quinta-feira, 29 de novembro de 2012

FRANKENSTEIN, Mary Shelley

Eu não sei o que vai sair da cachola nesse momento em que acabo de ler a última página da obra e abro imediatamente o editor de texto.. Sei que durante TODA a leitura fui tomada de inúmeras ideias, insights, ganchos e, no entanto, na hora de escrever meu pitaco tudo me escapa à mente. :P

Sem dúvida, apresento-lhe um dos livros MAIS SURPREENDENTES que já li: Frankenstein. Sabe o livro do Salinger que fiz resenha? Pois nesse mesmo dia passei no caixa com o inofensivo livrinho preto, constituindo o famoso caso do ´´livro que te escolhe``.

Filha de celebridades literárias, Mary Shelley, com nem 20 anos de idade, foi com sua família da Escócia para a Suíça, tornando-se vizinhos de Lord Byron. Num verão muito chuvoso, sugeriu que cada um escrevesse uma estória sobrenatural para que se distraíssem durante a estação. A jovem Shelley escreveu Frankenstein ou o Moderno Prometeu (nome original). 

O monstro é conhecido publicamente como o gigante verde todo costurado e com parafusos na cabeça/pescoço, que foi criado por um cientista. Pois te digo, hipotético leitor, que muito mais que um suposto conto de horror, essa é uma obra incrível sobre o afã criador do homem e a origem dos males, baseada – conforme constatei depois – na lenda mitológica de Prometeu. 

Vitor Frankenstein é um jovem estudante de Genebra que vai pra Universidade de Ingolstadt e inclina seus estudos para Ciências naturais, especificamente para ramos da História natural ligados à fisiologia. Eis que, no capítulo 4: ''Após dias e dias de incríveis trabalhos e fadigas, consegui descobrir a causa da criação e da vida; mais ainda, tornei-me capaz de conferir vida à matéria''. Depois de reunir partes de cadáveres, construiu um gigante de 2,40m com tecidos mortos e assim começa o quinto capítulo:
Foi numa sombria noite de novembro que eu contemplei a realização de minha obra. Com uma ansiedade que quase tocava as raias da agonia, tomei dos instrumentos que estavam à minha volta, a fim de que eu pudesse infundir uma centelha de vida na coisa inerte que jazia aos meus pés. Era já quase uma hora da madrugada; a chuva batia tristemente nas janelas; e minha vela estava quase consumida quando, ao lusco-fusco da luz bruxuleante prestes a extinguir-se, via abrir-se o baço olho amarelo da criatura. Ela respirava com dificuldade, e um movimento convulsivo agitava seus membros (...).
Se fores seguir faça por sua conta e risco, pois farei spoiler até o final!!
Contemplando a criatura, o criador sentiu horror e asco, e FUGIU da sua própria obra... mas ao retornar ao laboratório percebeu (e comemorou) o sumiço de Frankenstein!
Nesse ínterim, Vitor recebe carta do pai contando que um dos irmãozinhos tinha sido assassinado. Ele vai até Genebra para o velório e a principal suspeita era uma parente próxima. No entanto, afirma com convicção que era o MONSTRO o real assassino, mas sem nenhuma prova a respeito, Justine acaba condenada e recebe pena de morte. Inconformado, decide ir atrás da sua criação!!
Nas montanhas, Vitor Frankenstein-criador encontra Frankenstein-criatura. E este o culpa por 'brincar' com a vida e a morte: ''Lembra-te de que fui criado por ti; eu devia ser o teu Adão, porém sou mais o anjo caído, a quem tiraste a alegria, por algum crime cometido. Por toda parte vejo reinar a alegria da qual estou excluído. Eu era benévolo, bom; a desgraça tornou-me um demônio. Faze-me feliz, e tornarei a ser virtuoso.''
                                                                           
