segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Intervenção de terceiro #6, com Isabel Bortoluzzi


A menina que roubava livros foi o título que a Isabel Bortoluzzi Bertazzo escolheu pra escrever uma resenha pro blog. Conheci essa santamariense de 19 anos por intermédio do Fabiano Dallmeyer, que falou dessa amiga que gostava muito de ler e que iria apreciar o blog. Nos adicionamos no facebook e assim nasceu mais uma amizade por meio do amor aos livros! Ela me contou que tem gosto eclético pra literatura, passando por ficção, romances e também histórias verídicas, especialmente no contexto da Segunda Guerra Mundial. 
Então convidei a Isabel pra participar da seção Intervenção de terceiro, eis que a moça aceitou prontamente o convite e aí está sua resenha:

Sendo a "Morte" a narradora da história, o livro não poderia começar diferente. 
Por ter a mãe judia e comunista, a protagonista Liesel é entregue para uma família alemã que aceita adotar a menina em troca de dinheiro. Durante a viagem a caminho do novo lar, morre o irmão de Liesel e durante o enterro a menina encontra um objeto que chama a atenção de seus olhos. Imersa em tanto sofrimento e neve ela se depara com um livro e o toma para si. Este acaba sendo seu primeiro roubo. Com o passar do tempo Liesel conquista o carinho de seu pai adotivo Hans Hubermann e aprende a conviver com a rabugenta, mas amorosa, mãe adotiva Rosa Hubermann. 
Apesar de aprender a ler e ter feito algumas amizades, o clima de Segunda Guerra Mundial (entre 1939 e 1943) dificultava tudo. Naquela época, fazer o certo era o contrário que se precisava fazer para continuar vivendo tranquilamente, mas mesmo assim a família Hubermann dá abrigo e refugia o judeu Max no sótão de sua casa, colocando todos em perigo. Em meio a entregas de roupas lavadas e a correria quando soava o alarme de aviões-bomba, a narradora mórbida vai contando a história daquela família de variados pontos de vista. Paralelamente aos livros roubados por Liesel, a Morte conta sobre seu trabalho de recolher almas e levá-las embora desse mundo que já não as pertence mais. (...)

A primeira vez que li “A menina que roubava livros” não dei a devida atenção, mas na segunda tentativa, quando recomecei a leitura me surpreendi e pensei como pude deixar passar um livro tão emocionante, que me fez refletir sobre coisas tão simples e importantes do nosso dia a dia. Que bom que tive uma segunda chance com essa leitura incrível! Cabe referir que no início de 2014 será lançada uma adaptação para o cinema! Vamos ver se o diretor Brian Percival vai conseguir passar para a tela a emoção que Markus Zusak consegue descrever para os leitores!
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Heeeyyyy! Caríssima Isabel! 
Muito obrigada pela gentileza e sensibilidade! Estás sempre convidada a dividir tuas impressões aqui no blog! Vamos marcar um café qualquer hora e decidir que próxima companhia de papel vc irá resenhar?!  :D

Um beijo bom,
Camilla.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

AS AVENTURAS DE PINÓQUIO, Carlos Collodi


coisa fofa de 15,5 x 11,5cm, 370gramas e 360 páginas.
Pinóquio era apenas um boneco de madeira que a cada mentira que contava lhe crescia o nariz? Não. Isso é o que você sabe graças à versão simplificada incutida nas nossas mentes infantes pelo Walt Disney! Pinóquio é muito mais que isso.
É uma fábula escrita no final do século XIX pelo italiano Carlos Collodi (pseudônimo de Carlos Lorenzini), publicada como livro em 1883. A história do boneco tem um conteúdo moralista e pedagógico, tipo direcionado para crianças arteiras e desobedientes! Apesar disso, observamos no processo de humanização de Pinóquio inúmeras metáforas sobre aquele período de reunificação da Itália, e há quem também faça interpretações psicanalíticas e religiosas do texto. Então a leitura de Pinóquio se torna inesgotável.
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A narrativa é leve, precisa, com um toque (maravilhoso) de ironia.. e certa pegada teatral inclusive. Não acreditei que demorei uma vida até ler essa obra-prima! A grandiosidade do texto é inexplicável, por isso mesmo tornou-se um clássico.  
RECOMENDO muitooo, especialmente pra quem tem afilhados ou filhos!
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As aventuras de Pinóquio que vos apresento é a tradução do texto integral feita por Ivo Barroso, que respeitou com maestria a linguagem do original (publicado em capítulos num folhetim na cidade de Florença). Ficam os aplausos à Cosac Naify que caprichou nessa edição ilustrada por Alex Cerveny. O projeto gráfico é incrivelmente belo e delicado. As ilustrações foram feitas com uma técnica chamada cliché verre, que o próprio ilustrador Cerveny explica no vídeo desse post.

