segunda-feira, 27 de agosto de 2012

UM GOSTO E SEIS VINTÉNS, de W. Somerset Maugham

Fui me inteirar do significado desse livro só da metade para o final quando dei uma olhadinha no Google e percebi que Um gosto e seis vinténs (1919) é baseado na vida do pintor francês Paulo Gauguin (pós-impresionista). A genialidade do Maugham fica por conta do uso da literatura para fazer um livro biográfico e possibilitar esse tipo de surpresa boa ao leitor!

Minha companhia do mês de agosto foi dada pelo escritor inglês William Somerset Maugham (Paris, 1874-1965), um dos mais populares autores do século XX (pelo visto não estou por dentro, porque nunca vi mais gordo!).
Nesta obra de 1919 ele desenvolve a história do cidadão londrino Strickland, corretor de bolsa de valores, desde sua vida familiar com esposa e filhos até o abandono de tudo isso (da civilização ocidental) para se tornar um artista revolucionário.
Num estilo meio machadiano (de falar com o leitor), o narrador/personagem conhece Rose Waterford, uma mulher que gosta de receber artistas em sua casa e fazer chás e jantares.. Ela apresenta a Sra. Strickland ao convidado, que por sua vez é apresentado ao Sr. Strickland. Posteriormente, nosso narrador fica sabendo que o tal Charles Strickland, pai de dois filhos, abandona tudo repentinamente porque resolveu pintar por pintar, por amor à arte. Sem vender seus quadros, passa a viver na mais absoluta miséria na Paris do início do século passado.
´´Strickland tinha a objetividade de um fanático e a ferocidade do apóstolo``.

Em Paris, o narrador contata o casal de amigos Dirk Stroeve e a esposa Blanche. Após as apresentações de praxe, eles acabam abrindo caridosamente seu lar para Strickland, acometido de doença grave... Daí a Sra. Blanche passa a cuidar do pintor adoentado, por quem sentia um ódio inexplicável, mas, talvez por fraqueza e curiosidade indiferente, acaba se apaixonando pelo cara. O bondoso marido Dirk percebe a traição iminente e abandona o lar! 
´´Blanche Stroeve estava presa na garra cruel do desejo. Talvez ainda odiasse Strickland, mas desejava-o, e tudo que vivera até então de nada importava. Deixou de ser mulher, complexa, dócil e rebelde; sensata e tola: era uma bacante. Era toda desejo.``

O moço era tão obcecado por sua visão interior que se desumanizou quase completamente, transformando-se num verdadeiro monstro de cinismo e maldade que deixava dor e desespero onde quer que passasse. Strickland sugou toda a energia romântica da Blanche e ela cometeu suicídio! :/

Dali em diante, a terça parte do livro é, digamos assim, uma série de informações que o narrador colheu com outras pessoas que conviveram com Strickland no Taiti e nas ilhas Marquesas, então colônias da Polinésia Francesa, no Pacífico Sul, paraíso onde se isolou para pintar livre e intensamente. 
Abaixo, algumas obras do pintor que inspirou a personagem Charles Strickland!


No meu coração de leitora, Strickland é Gauguin, e Gauguin é Strickland. :D
A retórica de Maugham determina essa gostosa confusão das duas vidas, em que traços exagerados sugerem uma ficção e ao mesmo tempo a profundidade de caráter traduzem a realidade sofrida de um pintor. Enquanto avançava na leitura me regozijava por ter acesso a essa forma de cultura de que sou alheia dado à falta de delicadeza com tintas e pincéis. No entanto, confesso minha admiração por obras de arte e revelo que pretendo estudar História da arte em 3, 2, ...




Gauguin foi o fundador do movimento primitivista na arte, e logo após a sua morte teve uma influência considerável sobre o brilhante, mas também rebelde Picasso. O Primitivismo buscava um retorno às fontes primitivas da arte, porque a Europa parecia estar exaurida. Daí o motivo da fuga de Gauguin para a Polinésia em 1891, onde ele lamentou a invasão de missionários católicos, e onde estudou e construiu em sua arte deuses pagãos da mitologia local pré-católica, incluindo várias figuras quase diabólicas. (educaterra.terra.com.br).

Publicado em 1995, meu livro tem brochura bem antiga e faz parte da coletânea ´´Mestres da literatura contemporânea`` da Editora Record/Altaya. Movida pelo título, o comprei num sebo virtual por dez pila e suas páginas já amareladas são de um papel bem leve (bom p transportar na bolsa). Livro humano, cheio de irônica amargura e beleza, Um gosto e seis vinténs é um dos romances mais empolgantes de Somerset Maugham, sendo filmado em 1942 em Hollywood, com George Sanders e Herbert Marshall nos papéis principais e direção de Albert Lewin.















