obras, só li Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei, Veronika Decide Morrer, O Demônio e a Srtª Prym e O vencedor está só.
[Para quem não torce o nariz para Paulo Coelho, ele escreve para o portal G1 textículos dignos de uma olhadinha num tempo ocioso entre a digestão do almoço e o cafezinho! ]

FÁBULA é um gênero narrativo que teria sido desenvolvido na Grécia antiga por um escravo chamado Esopo, no século VII a. C. Ele inventava histórias em que os animais eram os personagens, e pelos diálogos entre bichos transmitia sabedoria de caráter moral ao homem. O francês Jean de La Fontaine (1621-1695) foi um dos maiores divulgadores dos textos de Esopo, recriando essas fábulas com o objetivo de "educar" o homem de sua época... O que Paulo Coelho fez foi compilar algumas dessas fábulas!! :D






“Fábula é um discurso mentiroso que retrata uma verdade.” - Theon (século I d.C.); 

“A fábula tem dupla finalidade: entreter e aconselhar”. - Fedro (século I d.C.);

“A fábula é uma pequena narrativa que, sob o véu da ficção, guarda uma moralidade”. - La Fontaine (século XVII).




Na orelha do Fábulas – Histórias de Esopo e La Fontaine para o nosso tempo diz que é um livro para os filhos, para os pais, e para os pais lerem com os filhos... Tranquilamente, daria de presente para amigos de 08, 32 ou 45 anos de idade porque o conteúdo é universal e atemporal. O que Paulo Coelho faz é dar um toque mais contundente e ácido quando adapta aos dias de hoje as lições de moral, que são impressas em itálico ao final de cada fábula.
Na Folha de São Paulo, Fábio Victor referiu: Em "A Lebre e a Tartaruga", por exemplo, a história fica intacta - certa da vitória, a lebre vai cochilar e perde a corrida para a tartaruga -, mas a moral consagrada vai na linha "devagar se vai ao longe". Já Coelho crava: "A diligência é o que faz com que ganhemos as competições".

Em que pese surgidas há quase 2 mil anos – como literatura oral –  percebo que as fábulas estão mais presentes do que nunca no nosso mundo moderno. Exemplifico com o advento (e consolidação!) dos filmes de animação. Toy Story, Carros, Madagascar, Rio são alguns exemplos do gênero que alcança adultos e crianças com a mesma aceitação, cujos temas giram na busca da justiça, forte versus fraco, disputa de poder, luta do bem e do mal... Pra gente ver que não só hoje, mas desde o surgimento do senso de conhecimento/cultura na humanidade, o homem se vale de coisas animadas e inanimadas da natureza para transmitir valores e princípios humanos! Como se essa antropomorfização pseudorretirasse a autoria de nossos comportamentos sociais transgressores ou os suavizasse quando praticados por simpáticos animaizinhos (araras Blu e Jade, leão Alex, pinguim Kowalski) ou objetos (carro Relâmpago McQueen, boneco de pano Woody..).

 

Contando no máximo com 4 ou 5 parágrafos cada fábula, achei uma leitura rápida e leve, e algumas páginas contam com a tinta do ilustrador Renato Alarcão! :)

Livro bom (conteúdo relevante), bonito (com ilustrações fofas) e barato (cerca de 20 reais).
Das 96 fábulas, destaquei algumas que colaciono abaixo para dar o gostinho das belas lições de moral e ética contidas nessas curtas estórias:

O caranguejo e sua mãe
Uma carangueja velha olha para seu filho e diz: ´´Por que você sempre caminha de lado, meu filho? Você deveria andar em linha reta.´´
O filhote responde:
´´Ensina-me como fazer isso, mãe, que seguirei o seu exemplo.´´
A velha carangueja tenta várias vezes, mas não consegue.
Diz finalmente:
´´Desculpe, meu filho. Estou errada em tentar corrigir aquilo que é parte de nossa maneira de ser.``

Dar o exemplo é sempre melhor do que fazer uma crítica.
**Júpiter e a tartaruga
Júpiter ia se casar e decidiu convidar todos os animais ao banquete de comemoração.
Todos compareceram, bem-vestidos e cobertos de presentes – exceto a tartaruga, que morava perto de um lindo campo de flores.
Alguns dias mais tarde, Júpiter a encontrou próxima de um rio e perguntou por que ela não tinha ido à festa.
´´Porque não há nenhum lugar como a minha casa``, foi a resposta.
Furioso, Júpiter decidiu que, a partir daquele dia, a tartaruga viveria com a sua casa presa às costas, nunca mais podendo sair, mesmo que quisesse.

