sexta-feira, 28 de setembro de 2012

QUATRO GIGANTES DA ALMA, de Mira y López

Cheguei nesse livro porque minha irmã transmitiu dicas literárias do Professor Pablo Stolze – reconhecido Juiz de Direito no TJ/BA e profe de direito civil da Rede LFG – dentre as quais estava o magnífico Mira y Lopéz. Vindo de quem vem (quem foi aluno do Pablito sabe do que estou falando) dei a atenção devida e logo encomendei Quatro gigantes da alma. Antes de apresentar o milagre vou apresentar o santo e te direcionar para esse link onde, já nos primeiros parágrafos, deparamos com a trajetória do notável Emilio Mira e López (*1896 +1964). [Acho que vale a pena situar-se na vida e história do autor porque valoriza a compreensão da obra. Eu tenho essa mania!]

Como o próprio Professor Mira y López escreveu em 1941, na motivação do Manual de Psicologia Evolutiva da Criança e do Adolescente, "toda a obra humana, por insignificante que seja, acha-se nitidamente vinculada à rota existencial de seu autor. Para avaliá-la, não basta conhecer este último; é indispensável saber as circunstâncias em que ele vivia ao produzi-la".

Pois bem. Estou aqui com a tela do Word em branco e aquele sofrimento prévio de quem não vai conseguir falar de uma coisa com a riqueza de detalhes que ela requer. (Nem adiantava tentar GRIFAR trechos mais importantes, porque todas as linhas ganhavam sublinhado!). #Regra geral eu (não tenho pena) risco muito os meus livros!)
A par de leitores, Quatro gigantes da alma imprescinde de estudiosos. É um livro para ser ESTUDADO. E digo mais, ESTUDADO E UTILIZADO COMO INSTRUMENTO DE TRABALHO E CONSULTA por juristas e por psicólogos (Alô Larissa Berger, Carlos Eduardo Seixas e Andressa Botton!).

Se para Mira y Lopez os estudos psicológicos são fatores relevantes da felicidade individual e da harmonia coletiva, para nós, reles mortais, são mais uma peça na tentativa de compreensão do próprio umbigo. Diante desse didático estudo científico e metódico, emudecemos com a ideia de que DENTRO DE NÓS RESIDEM QUATRO GIGANTES!
Emilio Mira y López nos convida a explorar aspectos neurológicos e psíquicos, herdados e adquiridos, estáveis e mutáveis, coletivos e individuais de reações do ser humano, chamados de EMOÇÕES: MEDO, IRA, AMOR e DEVER são quatro forças/núcleos energéticos que coexistem no ser humano, ora se debatendo, ora se aglutinando para determinar se a gente explode, ironiza ou se comove em variadas situações, com pontos de contato – mas indo além – da questão dos temperamentos que a gente sempre estuda lá no Movimento de Schoenstatt (Sobre temperamentos: página 101 em diante dessa bela Dissertação!)

No início do book, o autor refere que se estudarão a história, evolução e estruturas bélicas dos quatro gigantes da alma: ´´com isto pretendemos fazer algo mais que entretê-lo; desejamos ajudá-lo a libertar-se, embora seja parcial e temporariamente, das consequências mais angustiantes de seu jugo. Não pretendemos usar de pseudo-erudição nem seguir normas sistemáticas; usaremos de nossa própria psicologia didática para tornar atraente a exposição, sem falsear seu fundo conceitual.``

Vamos lá! O Medo é o Gigante Negro cuja origem primitiva seria o instinto de sobrevivência, que às vezes se alia com a imaginação e nos perderemos entre monstros da nossa própria criação?
Muita coisa acontece só na nossa mente, por representações e bloqueios infundados... por isso a importância da distinção de causa e motivo que faz no Capítulo II: causa é intrínseco (pólvora) e motivo é extrínseco (estopim). O medo pode ser motivado por carência (o sujeito se assusta ante sua crença de que lhe falta algo que na realidade tem); por insuficiência (complexo de inferioridade); baseados em conflitos (paradoxo ante a várias ações possíveis pra escolher); seus estímulos ou ´´agentes`` são a dor, sofrimento moral, morte, enfermidades, solidão, instintos, guerra; e pode se apresentar com diferentes níveis de intensidade, a saber: prudência, concentração, alarme, angústia, pânico e terror.
Ufa! Estou me esforçando pra esmiuçar o livro, mas podia rolar uma foto do sumário, né? Heheh Por fim, ele ´´ensina`` maneiras de dominar o medo, como por exemplo o Princípio similia similibus curantur: se tem medo de cobra, se joga num tanque cheio delas! Heheheh