Sei que o post já ganhou linhas demais para o tempo exíguo de alguns leitores, mas a Camilla não vai pecar por excesso se, por fim, explicar a origem do título:

Conforme a escritora Kyrie Eleison: ´´Uma apresentação ficcional da vida de Gauguin foi escrita 16 anos após sua morte por um conhecido escritor britânico da primeira metade do século 20, W. Somerset Maugham, que visitou o Pacífico Sul para recolher o material em primeira mão para “Um Gosto e Seis Vinténs” (em inglês , The Moon and Sixpence). Esse título de seu conto baseado em Gauguin soa estranho, mas na verdade ele vai ao cerne da questão. Em 1915, Maugham havia escrito sua obra-prima, “Servidão Humana” (em inglês, Of Human Bondage), um romance basicamente autobiográfico. Um crítico acusou o herói do livro de ficar “tão ocupado aspirando pela lua que acabou por não ver os seis vinténs pequena moeda britânica da época, de cor prateada) que estavam aos seus pés”. Em outras palavras, Maugham ansiava tanto por um ideal inatingível que ele perdia uma felicidade menor, mas alcançável. Maugham retrucou: “Se você olhar para o chão procurando os seis vinténs, você não olhará para cima, e assim perderá a lua.” Em outras palavras, há coisas mais importantes na vida. O uso desse contraste lua - seis vinténs no título de seu romance mostra claramente o que Maugham pensava de Gauguin. A felicidade habitual do pai de família de classe média corretor de bolsa é a moeda de seis vinténs. Jogar tudo fora para se tornar um artista é a lua. Mas não pensemos que Maugham perdoa o protagonista por jogar fora a vida e a família. Ele apresenta o artista Strickland, o seu Gauguin, como sendo terrivelmente egoísta, insensível e cruel. No entanto, Maugham também apresenta-o como um gênio que, basicamente, estava no direito de exercer a sua vocação artística, independente do custo que pudesse haver para a felicidade de seis vinténs para o próprio artista e para aqueles ao seu redor.``

Um beijo bom,

Camilla.



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O PARADOXO DA ESCOLHA, Barry Schwartz

Temos uma tendência meio óbvia de se apaixonar loucamente por um texto ou escritor porque ele diz exatamente o que queremos ouvir, ou melhor, o que inconscientemente já sabemos, mas ainda não raciocinamos no plano das palavras!  :)
Foi assim que senti ao ler O PARADOXO DA ESCOLHA, de Barry SchwartzO autor é um psicólogo, professor de Teoria Social e Ação Social da Swarthmore College, na Pennsyvania, EUA. Ele estuda um dos grandes mistérios da vida moderna: por que nas sociedades onde há liberdade e uma variedade de opções de escolha nunca antes vistas (tanto em termos pessoais, quanto profissionais e materiais), os indivíduos não se sentem mais felizes?


A ESCOLHA como fonte de liberdade passa a ser uma fonte de fraqueza, pois quando temos nas nossas mãos a responsa em caso de fracasso revertemos a CULPA pra gente mesmo! E isso é fator de ansiedade porque EXCESSO DE OPÇÕES --> reduz a atratividade daquilo que as pessoas realmente escolhem. Pensar nos aspectos atraentes das opções não escolhidas diminui o prazer proporcionado pela opção escolhida. 
As mina pira frente a um sem número de cores de esmaltes que o mercado dispõe. Que mulher, ao sentar-se na cadeira da manicure, não titubeia sobre que cor escolher? E mesmo quando fica pronta, fica cobiçando aquela que não escolheu (e ainda diz: esse eu usarei na próxima semana!)? Aff!! Que saudade de quando tínhamos apenas três possibilidades: RENDA, CAFÉ e REBU. Perdoem homens machos, mas só mulheres (e homens femininos) entenderão que ´´cores`` são essas. 

Aí está o ponto fundamental que o Schwartz questiona: o dogma universal de que o capitalismo maximizou nossa liberdade, maximizando nossas escolhas, está no âmago do sofrimento que consumidores tem frente a tantas opções! Eu disse ''consumidores'', mas o paradoxo da escolha é relevante noutros âmbitos da vida e isso é abordado no capítulo 2 quando analisa: escolha dos serviços públicos; do seguro-saúde; do plano da aposentadoria; do tratamento médico; da beleza; do trabalho; do amor; do credo; e da própria identidade!! 

Veja-se a Camilla no supermercado semana passada, diante de um produto banal que é o óleo de soja. Até registrei o momento para dizer aos leitores que usei o Uni duni teSalame minguê para colocar no carrinho um simples óleo!! 