A partir daí considero os capítulos mais interessantes, em que o monstro conta sua estória, ou seja, o que passou enquanto perambulou sozinho.
Conta os acontecimentos primeiros de um ser vivo, como a descoberta dos sentidos, da lua, das árvores e dos animais. A descrição do fogo fornecendo calor e luz, inclusive para preparo do alimento. Os sons dos pássaros e as belezas da natureza, tudo com aquele tom romântico que não foge à inspiração byroniana. Ademais, ele é autodidata e apreende a linguagem verbal e não verbal dos humanos por observação de uma família de camponeses; e pelo 'estudo' de alfarrábios dos bolsos das roupas com que fugiu do laboratório do criador. A partir dos laços afetivos da família que observa, questiona-se porquê ele também não tem uma família, amigos e alguém para amar! Nessa parte da leitura senti muito carinho e simpatia pelo monstro sensível, e me apaixonei pelo livro.
A narrativa nos carrega nos braços e com fluidez apresenta a conversão da bondade em maldade, ao descrever um Frankenstein disposto a fazer contato com o ser humano, mas por conta de sua aparência espanta e provoca medo e desespero. Em suas próprias palavras: ''Eu era horrendo e gigantesco. Que significava aquilo? Quem era eu? O que era eu? Donde vinha eu? Qual era o meu destino? Era constantemente assaltado por essas perguntas, mas não conseguia respondê-las.'' 
Por absoluta rejeição, sua boa índole é encolerizada pela vingança e maldade: ''A partir daquele momento, declarei uma guerra sem quartel contra a espécie, e mais do que tudo, contra aquele que me havia criado e me lançara a essa insuportável desgraça.''
(...). Eu avisei antes... Para eu falar das minhas impressões era necessário eu contar toda a história. :X 

Seguindo.. Nas cercanias de Genebra, avistou um menino e tentou fazê-lo ''seu filho'', para poder amar e ser amado, mas o garoto lutou e gritou de medo, e pronunciou que levava o sobrenome Frankenstein... Esse era o irmãozinho de Vitor. O monstro fez sua primeira vítima! Com opressivo sentimento de injustiça e ingratidão, Frank resolveu que o responsável de quem exigiria justiça, piedade e reparação seria Vitor Frankenstein, seu criador. Após estrangular o menininho, pronunciou: ''- Eu também posso criar a desolação; meu inimigo não é invulnerável. Esta morte vai enchê-lo de desespero. Milhares de outros tormentos hão de torturá-lo e destruí-lo.''

Foi no encontro na montanha que, depois da criatura contar suas andanças ao criador, culminando com a confissão da morte do garoto, Frank desgraçado e horripilante menciona que nenhum homem se associaria a ele, motivo pelo qual pede a Vitor que crie uma fêmea com quem possa viver em perfeita consonância! ''Minha companheira deve ser da mesma espécie que eu e ter os mesmos defeitos. Você tem que criar esse ser''. 
Depois de muito papo eles fazem esse ''acordo'', que Vitor descumpre!!
Então, um por um, todos os familiares, amigos e noiva de Vitor Frankenstein vão sendo assassinados. 
* Não pense que é terror, porque as descrições são bem diretas e objetivas. O livro, por sinal, passa longe de terror. Talvez para a época tenha sido, hoje em dia não. *

Bom, acontece um monte de coisas mais... Mas ''resumindo'', por fim, a sociedade aponta Vitor como o autor dos diversos crimes que se seguiram, tanto que é preso, entra em estado febril, tem delírios, é considerado louco. O monstro só ''aparece'' para ele, como que perseguindo seus passos para lembrar o sofrimento que é ser diferente e incompreendido! ... 
(...)
Não hesite em ler Frankenstein para perceber a profundidade filosófica das passagens e fatos que constroem um sentido belo, apesar de monstruoso. Meu espanto diante da obra é devido a sua originalidade que obviamente não conseguirei transmitir nessa resenha, mas que certamente será uma provocação à leitura.
Ai. Já sinto saudades da minha segunda companhia de papel de novembro! :(