Esse pequeno grande livro foi um achado na FNAC Porto Alegre, pois estava largadinho dentro de um cesto de ofertas num corredor qualquer com etiqueta de 15,90!! 
Por fim, quero registrar para quem for ler, que NÃO DEIXE DE LER O POSFÁCIO escrito pelo incrível Ítalo Calvino. O comentário dele é essencial!!

Um beijo bom,
Camilla.

P.s.: Exatamente como fiz no O conto da ilha desconhecida, fica a dica aos acadêmicos de Direito para que assistam nesse link os comentários tecidos sobre o Pinóquio no programa Direito e Literatura!

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

UM CONTO DE NATAL, Charles Dickens

Um conto de natal foi a última leitura do ano do clube de leitura companhia de papel. Escolhemos pelo tema natalino é claro, mas também pelo fato de ser um conto, cujo texto mais curto se encaixaria bem nesse período de festas e agenda cheia.

Essa história é um clássico de Charles Dickens, um romancista inglês da era vitoriana que durante a infância vivenciou problemas financeiros como a prisão do pai por dívida e a dureza da classe operária na época da Revolução Industrial. Tais situações de certo modo influenciaram sua obra, que ganhou fama por abordar mazelas sociais.
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"Escrita às pressas em 1843 para pagar as dívidas de seu autor, Charles Dickens (1812-1870), foi um sucesso imediato de público e crítica. Por meio dessa sátira social – adaptada diversas vezes ao cinema –, Dickens teve um papel fundamental no resgate do espírito de bondade e solidariedadedas tradições natalinas." (sinopse)

O livro Um conto de Natal retrata a história de um empresário sovina, azedo e ranzinza que tem birra com a época natalina. O Sr. Scrooge não se solidariza com os necessitados nem aceita o convite do sobrinho para a ceia. Prefere isolar-se no escritório e renegar o espírito de Natal. Segundo ele:
"o que é o Natal além de uma data em que estamos sempre um ano mais velhos e nem um pouquinho mais ricos? ... se dependesse de mim, cada imbecil que aparecesse com essa história de ser feliz natal seria preparado em uma panela junto com a ceia e enterrado com uma estaca de árvore de natal cravada no coração. É assim que penso."

[Sentiram o ´´bom humor`` do protagonista? Pois é... e dizer que tem muuuuuita gente que infelizmente se fecha em tristes lembranças e nega o espírito natalino. Mas cadum, cadum..]

Scrooge, então, é surpreendido pelo espírito do antigo sócio lhe alertando que mudasse de comportamento, caso contrário sofreria as consequências dos erros e aborrecimentos gratuitos. Então, como que num ´sonho`, Scrooge recebe a "visita" de três espíritos de Natal, cada qual tentando conscientizá-lo a ser bom, paciente, tolerante e sensível.

