sexta-feira, 12 de outubro de 2012

GERTRUD, Herman Hesse

Clica aí pra curtir uma música que, em 1978, ocupava o segundo lugar na parada de sucessos no Brasil:

Tomavam o mesmo ônibus. Ele a observava sempre. Ela era esguia, charmosa, e de vez em quando usava lenço na cabeça. Distavam 8 anos em idade, dado que foi esclarecido depois.
Um papel datilografado foi cuidadosamente colocado entre as páginas de um livro e esse gesto determinou o início da minha família.
Aquele a quem vim chamar de pai cruzou a roleta do ônibus e,ao passar pela moça do lenço, foi discreto e ligeiro ao repousar o livro no colo dela e, na sequência, desceu do ônibus pois já era a sua parada.

Muito mais que a resenha do livro Gertrud, do Herman Hesse, o que relato hoje é o início da história de amor dos meus pais.
Há algumas semanas, num sábado à noite, estive com eles e os incentivei – com um merlot – a contar em detalhes como se conheceram, eis que me apresentaram um livro... já querendo amarelar, com seus 30 e poucos anos, encapado com plástico transparente, uma etiqueta com nome de solteira da mãe na capa e a assinatura do meu pai na segunda página. :D
Coração pulsou forte ao ver que minha remota origem está num objeto tão caro para mim que é um livro.
A emoção daquela noite fez com que essa leitura (histórica para nossa família) passasse ao primeiro lugar da fila, sendo a companhia de papel escolhida de outubro.
Eis o bilhete mais lindo do mundo:

´´Prezada....
Viajando apertado por uma multidão completamente alheia do que eu estava pensando, sentia-me feliz com o pensamento voltado para uma nobre e simpática pessoa que apenas me olhava sem sorrir, mas que todo o seu rosto exalava uma dignidade simples e benévola encantando a multidão.
Espero que entenda a minha mensagem e analise-a de forma serena sem no entanto frustrá-la, pois se eu não atingi o objetivo, peço que esqueça tudo e desejo-lhe muitas felicidades; caso contrário encontro-me com você sábado à noite no Grêmio para trocarmos algumas palavras. Este livro é para você como recordação.
Em 20 de janeiro de 1978. (...)``

Não preciso nem dizer que toda mulher pularia de emoção com uma mensagem desta, tão bem pensada e escrita quanto singela e arrebatadora. Letras reunidas transportaram sentimentos de um coração para outro e um casal se formou.

Fiquei feliz por ser um livro do Herman Hesse (nobel em 1946), de quem virei fã em 2010 (fiz umpost aqui), pois apreciei Demian e O lobo da estepe.. BUT Gertrud, por sua vez, não é um livro do Hesse que eu recomendaria.. não me emocionei muito heheh.
Gertrud é um conto-romance sobre a vida de Kuhn, um jovem que, após sofrer um acidente, fica puxando uma perna e usando bengala. Dentro do seu mundinho nostálgico e melancólico, a música é o ar que respira e dá sentido à sua existência. Kuhn é violinista e compositor e deixa-se inserir a contragosto no meio dos artistas, onde conhece Muoth e depois Gertrud. Todos seus sentimentos – profundamente refletidos nos capítulos – transfiguram-se em composições que depois são enaltecidas em concertos na cidade. Tema central seria algo como ''violinista portador de deficiência que se torna compositor famoso''. :D
A narração se arrasta um pouco, na medida que não acontecem coisas interessantes na pacata rotina do protagonista, em contrapartida os poucos clímax do livro retratam a profunda beleza dessa arte que alimenta o coração dos homens..
Veja-se uma das reflexões do jovem Kuhn: ´´Considero a vida humana como uma noite profunda e triste, que não se suportaria se, num ponto ou noutro, não rutilassem repentinos clarões, de uma luminosidade tão consoladora e maravilhosa que seus segundos podem apagar e justificar anos de escuridão.``

Maria João Cantinho resenhou e opinou sobre Gertrud no sentido de que (...) o que pode se descobrir aqui, através da voz sóbria e contida do narrador, é uma séria reflexão acerca da fragilidade da vida e da finitude humana, que vislumbra na arte o caminho para a luz e para a redenção, num sentido bem alegórico (...).
E prossegue: ´Gertrud, não sendo a personagem principal, acaba por revelar-se o motivosecreto desta obra — e daí o seu título. Ela personifica o desejo amoroso, não apenas físico, mas sobretudo o ideal que alimenta o impulso criador de Kuhn e ofaz transbordar (...)`.

Eu sinceramente achei o livro chato e lento, comparado com outros mais velozes e interessantes que tem por aí. Mas Hesse é Hesse e sua mensagem só vem à tona no nosso coração após atento e investigatório mergulho nas profundezas das frases misturado com o que a gente acha que acha da vida. :P
É isso. :)

Ah! E se alguém aí ficou coçando de curiosidade digo que, sim, eles se encontraram no clube Grêmio no sábado seguinte. Ela usava o Deoparfum Cristal Toque de amor, ele, Glostora no cabelo. Sua primeira dança foi discretamente arquitetada com a ajuda daquele que se tornou meu padrinho Mauro, porque meu futuro avô Gentil cuidava da chapelaria do clube e da dignidade da caçula de onze irmãos com o mesmo zelo. Assim foi que o cupido ou a Divina Providência uniu esses dois seres que eu amo com todas as minhas forças.

Poderia ser uma rosa - também tão cheia de significado –, mas foi um livro.

Pai e mãe, este post é uma homenagem aos 31 anos de casados que irão comemorar neste 17 de outubro.


Um beijo bom,
Camilla.
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