Destaco os pontos que mereceram minha atenção/dúvida/curiosidade! 
Quero encontrar, logo, alguém que já tenha encarado Frankenstein pra debater estas ideias:

a) a bondade nata do homem; 
b) a aparência como determinante de aceitação social;
c) a maldade como produto da integração social (?); 
d) o afã natural de amar e ser amado para, então, dar sentido à existência;
e) o ideal do par romântico em todas as espécies; 
f) o potencial vingativo dos seres; 
g) o monstro e seu criador como metades antitéticas de um mesmo ser;
h) seria Vitor o próprio assassino e o ´´monstro`` apenas uma criação de uma mente perturbada? (tipo o filme Amigo Oculto).... 

Um beijo bom,
Camilla.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER, Goethe

Aquele clichê ´melhor mudar de opinião do que não ter nenhuma pra mudar` é bem válido para uma Camilla um tanto quanto avessa aos romances de amores reais, platônicos ou correspondidos pela metade... Então, para experimentar um novo gosto literário, em novembro, me entreguei aos encantos do escritor alemão Goethe! 

Foi um divisor de águas (com açúcar) ler Os sofrimentos do jovem Werther (1774), pois negava fortemente que histórias de amor com ou sem final feliz fossem literariamente dignas de tomar meu tempo. Daí que fui muito feliz na escolha dessa leitura, confirmando que os clássicos tem que receber nossa devida atenção em meio a tantos best-sellers cinzas.

Os sofrimentos do Jovem Werther (pdf do livro aqui) é formado de cartas que o personagem Werther endereçou ao editor-personagem Wilhelm contando em minúcias as emoções e dissabores de amar Charlotte Buff, moça já comprometida com Albert. É um romance quase autobiográfico, pois o próprio Goethe, exercendo o Direito na cidade de Wetzlar, centro da corte de Justiça Imperial, conhece Charlotte Buff, por quem se apaixona perdidamente, apesar de sua musa ser noiva de um colega. Esta paixão quase o conduz ao suicídio, evento que posteriormente seria o mote inspirador do romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de 1774.(http://www.infoescola.com/biografias/goethe/)

No início, confesso, pensei que ia ser chatinho, mas surpreendi-me porque o texto é sincero, profundo e despido da complexidade da literatura alemãEnquanto declarava uma afeição louca por Lotte (apelido carinhoso), o jovem Werther descrevia o amor lato sensu com uma riqueza de detalhes (própria dos românticos quando falam a sua musa) e, ao mesmo tempo, com a simplicidade da vida real, deixando um espaço de atuação para o leitor criativo.
Na medida em que fui avançando, veio à tona a vibe de Dom Casmurro, obra eivada de mensagens não ditas para o leitor suspeitar, inventar ou supor... (obs: Talvez eu esteja concluindo, agora, que uma das características que eleva livros a clássicos é justamente essa proposital-simbiose-futura que o escritor permite acontecer de o leitor somar-se ao texto, tornando, portanto, cada leitura uma unidade em si; e cada leitor um escritor em potencial!). :)

Marco inicial do romantismo, considerado por muitos como uma obra-prima da literatura mundial, Os sofrimentos do Jovem Werther causou polêmica por instigar ao suicídio vários jovens apaixonados da época. Isso porque Werther tira a própria vida por amor (não é spoiler, porque, afinal, todos sabem seu the end).

Algumas transcrições...