O espírito de natal do passado leva Scrooge até à infância triste em que era solitário na escola e, depois, mostra o rompimento de um noivado por conta da obsessão por dinheiro. Esse espírito demonstra que a repulsa à pobreza só rende amarguras na vida.
O espírito de natal do presente leva Scrooge na casa da família do seu funcionário. Lá ele pode observar a humildade da ceia composta por um minúsculo ganso e um pudim, o que não retirou sobremaneira a alegria do encontro.
O espírito de natal do futuro revelou a circunstância de sua morte, e o fato de que ninguém se compadecia da sua ausência já que era avarento, insensível e não fazia questão de ter e cultivar amizades. "Aí está ele, numa casa vazia, sem nenhum homem, mulher ou criança para se lembrar de algum gesto de gentileza de sua parte."

Depois dessa jornada ou sonho em que viu seu lado negro, Scrooge desperta no dia de Natal com um novo olhar pra vida. Resgata a compaixão e solidariza-se com todos na rua, oferece dinheiro a necessitados e esboça sorriso nunca antes aparente. Ele abre seu coração e revê os atos mais simples, experimentando a graça da mudança e perdão!
O ex-ranzinza acabou indo cear na casa do sobrinho e rogou que o vissem transfigurado porque finalmente percebera a estupidez e insensibilidade com que tratava as mazelas alheias. 

obs: minha edição é essa aqui da L&PM. Série Clássicos da Literatura em quadrinhos!

Queridos leitores, que seu HO-HO-HO seja com muito HA-HA-HA!! (copiei da internet hihih)

Um beijo bom, 
Camilla.


Update! O tio Patinhas (uncle scrooge), personagem da Disney, foi inspirado no Scrooge.
O nome original de Patinhas, Scrooge McDuck, se baseia no avarento Ebenezer Scrooge, personagem principal do Conto de Natal de Charles Dickens(fonte Wikipedia)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

FESTA NO COVIL, Juan Pablo Villalobos

Quem mora em Santa Maria-RS conhece o trajeto pra capital de cor e salteado. Se for de ônibus para Porto Alegre, então, sabe das infindáveis 4 HORAS de viagem, acrescida de alguns minutos se a chegada concidir com a hora do rush.
Pois bem. Precisei de duas horas e pouco desse percurso pra iniciar e terminar Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos. Quero dizer com isso que eu leio em qualquer ambiente até com banda marcial tocando o livro é tão bom e divertido que a leitura flui e não vemos o tempo passar!

Em Festa no covil conhecemos a cruel realidade do tráfico de drogas no México a partir dos olhos do menino Totchili, de 9 ou 10 anos de idade. Ele é filho de Youcault, também chamado El Rey, um poderoso traficante que tenta educar e proteger o menino cercando-o de brinquedos caros, animais exóticos e professor particular, isolando-o do mundo externo. Sagaz e inteligente, o menino gosta de ´investigar mistérios`,  cuidar dos bichos de seu zoológico particular e venerar os franceses (porque decapitavam com o cuidado de por um cesto para as cabeças não rolarem)... Eis alguns trechos do primeiro capítulo:

"(...) Aí o Mazatzin veio trabalhar com a gente, porque o Mazatzin é dos cultos. O Yolcaut diz que os cultos são pessoas muito metidas porque sabem muitas coisas. Sabem coisas das ciências naturais, como que as pombas transmitem doenças nojentas. Também sabem coisas da história, como que os franceses gostam muito de cortar a cabeça dos reis. Por isso os cultos gostam de ser professores. Às vezes eles sabem coisas erradas, como que pra escrever um livro você tem que ir morar numa cabana no meio do nada e no alto de um morro. Quem diz isso é o Yolcaut, que os cultos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida. A gente também mora no meio do nada, mas não é pra se inspirar. A gente está aqui para a proteção."

Totchili conta das divertidas "brincadeiras" que faz com seu pai:
 
"(...) Uma das coisas que aprendi com o Yolcaut é que às vezes as pessoas não viram cadáveres com uma bala. Às vezes precisam de três balas ou até de catorze. Tudo depende de onde você atira. Se você atira duas balas no cérebro, com certeza elas morrem. Mas você pode atirar até mil vezes no cabelo que não acontece nada, apesar de que deve ser bem divertido de ver. Eu sei dessas coisas por causa de um jogo que eu e o Yolcaut costumamos jogar. O jogo é de perguntas e respostas. Um fala uma quantidade de tiros e uma parte do corpo, e o outro responde: vivo, cadáver ou diagnóstico reservado."
 