Quando os deuses querem enlouquecer as pessoas, satisfazem todos os seus desejos.
** O adivinho
Um adivinho passava seus dias no mercado prevendo o destino daqueles que o remuneravam com algumas moedas. 
Certa manhã, um grupo de garotos se aproximou, dizendo que a casa do adivinho havia sido saqueada por ladrões, e que eles tinham levado absolutamente tudo.
Desesperado, o adivinho saiu correndo para sua casa, gritando e pedindo ajuda. As pessoas olhavam assustadas, e uma delas comentou:
´´É mais fácil saber o destino dos outros do que entender o que está acontecendo em sua própria vida``.

Quem tenta saber mais sobre os outros termina esquecendo de aprender sobre si mesmo.
**A pulga e o boi
Uma pulga disse para o boi:
´´Por que um animal forte como você passa a vida servindo o homem, enquanto eu, que sou pequenina, sugo o sangue dele sem problemas?''
O boi respondeu:
´´Os homens são bons para minha espécie e sou grato a eles. Eles me dão abrigo e comida e, de vez em quando, demonstram afeto me dando umas palmadinhas nas costas.``
E a pulga entrou imediatamente em depressão. Mesmo que fosse capaz de sugar o sangue humano, jamais conseguiria receber umas palmadas carinhosas, pois seria incapaz de sobreviver a qualquer manifestação de afeto.

Melhor pouco amor do que se alegrar por estar sozinho.

**O velho leão
Um leão, enfraquecido pela idade, decidiu recorrer à astúcia em vez da força para caçar.
Deitou-se em sua caverna e fingiu estar doente. Assim, quando os outros animais entravam para saber se aquele grande animal selvagem tinha finalmente desaparecido, ele pulava e os devorava imediatamente.
Muitos morreram dessa maneira, até que um dia passou por ali uma raposa. Ainda do lado de fora, gritou:
´´Como vai, senhor leão?``
´´Muito mal, senhora raposa, me sinto muito farco... Por favor, entre para conversarmos.``
E a raposa respondeu:
´´Adoraria entrar e até faria isso se não fosse pelas pegadas desenhadas na areia. Elas só mostram animais entrando – e nenhum saindo dessa caverna.``

Antes de percorrer um caminho, escute as histórias daqueles que já passaram por ali.

Um beijo bom,
Camilla.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, Miguel de Cervantes

Daí que finalmente encarei um dos livros que mais desejava nos últimos tempos: O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha!
Sempre gostei muito da Espanha mesmo antes de ter a oportunidade de conhecer Madri em 2011! A sua história e geografia contribuem para um sonho distante de lá morar, nem que seja temporariamente, como fizeram meus amigos César Teixeira, Harold Hoppe, Marco Antônio Dalla Costa e Cristina Landerdahl. Meu interesse é inexplicável, até porque minhas origens remontam os vizinhos Portugal e Itália, mas tenho que a cultura da Espanha é algo para ser explorado nessa vida, e eu começo com a literatura!
 
Dom Quixote é o maior expoente da literatura espanhola e faz mais de 400 anos que encanta o imaginário da população e turistas (está em todas as lojas de souvenir!) porque o protagonista traduz, mesmo que na sua loucura, o ideal de homem honrado, com princípios e que batalha pelo que acredita certo.
O artista plástico Kleber Galvêas escreveu que Dom Quixote é uma obra genial escrita no olho do furacão da Inquisição (Espanha). É sátira cruel ao homem, que abdica da individualidade, moldando sua vida e sentimentos pela palavra escrita e, que é capaz de jurar, com a mão sobre o livro, ter fé, seguir os preceitos e dizer a verdade. Novela composta com inteligência e sutileza, foi examinada e aprovada por doutores, em teologia, de tribunais poderosos e sem paralelo na história.

