quarta-feira, 4 de julho de 2012

DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, Miguel de Cervantes

Daí que finalmente encarei um dos livros que mais desejava nos últimos tempos: O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha!
Sempre gostei muito da Espanha mesmo antes de ter a oportunidade de conhecer Madri em 2011! A sua história e geografia contribuem para um sonho distante de lá morar, nem que seja temporariamente, como fizeram meus amigos César Teixeira, Harold Hoppe, Marco Antônio Dalla Costa e Cristina Landerdahl. Meu interesse é inexplicável, até porque minhas origens remontam os vizinhos Portugal e Itália, mas tenho que a cultura da Espanha é algo para ser explorado nessa vida, e eu começo com a literatura!
 
Dom Quixote é o maior expoente da literatura espanhola e faz mais de 400 anos que encanta o imaginário da população e turistas (está em todas as lojas de souvenir!) porque o protagonista traduz, mesmo que na sua loucura, o ideal de homem honrado, com princípios e que batalha pelo que acredita certo.
O artista plástico Kleber Galvêas escreveu que Dom Quixote é uma obra genial escrita no olho do furacão da Inquisição (Espanha). É sátira cruel ao homem, que abdica da individualidade, moldando sua vida e sentimentos pela palavra escrita e, que é capaz de jurar, com a mão sobre o livro, ter fé, seguir os preceitos e dizer a verdade. Novela composta com inteligência e sutileza, foi examinada e aprovada por doutores, em teologia, de tribunais poderosos e sem paralelo na história.

A parte 1 do DOM QUIXOTE foi minha leitura de maio e, s.m.j., uma das mais marcantes da minha breve vida! Dado o contexto histórico da Espanha de 1605 – ano em que Miguel de Cervantes publicou a primeira parte da obra -, este autor foi tido como revolucionário e sua obra-prima a expressão máxima do Romance moderno! Tem todo um lance de protesto político-social-religioso contra o excesso cavaleiresco e nobilizante idealismo do Renascimento, motivo pelo que muitos autores se debruçam nas entrelinhas para publicarem trabalhos e teses sobre o engenhoso fidalgo e seu criador Cervantes.
E, por conta da imensidão de interpretações da obra, a minha ousadia esbarra na minha humildade de ter feito este singelo post que agora vos ofereço a ler. Para quem interessar: busque na Enciclopédia Barsa (!) ou Google mais detalhes! 
Para se localizar (como também o fiz antes de abrir o livro!), sugiro que procure um mini-apanhado histórico da Espanha daquela época e a biografia do Miguel de Cervantes y Saavedra ((Século de ouro espanholDon Quixote de la Mancha e Espanha)).
O livro é composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira publicada em 1605 e a outra em 1615. Quero destacar que se trata de uma leitura meio densa, não quanto ao conteúdo exatamente, mas quanto a linguagem utilizada. Não é o tipo de livro que tu consiga ler na multidão, no ônibus, na praia etc. A meu ver é preciso escolher um lugar calmo, tranquilo e com mínimo de distração para poder render. ;)

O texto tem muitas observações e notas de rodapé em que o autor faz links de outros autores e livros dos quais a gente nunca ouviu ou vai ouvir falar! Sem falar nas palavras ´´difíceis`` (onze a cada dez #brinks) que enchem os olhos e enriquecem o vocabulário, mas que não prejudicam a compreensão de alguém já diplomado.
 
Destaco duas das mais marcantes características desta obra-prima: LINGUAGEM REBUSCADA e HUMOR. Com uma linguagem burlesca e pitoresca, a narrativa convence, comove, instiga e motiva. A linguagem rebuscada até poderia se tornar um obstáculo, não fossem as altas doses de humor que Cervantes se utiliza para demonstrar o devaneio do Cavaleiro da Triste Figura! Considerando que Cervantes teve por ideal PARODIAR romances de cavalaria que pululavam aquele período na Europa, os contrastes exagerados e o consequente humor são instrumentos certeiros para tanto! Nesse aspecto não posso deixar de comparar com Voltaire, que também usou do humor para criticar a obra do Leibniz (Vide post anterior!)
 
Afinal, quem é Dom Quixote?  ´´Orçava na idade o nosso fidalgo pelos cinquenta anos. Era rijo de compleição, seco de carnes, enxuto de rosto, madrugador, e amigo da caça``.
É um fidalgo castelhano de La Mancha (um dos tantos povoados da Espanha) que de muito ler livros sobre aventuras e heróis destemidos resolve VIRAR um herói da noite para o dia...
 