O laranja neon ofuscante da capa chama tanta atenção quanto o que lemos nessas 96 páginas permeadas de sarcasmo e ironia que conferem comicidade à questão do narcotráfico. Essa intenção do autor foi comentada numa entrevista na Festa literária de Paraty, onde pontuou ser possível ter uma forma maneira mais descontraída de abordar os temas, sem perder a profundidade. Não é preciso ser solene para ser profundo. Isso é o que eu tento fazer também com a minha literatura (entrevista para o portal IG).
 
"(...) E assim por diante. Quando acabam as partes do corpo, procuramos partes novas num livro que tem desenhos de tudo, até da próstata e do bulbo raquidiano. Por falar no cérebro, é importante tirar o chapéu antes de atirar no cérebro, para ele não manchar. O sangue é muito difícil de limpar. Isso é o que a Itzpapalotl, que é a empregada que faz a faxina do nosso palácio, repete o tempo todo. Isso mesmo, o nosso palácio, o Yolcaut e eu somos donos de um palácio, e olha que nem somos reis. Acontece que temos muito dinheiro. Muitíssimo. Temos pesos, que é a moeda do México. Também temos dólares, que é a moeda do país Estados Unidos. E também temos euros, que é a moeda dos países e reinos da Europa. Acho que temos bilhões dos três tipos, mas as notas de que mais gostamos são as de cem mil dólares. E além do dinheiro temos as joias e os tesouros. E muitos cofres com senhas secretas. É por isso que conheço poucas pessoas, treze ou catorze. Porque se eu conhecesse mais iam nos roubar o dinheiro ou passar a perna na gente como fizeram com o Mazatzin. O Yolcaut diz que precisamos nos proteger. Os bandos também são sobre isso."
 
Esse é o primeiro romance de Juan Pablo Villalobos, nascido em 1973 em Guadalajara, mas atualmente mora no Brasil. E acaba de lançar o Se vivêssemos em um lugar normal, também pela Companhia das Letras.
 
E aí? Curtiu o Villalobos?
Na próxima viagem Porto Alegre-SM ou vice-versa já tens uma ótima dica de leitura!!
 
Um beijo bom,
Camilla.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O CHAMADO DO CUCO, Robert Galbraith


Atenção, fã de romance policial e apaixonado por estórias de investigação! Ouse ler O chamado do Cuco e sentirá pulsar a veia Sherlock Homes que existe em você! 

A cada capítulo desse livro são gradativamente apresentadas peças de um quebra-cabeça para o leitor que, enfrentando o inverno londrino num elegante trench coat, identificará indícios, colherá pistas e dados aparentemente inúteis para depois, quem sabe, apontar conclusões a partir do emaranhados de provas na cabeça!

Uma über model à la Naomi Campbel cai da sacada da sua cobertura chique em Londres e morre espatifada na calçada em frente ao prédio, que em poucos minutos teve os entornos tomados por paparazzi. Como a jovem era meio afetada, a polícia entendeu que a trágica morte de Lula Landry aconteceu por suicídio, mas seu irmão, não convencido da tese, procura um detetive particular para ´reabrir` o caso e investigar suposto assassinato.

O detetive particular é Cormoron Strike, um veterano de guerra bruto e durão que conta com auxílio da secretária Robin, uma moça solícita e com surpreendente feeling investigativo. Eu gostei bastante da construção das personagens, cuja carga emocional é coerente com seus passados e vicissitudes. (Ao ler ficção a suspensão da descrença (Umberto Eco) não afasta certa ´responsa` de o autor nos convencer, né?). Numa entrevista, questionado sobre as pesquisas feitas antes de escrever a obra, o escritor revelou que deu a Strike muitas virtudes dos militares de quem é próximo: força de caráter, humor negro, resistência e engenhosidade. O que reputo essencial pra reforçar o enredo!