Daí vem o Gigante Rubro, a IRA. ´´Todas as formas de substância viva apresentam de maneira constante esta propriedade, que poderíamos denominar ´´explosiva``, no sentido de que são capazes de devolver mais do que receberam.`` = Irritabilidade. Nem todos os seres irritáveis são agressivos, mas todos os agressivos são irritáveis. E no homem essa agressividade traduz-se no afã ou desejo de poder, que pode levar a destruição, assassinatos, etc. Todos nós temos parte de temperamento colérico, mas nossos gigantes conversam entre si e abrandam as reações. Ainda bem. Na mesma toada do capítulo do Medo, o autor define fases, graus de intensidade e formas de camuflagem da Ira. Elenco alguns dos seus disfarces: a chamada sede de justiça; a crítica falando mal que procura desvalorizar algo; a ironia; a soberba. Além disso, Mira separa capítulo para um Estudo especial do ódio e outro para a Catamnese do ódio (formas de descarregá-lo: desprezo, vingança e ressentimento).
Keep calm, o livro é bem light e tem só 224 páginas! :D

No prefácio à 20ª edição, Alice Madeleine Galland de Mira escreve que é um livro de otimismo, da força do saber e do conhecimento, no sentido da libertação e superação dos muitos problemas individuais e coletivos; viabiliza, assim, o equilíbrio dos gigantes do amor e do dever, em oposição aos gigantes do medo e da ira.
Respira aí e segue lendo porque desisti de ser coesa. :P
Sério.. num determinado trecho eu juro ter visto uma mão saindo da página e dado uns tabefes no meu rosto!! :P Não tem como ler esse livro sem se identificar um tiquitito que seja e repensar nossas atitudes pro futuro. E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar, Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda nossa vida, e depois convida a rir ou chorar.

Aí a gente chega no Gigante Róseo, o Amor. Momento suspiro: Ahhh o amor!! O autor inicia tratando da sua raiz ancestral (reprodução) e o grande paradoxo biológico do amor – existe de forma bifásica, determinando constante fluxo e refluxo vital. Passa pelas raízes tânica e niilista, e também agressiva, possessiva e genital. Fala da raiz érgica, criadora ou fáustica do amor, ou seja, que somente o Amor pode extrair de cada homem ou de cada mulher seu máximo potencial criador (...) A pessoa que se encontra dominada pelo desenvolvimento de um processo amoroso, no qual esta raiz intervenha decididamente, sente seu Ser exultar, transbordante de felicidade. A vida se lhe apresenta sob seus mais belos prismas, atraentes e incitantes à ação criadora (...). Ohhimm!
O capítulo mais cor-de-rosa do livro explora as fases do amor (iluminação/eleição; ilusionismo; exploração; correspondência (desbordamento do âmbito individual!!); fusão e simbiose; elevação e criação), e os tipos de amor, sem deixar de fora as crises e o instituto do ciúmes.

Por fim, o DEVER, Gigante incolor em que as malhas de sua rede estão articuladas pela imensa força da Lei, da Tradição ou da Razão predominante no grupo do qual fazemos parte. Esse gigante só nasce com a vida em sociedade, quando sobrevêm o Direito, a Lei e a Autoridade... O dever é a crença na inevitabilidade de certos efeitos ante cuja possível ocorrência o ser humano se obriga a determinadas privações ou ações. Aqui nesse capítulo me senti de volta ao início da faculdade de Direito, onde estudávamos o ser e dever ser, a moral, e todos os freios necessários para a galere não surtar. Ainda mais agora que está na moda asminapira, todospira, etc.


Esticando o braço dá pra enxergar perfeitamente a nossa mão, mas quanto mais aproximamos dos olhos a visão dificulta... Confere?
Se quanto mais próximo do objeto, mais dificultada é a análise, que se dirá quando o objeto analisado é nós mesmos?
Aí está o ponto que reputo central do Quatro gigantes da alma: autoconhecimento.
Há pessoas que passam a vida inteira cuidando e se importando com a vida alheia, travando batalhas emocionais com familiares, disputando territórios profissionais, e negligenciam sua própria alma, mente e coração! A gente precisa se desnudar e conhecer, até mesmo calçar novos óculos e mudar de opinião sem medo disso parecer fraqueza! Essa é a minha humilde forma de reconhecer que o autoconhecimento é um processo que dura a vida toda e nunca se esgota..
((Por isso o acréscimo de anos (ou decréscimo de tempo de vida) só faz bem pra gente, porque aprofundamos o autoconhecimento e colocamos em prática a auto-educação, não é verdade?))