´´Só isto basta: ela tomou conta de todo o meu ser.``
´´Tudo nos falta quando faltamos a nós próprios.``

´´Nada neste mundo nos torna mais necessários aos outros como o amor que lhes temos.``

´´ - Enquanto seus olhos estiverem abertos – respondi-lhe, fitando-a – não há perigo de que eu feche os meus.``

´´Wilhelm, que seria do nosso coração em um mundo inteiro sem amor?``

A obra reúne muitas características do movimento romântico: o individualismo e o subjetivismo, o instinto e  a exacerbação dos sentimentos, o escapismo e a imaginação, a religiosidade, o sonho, o culto à natureza, a melancolia, a idealização da mulher e do amor, etc. Veja bem, não pense que ele tooodo é tão meloso assim, pois tem inúmeras reflexões sobre a beleza da vida, humor, paz, natureza, etc. 

Rolou fortemente uma identificação comigo, por exemplo, nesse trecho (quem me conhece saberá heheh): 
(...) Concordo (porque já sei o que você vai dizer a respeito) que os mais felizes são exatamente aqueles que vivem sem pensar nos futuro, como as crianças, passeando, despindo e vestindo suas bonecas; aqueles que rodam respeitosamente em torno da gaveta onde a mãe guardou os doces e, quando conseguem agarrar, enfim, as cobiçadas guloseimas, devoram-nas avidamente e gritam: ´´Quero mais!``, eis as criaturas felizes. (...)
Enfim, Goethe descreveu como um sentimento desenfreado e sem limite ocupou a mente e coração de Werther que impossibilitado de viver o sonhado romance surtou e tirou sua vida! A alguns olhos é uma leitura meio down, mas eu achei desafiador perceber as inquestionáveis pureza e força do amor, perfumadas de ternura, apego e idolatria, tornarem-se loucura e resoluta morte. Pra dizer a verdade, eu estava sentindo uma peninha do Werther, etc, etc, até que vieram parágrafos reveladores!!! Ora, não era tão platônico assim: ela retribuía a paquera e alimentava os anseios dele, ainda que comprometida, e, por vezes, ela era grosseira com ele para eximir sua culpa pela reciprocidade. Enfim.
O seguinte trecho é desta resenha super detalhada, que ora tomo licença para copypaste:
 
Ambos se comovem, choram, se abraçam e se beijam. O mais sublime e apaixonado beijo da história da literatura, mas em seguida Charlotte repele-o, dizendo que nunca mais quer vê-lo. Charlotte (Carlota) sabia que amava Werther, mas também sabia que este amor era impossível. Assim, ela pediu para nunca mais vê-lo e ele assentiu.
Assim, depois de mais alguns escritos em que cogitava o suicídio constantemente, é tomada a decisão. Eis abaixo uma das últimas coisas que deixou à tinta:


A morte de Werther, quadro de Baude.
(...) Que me importa que Albert seja seu marido? Seu marido! ... O casamento só vale para este mundo, e é só neste mundo que cometo um pecado, amando-a, desejando arrancá-la dos braços dele para estreitá-la nos meus! Um pecado! Que seja!! Dele vou me punir. Saboreei esse pecado em toda a sua voluptuosidade celestial, meu coração sorveu nele a força e o bálsamo da vida. Desde aquele momento, você é minha, minha, Lotte! Parto antes. Vou ter com meu Pai, o seu Pai! Dir-lhe-ei as minhas penas e ele me consolará ate a sua chegada. Então, correrei ao seu encontro, abraçar-te-ei, e ficaremos, em face do Eterno, unidos por um abraço eterno. (...)
O escritor Goethe, ao morrer, profere uma famosa frase: ''deixem entrar a luz''.
Bom conselho, não?!

E para fechar uma resenha incompleta, pois, a meu ver, senti não ter alcançado a profundidade que a obra possui, despeço-me nas palavras de Ítalo Calvino:
 ''Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer."

Um beijo bom,
Camilla.
obs: Eis um artigo bem jóia com pontuações sobre a obra do Goethe: ''As razões de Werther''. Vale a pena conferir, mas só depois de ler o livro para não comprometer a interpretação.

UPDATE 25/nov!!! NÃO DEIXEM DE LER esse texto do site Obvius: Ainda sentimos os sofrimentos do jovem Werther?
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