O desenvolvimento da trama acontece num ritmo agradável levando em conta a inafastável tensão que mina os livros policiais. Nosso fôlego é paulatinamente alterado a cada documento, análise de fechaduras e senhas, acústica dos espaços, entrevista com amigos e seguranças, telefonemas, etc. Sem contar na impecável descrição dos espaços... Quem já esteve em Londres diz que a ambientação é perfeita! 

Bom, o que não gostei muito no livro foi do contexto, ou melhor, mundinho fashion. Tudo se passa em meio ao glam de estilistas e fotógrafos, lobby das grifes e tabloides sensacionalistas alimentados, por sua vez, pela matilha de paparazzi devoradores de moral. Se o autor queria linkar com rehab, Amy Winehouse, Naomi Campbell, Princesa Diana, o objetivo foi atingido.
*
No primeiro dia de novembro de 2013 aconteceu o lançamento no Brasil, pela Editora Rocco, e dois dias depois eu já iniciava a tão comentada leitura. Pra quem não sabe, o Robert Galbraith é um pseudônimo da escritora J. K. Rowling, a famosa e reconhecida criadora da saga Harry Potter, fato que foi revelado meses depois do lançamento na Europa. Recordo de ter lido apenas o Harry Potter e a pedra filosofal, mas aguardava ansiosa a première de cada filme. De todo modo, a narrativa da Rowling conquista legião de fãs, independente do gênero.

Se não me engano há rumores de que a senda investigativa de Strike já tem sequência engatilhada, mas não sei pra quando. Será que as 448 páginas de O chamado do Cuco são lampejos de uma nova Agatha Christie?

Um beijo bom,
Camilla.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

BARBA ENSOPADA DE SANGUE, Daniel Galera

O clube de leitura companhia de papel reuniu-se no dia 10 de novembro para uma loooonga conversa sobre o livro do mês: Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, publicado em 2012 pela Companhia das Letras. Quando surgiu a proposta houve quem entendesse "´barbie` ensopada de sangue", acarretando certa preocupação caso crianças se deparassem com o livro pela casa (né Luciano? e Tatiana?).  :P

Se no início o título causou olhares tortos, posso afirmar que depois provocou olhos brilhantes e afoitos! A euforia do debate bem representou a intensidade do enredo e o efeito ímã da narrativa, afinal encaramos um escritor com habilidade ímpar pra conduzir seu leitor por capítulos arenosos e salgados, construindo personagens psicologicamente afetados, mas com carisma malemolente. Durante as 420 e poucas páginas pudemos sentir a maresia de Garopaba, o sabor do chimarrão, a dor da perda e a resignação que a sabedoria ou o tempo é capaz de construir.

O protagonista (não nomeado) tem uma conversa com seu pai e fica sabendo que o avô, Gaudério, teria sido assassinado na cidade de Garopaba, fato encoberto por uma névoa de incertezas e informações desencontradas. Para além dessa notícia surpreendente, o pai abre pro fillho um plano suicida e, dispensando piedade, apenas deseja que sua fiel companheira, a cadela Beta, seja sacrificada.
Após o suicídio, o professor de Educação Física, de alcunha nadador, desconsidera aquele último pedido e com a cadela Beta deixa Porto Alegre rumo a Garopaba/SC na intenção de ali investigar a morte do avô. A história se desenrola nessa cidade do litoral catarinense, à época, castigado pelas enchentes de 2008.

Os maiores trunfos de Galera são a construção das personagens e o foco na própria narrativa e não propriamente num objetivo a ser alcançado. Durante a leitura, sem querer, a gente espera que "algo aconteça" quando na verdade observamos a própria vida "acontecendo" sem grandes sustos ou supresas. É mais ou menos isso que senti ao cabo do Barba: a vida é a soma dos dias, com marés altas ou baixas, tanto faz. Uma sequência de escolhas e não escolhas, como rotineiras apostas na lotérica do bairro desprovidas de esperança concreta de premiação. Confesso que certa feita tive gana de jogar o livro na parede porque ansiava algum evento bombástico. Todavia, somente no final rolou um ligeirão de justificativas que oferecem certo alento ao leitor médio.
Mas o gran finale - que costura e confere sentido ao todo - só aconteceu quando voltei e reli o prólogo (#ficaadica)!
 