A parte 1 do DOM QUIXOTE foi minha leitura de maio e, s.m.j., uma das mais marcantes da minha breve vida! Dado o contexto histórico da Espanha de 1605 – ano em que Miguel de Cervantes publicou a primeira parte da obra -, este autor foi tido como revolucionário e sua obra-prima a expressão máxima do Romance moderno! Tem todo um lance de protesto político-social-religioso contra o excesso cavaleiresco e nobilizante idealismo do Renascimento, motivo pelo que muitos autores se debruçam nas entrelinhas para publicarem trabalhos e teses sobre o engenhoso fidalgo e seu criador Cervantes.
E, por conta da imensidão de interpretações da obra, a minha ousadia esbarra na minha humildade de ter feito este singelo post que agora vos ofereço a ler. Para quem interessar: busque na Enciclopédia Barsa (!) ou Google mais detalhes! 
Para se localizar (como também o fiz antes de abrir o livro!), sugiro que procure um mini-apanhado histórico da Espanha daquela época e a biografia do Miguel de Cervantes y Saavedra ((Século de ouro espanholDon Quixote de la Mancha e Espanha)).
O livro é composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira publicada em 1605 e a outra em 1615. Quero destacar que se trata de uma leitura meio densa, não quanto ao conteúdo exatamente, mas quanto a linguagem utilizada. Não é o tipo de livro que tu consiga ler na multidão, no ônibus, na praia etc. A meu ver é preciso escolher um lugar calmo, tranquilo e com mínimo de distração para poder render. ;)

O texto tem muitas observações e notas de rodapé em que o autor faz links de outros autores e livros dos quais a gente nunca ouviu ou vai ouvir falar! Sem falar nas palavras ´´difíceis`` (onze a cada dez #brinks) que enchem os olhos e enriquecem o vocabulário, mas que não prejudicam a compreensão de alguém já diplomado.
 
Destaco duas das mais marcantes características desta obra-prima: LINGUAGEM REBUSCADA e HUMOR. Com uma linguagem burlesca e pitoresca, a narrativa convence, comove, instiga e motiva. A linguagem rebuscada até poderia se tornar um obstáculo, não fossem as altas doses de humor que Cervantes se utiliza para demonstrar o devaneio do Cavaleiro da Triste Figura! Considerando que Cervantes teve por ideal PARODIAR romances de cavalaria que pululavam aquele período na Europa, os contrastes exagerados e o consequente humor são instrumentos certeiros para tanto! Nesse aspecto não posso deixar de comparar com Voltaire, que também usou do humor para criticar a obra do Leibniz (Vide post anterior!)
 
Afinal, quem é Dom Quixote?  ´´Orçava na idade o nosso fidalgo pelos cinquenta anos. Era rijo de compleição, seco de carnes, enxuto de rosto, madrugador, e amigo da caça``.
É um fidalgo castelhano de La Mancha (um dos tantos povoados da Espanha) que de muito ler livros sobre aventuras e heróis destemidos resolve VIRAR um herói da noite para o dia...
 
´´Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo.`` (capítulo I)

Uma vez alterado o juízo ou, melhor dizendo, enlouquecido, (...)pareceu-lhe convinhável e necessário, assim para aumento de sua honra própria, como para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo o que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama (capítulo I).
 
Para sua empreitada foi necessário eleger um cavalo a quem nomeou ROCINANTE e um fiel escudeiro, o vizinho Sancho Pança (cuja montaria é um asno!). Este, por sua vez, recebe a fantástica promessa de ´´ganhar`` uma ilha para governar, em troca da parceria nas aventuras com Quixote, seu amo.

A história é muito legal e engraçada, com aventuras hilárias, supostas lições de moral e Sancho como uma metralhadora de provérbios. o/
Dom Quixote usa os óculos da fantasia de herói para buscar batalhas, enquanto que Pança TENTA puxá-lo para a realidade, o que raramente consegue..
 
Como escreveu a professora paranaense Eva Paulino Bueno: Dom Quixote viu exércitos de guerreiros, Sancho viu um rebanho de carneiros. Quando Dom Quixote viu gigantes, Sancho viu moinhos. (...) O movimento pendular entre o idealismo do cavaleiro e o realismo popular do seu escudeiro é a própria trama de todo o romance. Se ainda hoje o leitor vibra com Quixote e ri de Sancho, é porque se emociona com a capacidade que esses personagens tem de tocar no que temos de mais profundo, nas inúmeras contradições que carregamos em segredo dentro de nós. (...)
 
Entrementes, sigo lendo a segunda parte da obra, da qual não pretendo fazer outro post por entender este suficiente para motivar os corajosos que pretendam desbravar a Espanha junto com a dupla quixotesca.
Vale muito a leitura, inclusive porque, em princípios de maio de 2002, foi escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos, e eu não via a hora de conferir e poder formar minha própria opinião!! 
É uma obra de arte literária inspiradora e atual... o que movia Dom Quixote era a idéia de fazer justiça num mundo tão falto dela!

Um beijo bom,
Camilla.
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