Apesar de que compras de bens não-duráveis tenham menos impacto na nossa rotina, não considero exagero o exemplo citado porque o SISTEMA DE ESCOLHA é o mesmo. Decisões de grande porte (geladeira, sofá, marido, profissão,..) tem maiores riscos psicológicos mas o mesmo número infindável de opções..

Schwartz divide as pessoas em maximizadores e satisfazedores.
Os maximizadores buscam a qualquer custo a opção mais vantajosa sempre e vasculham todas as lojas em busca de uma simples meia com o melhor custo/benefício, por exemplo.
Os satisfazedores, por outro lado, assim que encontram a opção que lhes pareça a melhor, param de procurar. Adivinhe qual dos grupos tende a ser menos feliz com as decisões? Os maximizadores, claro! Dentro desse capítulo tem uma série de perguntas/questionário pra identificarmos em que grupo estamos! Noto que tenho sido conscientemente cada vez mais SATISFAZEDORA, quando, por exemplo, sou fiel a determinadas marcas de roupa ou alimento. Óbvio que ''acompanho'' novidades, mas não vou me escabelar porque meu Iphone 4 está obsoleto!! :P

Aquela frase clichê ''Você é o resultado das suas escolhas'' é bem impactante e especialmente verdadeira para o contexto do livro. A liberdade e a autonomia são fatores decisivos para o nosso bem-estar, e isso define quem somos!!
A escolha tem um valor instrumental claro e poderoso: ela permite que as pessoas obtenham o que necessitam e desejam na vida (capítulo 5, p. 123). 
O autor também aborda conceitos como expectativa, custos de oportunidade, trocas compensatórias, adaptação hedonista, arrependimento, comparação.. É uma leitura bastante prática, com exemplos e hipóteses. Com certeza nos faz rever alguns comportamentos!!

Este vídeo a seguir é uma palestra do conteúdo do livro que o próprio autor proferiu no TED - Technology, Entertainment and Design. Para quem não for ler o livro são 20 minutos de motivos para ser convencido djá!!


Ele argumenta que o excesso de opções produz 2 efeitos negativos:
a) produz paralisia, em vez de libertação;
b) mesmo que a gente supere a paralisia e faça uma escolha, acabamos menos satisfeitos com o resultado da escolha do que se tivéssemos menos número de opções (a gente fica pensando naquelas não escolhidas e a alternativa imaginada gera arrependimento na decisão tomada).

Quando escolhemos fazer UMA COISA, estamos escolhendo DEIXAR DE FAZER OUTRAS. E essa sensação de ''perda'' é chamada de custo de oportunidade = abrir mão de coisas
As opções não escolhidas tem inúmeros atrativos (também), e por pensar nisso diminuímos a satisfação com a escolha feita. :P   Exemplo: Estou trabalhando pensando em jogar padel/ estou jogando padel pensando no trabalho. Pode parecer meio confuso, mas isso acontece o tempo todo na nossa vida!
Na área do coração, ouso dizer que os forever alone são maximizadores, porque eles talvez procurem exaustivamente uma pessoa que reúna TODAS as qualidades sonhadas (altas expectativas). (Por certo não querem um grande amor e, sim, um Frankenstein). Considerando que somos mais de 6 bilhões isso é humanamente impossível.. Então os custos de oportunidade se elevam e o percentual de solteiros cresce! o/

Daí, amigos, eu aconselho: ESTEJA ONDE ESTIVER!! 

Esteja onde estiver, desfrute o que estiver fazendo, e não pensando na morte da bezerra ou em como estaria mais feliz se noutro lugar estivesse. 
Não somos onipresentes!! 
A palavra FOCO define a felicidade!
E o mesmo serve para a cafeteira. Dê pulos de alegria com sua cafeteira nova e PARE URGENTEMENTE de continuar pesquisando noutras lojas, noutras cores, que fatalmente você vai vê-la em promoção no Big e vai perder o sono por isso. Sacou? :)


A IMENSIDÃO de possibilidades de escolha em TO-DOS os aspectos da nossa vida PODE OU NÃO causar sofrimento. Entonces:
Na medida em que 
1) nos contentamos com o suficientemente bom e maximizamos menos;
2) controlamos as expectativas em relação às coisas/pessoas;
3) cultivamos uma atitude de gratidão, 
AUMENTAMOS A CHANCE DE SER FELIZ!! 

Concordam? Sim, não, talvez, em partes, com ressalvas? POXA, DECIDAM!! ahahhaha

That's all: um livrinho com 267 páginas de LUZ pra aclarar nossas decisões. 

Um beijo bom, 
Camilla.

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