Quando o clube de leitura enfrentou as proposições, o tempo de debate pareceu-nos pouco para tanto a ser considerado!! A seguir, alguns pontos:
- impressão e expectativa antes e depois da leitura;
- reação do protagonista como fuga e distanciamento da dor sentida, como uma recusa de encarar os fatos e agir como adulto;
- doença que impede reconhecimento dos rostos x descrição minuciosa das características das pessoas;
- tempo verbal fixado no presente;
- descrição detalhada e precisa do ambiente, praia, natureza;
- representação feminina e papel das mulheres na vida do nadador;
- domínio na construção dos diálogos;
- transição do homem ao mito..
 
 Por acaso, a Tatiana Kuplich encontrou Daniel de bike pelas ruas de Porto Alegre e falou rapidamente com ele, contando da nossa coletiva leitura. Parece que inclusive o convidou pra confraternização de fim de ano do Clube de leitura aqui em Santa Maria! ;) (Confirma aí nos coments, Galera, é sábado, dia 30!)

Esse rapaz vem ganhando premiações literárias, tal como o recente Prêmio São Paulo de Literatura anunciado nesta segunda-feira dia 25/11/2013, mas não é só o Barba que faz sucesso. Convém mencionar as outras obras Até o dia em que o cão morreu, Mãos de Cavalo e Cordilheira, que já coloquei na lista!

 
O Barba ensopada de sangue foi traduzido para pelo menos dez países estrangeiros e, bem dizer, é a obra que está consolidando Galera dentre os melhores escritores contemporâneos nacionais! Vale conferir pra tirar a prova, não?

Um beijo bom,
Camilla.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS, Douglas Adams

O guia do mochileiro das galáxias é o primeiro livro de uma ´´trilogia de cinco`` publicado originalmente em 1979 por Douglas Adams, escritor e comediante britânico que escrevia esquetes para a BBC. Foi assim que nasceu a série de ficção científica composta pelos livros O guia do mochileiro das galáxias; O restaurante no Fim do Universo; A vida, o universo e Tudo Mais; Até Logo, e Obrigado pelos peixes e Praticamente Inofensiva. Ganhei a coleção no início do ano, mas só agora fiz a leitura do primeiro. Por questão de ordem (a.k.a. desordem) os outros ficarão pra 2014! ;)

"Existe uma teoria que, se um dia alguém descobrir exatamente pra que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. ..... Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu."

Esse clássico da literatura tem início quando tentam demolir a casa de Arthur Dent. Na ocasião, pra tentar tirá-lo do caminho dos tratores, o amigo Ford Prefect avisa que a Terra explodiria em poucos minutos e com manobras argumentativas o convence a fugirem dali pegando ´carona` numa nave espacial. Em seguida, Arthur é apresentado ao guia do mochileiro das galáxias, uma espécie de manual pra viagens interestelares que reúne informações sobre lugares, habitantes do universo e dicas de sobrevivência no espaço. A partir de então, seguem explorando o universo e o sentido de tudo que possa ter provada a existência. Inclusive da vida humana em sociedade e suas intercorrências... sob a ótica alienígena.
 
Ler ficção científica renovou o prazer da leitura por justamente quebrar paradigmas e fórmulas prontas, inverter sentidos e me causar novas sensações! Sem dúvida, O guia do mochileiro das galáxias é o livro mais engraçado e nonsense que eu já li!! Gostei da pegada irônica que satiriza a política, a sociedade, a burocracia, tudo numa linguagem simples e narrativa fluida. (Desculpem a resenha wannabe, mas não adianta eu contar trechos do livro pra suscitar interesse dos leitores, porque a probabilidade de eu escrever bobagem tentando descrever a genialidade de Douglas Adams  é de 98,90% segundo o Gerador de improbabilidade infinita).
  