"Por isso, avante! Avancemos nas pesquisas e conquistas do nosso mundo interior, através da auto-educação consciente. Quanto mais progresso exterior, tanto mais aprofundamento interior." (Kentenich, 1912)

Pra vc que chegou até aqui, eu concluo dizendo que obviamente o livro não estanca o conteúdo proposto, mas é um bom começo pra quem gosta de psicologia!! :)

Agora.. se tu achas que um livro não é capaz de per si gerar TODA essa reflexão, então tenta dois, ou três, ou mais.. heheheh Eu estou tentando. ;D

Um beijo bom,
Camilla.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

CARPINTEIROS, LEVANTEM BEM ALTO A CUMEEIRA & SEYMOUR, UMA APRESENTAÇÃO, de J. D. Salinger

Desde que li ´´O apanhador no campo de centeio`` de J. D. Salinger, em 2011, criei mais um escudo literário: não-faça-expectativas-com-best-sellers (já tinha os escudos não-faça-expectativa-com-títulos-bonitinhos, não-subestime-autores-criticados e não-abandone-livros-chatos) porque tudo pode nos surpreender negativa ou positivamente!
É. Sinto informar, caros amigos, mas O apanhador não é TUDO aquilo que TODOS dizem – outra hora farei um post digno da sua fama e aí poderão tirar suas conclusões. 
Mas falei nele agora pra dizer que, segurando um dos escudos – e também para demonstrar como sou teimosa/persistente –, a minha leitura de setembro foi mais uma obra de Jerome David Salinger (precisava tirar a prova se o cara é bom mesmo ou não passava de uma lenda hehe)!

Raras vezes fui ao Carrefour, mas nesse dia entrei na Livraria anexa ao mercado para comprar papéis e envelopes. Dei de cara com aquela torre da Editora L&PM cheia de livros pockets e na altura do meu nariz estava um título do Salinger. TIVE QUE comprar!
Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação.

São duas novelas que formam um livro. 
Na primeira, Buddy Glass narra o escândalo causado pelo sumiço de seu irmão Seymour Glass no dia do próprio casamento: ´´ele amava demais, era feliz demais para se casar``. Na segunda, Buddy tenta esboçar um retrato do irmão, tido como prodígio de programas radiofônicos, poeta precoce, voluntário na Segunda Guerra, ...

Seymour e Buddy são irmãos da grande família GLASS - principal contribuição pro mundo que o Salinger deixou, sendo frequente objeto de estudiosos da literatura pela profundidade dos membros/personagens!

Acho ousadia que com rasos conhecimentos sobre narrativa e linguagem eu vá conseguir expor minimamente o MUITO que representa – e já se estudou sobre – Seymour e sua personalidade (esquizóide?!), mas ´´Pensar é um ato; sentir é um fato``, dizia Clarice.. 
Então, o fato é que Seymour nos intriga e provoca, mesmo sem falar nada. Ele é e não é. O que sabemos da sua psiqué é resultado do filtro da opinião dos outros personagens, PRINCIPALMENTE de Buddy que, com nuances de obsessão, coloca o irmão num pedestal ao mesmo tempo em que deixa escapar a insatisfação de tê-lo como parâmetro de comparação na família!
Quem tem a felicidade de ter irmãos sabe o significado da palavra EXEMPLO e, tanto faz ser o caçula ou o mais velho, reconhece que são os protótipos de seres humanos mais próximos que temos na vida, e que caberá aos pais a sutileza de tratar os desiguais de maneira desigual (Princípio da isonomia) e formar uma família de comercial de margarina (#ounão). Salinger explora isso com maestria!
[Comecei a escrever esse post na noite de 6 de setembro, coincidentemente um dia depois da enxurrada de postagens no Facebook relativas ao DIA DO IRMÃO, que eu desconhecia até ver a emocionada homenagem da minha irmã mais nova. S2
Também te amo, Mika! :*
Obs: Como é prático ter data especial pra dizer aquilo que deveríamos dizer diariamente, né? hehe] 