´´Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo.`` (capítulo I)

Uma vez alterado o juízo ou, melhor dizendo, enlouquecido, (...)pareceu-lhe convinhável e necessário, assim para aumento de sua honra própria, como para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo o que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama (capítulo I).
 
Para sua empreitada foi necessário eleger um cavalo a quem nomeou ROCINANTE e um fiel escudeiro, o vizinho Sancho Pança (cuja montaria é um asno!). Este, por sua vez, recebe a fantástica promessa de ´´ganhar`` uma ilha para governar, em troca da parceria nas aventuras com Quixote, seu amo.

A história é muito legal e engraçada, com aventuras hilárias, supostas lições de moral e Sancho como uma metralhadora de provérbios. o/
Dom Quixote usa os óculos da fantasia de herói para buscar batalhas, enquanto que Pança TENTA puxá-lo para a realidade, o que raramente consegue..
 
Como escreveu a professora paranaense Eva Paulino Bueno: Dom Quixote viu exércitos de guerreiros, Sancho viu um rebanho de carneiros. Quando Dom Quixote viu gigantes, Sancho viu moinhos. (...) O movimento pendular entre o idealismo do cavaleiro e o realismo popular do seu escudeiro é a própria trama de todo o romance. Se ainda hoje o leitor vibra com Quixote e ri de Sancho, é porque se emociona com a capacidade que esses personagens tem de tocar no que temos de mais profundo, nas inúmeras contradições que carregamos em segredo dentro de nós. (...)
 
Entrementes, sigo lendo a segunda parte da obra, da qual não pretendo fazer outro post por entender este suficiente para motivar os corajosos que pretendam desbravar a Espanha junto com a dupla quixotesca.
Vale muito a leitura, inclusive porque, em princípios de maio de 2002, foi escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos, e eu não via a hora de conferir e poder formar minha própria opinião!! 
É uma obra de arte literária inspiradora e atual... o que movia Dom Quixote era a idéia de fazer justiça num mundo tão falto dela!

Um beijo bom,
Camilla.

9 comentários:

  1. Belo Texto Camilla!
    Cada vez que entro no Blog as livrarias do Brasil comemoram rsrs.

    Frederico da Luz - http://fredericodaluz.wordpress.com/

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    1. Obrigadinha, Fred!!
      Essa semana tb deixei umas doletas na estantevirtual.com.br:
      - O sol é para todos;
      - O paradoxo da escolha;
      - O Cristianismo puro e simples (que emprestei e não voltou) heheh

      E todos vão disputar espaço nesse ano - corrido - que já está da metade pro fim!! Bj

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  2. Li o livro na minha juventude. Anos depois, li novamente. Econcordo com as suas colocações. Parabéns.

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    1. :D
      Marcante história, né?!
      Legal se a gente tentar ser um mínimo Quixotesco nessa vida!
      bjo

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  3. Oii Camilla, acompanho teu blog, acho muito bacana tu dividir tuas leitura com o povo.. hehehe queria eu ter mais tempo pra ler mais, mas me falta organização pra isso. Mas se me permite tenho uma dica de leitura pra te dar, mas vou puxar o carvão para a minha sardinha.. Eu estudo Biologia.. então sou apaixonada pela vida.. :D Tem um livrinho muito interessante que gostaria de compartilhar.. em uma disciplina de Educação o professor leu algumas das histórias que aparecem no livro e não tem como não ficar com vontade de ler as outras... mas elas são um tanto "biológicas".. fala sobre a animalidade humana e a humanidade animal, mas quem gosta de leitura gosta de experimentar qualquer tema certo?! Talvez o Maurício goste.. ele que é mais dos bichos.

    - VOCÊ É UM ANIMAL, VISKOVITZ
    Autor: O ex-biólogo italiano Alexandre Boffa

    Beijãoo Boas Leituras.

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    1. Mariana!!Obrigada pelo retorno, querida! Como bem falaste, é mais questão de organização do que tempo. hehhehe São tantas coisas por fazer na semana, né? Sobre tua dica, está devidamente anotada!
      http://companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11037
      Me interessei! Valeu, Mari!!

      Bjao e volte sempre!!

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  4. "...nas inúmeras contradições que carregamos em segredo dentro de nós..."

    *** E pensar que Cervantes escreveu esta obra-prima enclausurado numa cela! Como você bem disse, as interpretações de Dom Quixote são inúmeras ao longo dos séculos. (Que) Viva (dentro de nós) o Cavaleiro da Triste Figura!!!!

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  5. Adooooreeei a resenha Camilla...adorei mesmo...hehehehe..é exatamente o que eu pensava do livro sabe...foi engraçado ler...porque cada pessoa tem uma opnião diferente de cada obra...aaa e ADOREI o blog inteiro.. :D

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