Buddy é um narrador-personagem que usa da escrita e descrição pormenorizada para eternizar seu amor e admiração pelo irmão – ´´Embora nunca tenha escrito um único poema, ele (Seymour) trasmitia poesia por todos os poros`` –  justificando que este cometeu suicídio pelo sofrimento decorrente da infância não vivida e/ou traumas pós-guerra... 
MAS REPAREM que Buddy TAMBÉM compartilhou da mesma infância não vivida (porque eram astros de um programa infantil) e TAMBÉM foi para a guerra!!!
Ou seja, .............................! (completem o tracejado com suas conclusões depois de lerem o livro).
: )
Para Alfredo Monte (blog Monte de Leituras), ´´O texto é sempre muito mais interessante ao mostrar o universo neurótico e mundano da classe média alta de Nova York e mesmo os problemas pessoais do próprio Buddy do que quando envereda para a santificação da figura de Seymour, ...``. Na minha opinião, o texto todo é interessante. Amei o preciosismo da narrativa envolvente, a mágica absurda de dizer MUITO nas misteriosas e irônicas entrelinhas, e aquele jeitinho machadiano (amo!) de conversar com o leitor, insinuar que a gente possa estar cansado, provocar para que larguemos o livro antes que seja tarde... 

Um pouco mais de quem já estudou o Salinger... a Juliana Cunha disse: ´´Buddy Glass é o personagem que mais parece ter a voz de Salinger, embora essas aproximações entre autor e personagem sempre sejam (mesmo agora, definitivamente o é) uma coisa extremamente forçosa e forçada. Mas, faça-me uma garapa! Se não pudermos forçar um tiquinho só as coisas para defendermos uma tese, se os fatos não forem feitos de algum material menos obtuso que diamante, então as teses jamais serão defendidas. E eu defendo que Holden Caulfield e Buddy Glass sejam as duas ocasiões em que o reservadíssimo Salinger se deixa entrever entre uma linha e outra. Os dois personagens parecem-se muito com o pouco que conhecemos do Salinger. São irônicos, auto-irônicos, mentirosos, sensíveis e eremitas (Holden diz querer morar numa cabana no meio do mato. Buddy de fato mora numa cabana no meio do mato). E, principalmente, os dois são obcecados pelo fantasma de um irmão morto (Allie para Holden e Seymour para Buddy).``

Um aparte:
Na mesma época de O apanhador no campo de centeio, Salinger escreveu alguns contos extraordinários, reunidos em Nove estórias. Então, pra ficar bem redonda essa dica literária de setembro, acho válido te direcionar para o texto em que a Juliana Cunha faz uma análise da primeira e mais impactante das Nove estórias: ´´Um dia especial para os peixes-banana``. (Os comentários no post também são ótimos!) 
E para ficar melhor ainda, leia a íntegra do conto e descubra como foi o dia do suicídio do Seymour! 
Considero que ter lido esse livro agora foi uma baita coincidência, porque há pouco é que fui ver o post da Juliana. De certa forma adentrei na história da família Glass com conhecimento de causa, motivo pelo qual eu já sabia desde o início do livro o porquê do sumiço do noivo Seymour! :D 

Só pra dar uma palinha, talvez cumpra colar aqui um trecho do livro onde tem uma cartinha do Seymour para Buddy:
(...) Uma das poucas coisas no mundo, afora o próprio mundo, que ainda conseguem me entristecer é a impressão de que você se aborrece quando a Boo Boo e o Walt dizem que está falando alguma coisa como eu falaria. Você parece tomar isso como uma acusação de plágio, uma censura à sua individualidade. O quê que há de errado se às vezes um de nós fala como o outro? A membrana que nos separa é tão fina! Será tão importante que cada um de nós jamais se esqueça quem é quem? (...) Não será que para nós a individualidade de cada um começa justo no ponto em que reconhecemos quão extraordinariamente profundos são os nossos vínculos e aceitamos a inevitabilidade de tomar emprestado as piadas, os talentos e as besteiras uns dos outros? (...)

É nessas horas – digo livros – que a gente se dá ao luxo de mudar de opinião, deixando autores nos surpreenderem positivamente para demonstrar que na vida são INÚMEROS e INCONTÁVEIS os pontos de vista.

J. D. Salinger, falecido em 2010, te dedico!


Um beijo bom, Camilla.


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