Conforme a sinopse: Mestre da sátira, Douglas Adams cria personagens inesquecíveis e situações mirabolantes para debochar da burocracia, dos políticos, da "alta cultura" e de diversas instituições atuais. Seu livro, que trata em última instância da busca do sentido da vida, não só diverte como também faz pensar. (...)
 
Apesar de definirem-no como literatura infanto-juvenil certamente agradará adultos com olhar crítico. Mas nem embarque com Arthur e Ford se tiveres preconceito com literatura nonsense, geek ou nerd. E mais, é muito tênue a linha de amar ou odiar um livro, então arrisque! 8)

Sou eclética pra gênero literário e constantemente me desafio nesse sentido, o que reputo uma virtude diante de um mundo tão relativista, não é?! Estamos num pé em que todo ponto de vista é válido e todas as bandeiras são hasteáveis. Nesse passo, mais ainda, a literatura reveste-se daquela importância repetida nas campanhas educacionais: a de permitir observar e vivenciar o mundo a partir de outros referenciais e culturas, levando o leitor pra um castelo de bruxos, pra Terra do Nunca ou pra outra galáxia num virar de página. 
Se com toda essa viagem um livro conseguir dar moral pra ´compreender o sentido da vida`, tanto melhor! Leiam! Vale a pena conhecer o poder e utilidade de uma toalha e respirar tranquilo sabendo que 42 é a resposta à Questão Fundamental da Vida, o Universo e Tudo Mais.

Um beijo bom,
Camilla.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA, José Saramago

O conto da ilha desconhecida conta a estória de um súdito que bate à porta do rei postulando um barco. 
No palácio real há 3 portas: a das decisões, a das petições e a porta dos obséquios. 
O rei basicamente ficava à porta dos obséquios onde só recebia favores e agradecimentos do povo, comodamente e sem muito estresse. Por isso ele demorou pra atender o impetrante que não arredou o pé enquanto não falasse pessoalmente com o rei. 

Eis que descendo do trono, afinal temia a repercussão da fila que se formava, e arguindo o súdito (o que queres e para que queres?), o rei ordenou num bilhete ao capitão do porto: Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro...

E lá foi o súdito navegar em busca da Ilha Desconhecida...

A breve aventura que se segue está no livreto editado pela Companhia das Letras na forma de uma parábola sobre poder, tomada de decisões, burocracia, esperança, mas principalmente sobre não desistir dos sonhos! Num divertido conto, Saramago também permite observarmos a profundidade e imensidão do oceano que habita em nós, apesar da (impraticável) distância que se deve tomar do ponto observado. 
Ou seja, fisicamente não consigo me ver de fora... 
´´...mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver``.... ´´ se não sais de ti, não chegas a saber quem és.`` p.40
Levei duas horas pra terminar a leitura e dei umas boas risadas porque os diálogos são leves e divertidos. 
Recomendo porque é literatura portuguesa, é Saramago, é nobel!
Recomendo porque é todo metafórico (adoro!) e muito bonito, pois diversas páginas são aquarelas pintadas por Arthur Luiz Piza!
 
No Youtube é possível assistir variadas interpretações de O conto da ilha desconhecida, desde vídeos e animações a teatrinhos escolares. Esse ao lado conta o conto e depois comenta as simbologias propostas! :D
*
O afã de buscar e querer algo (com existência desconhecida) é o combustível pra vida, e notadamente todos os homens sonham com o que os fará felizes. Como dizem, a esperança gera sonhadores. E os idealizadores foram um dia sonhadores.

O projeto de vida do cidadão do conto é buscar a ilha desconhecida. 
Qual é o seu projeto de vida?

Um beijo bom,
Camilla.

P.s.: Acadêmicos do Direito! Vale conferir um ponto de vista jurídico deste conto, explorado no programa Direito e Literatura.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Do não arrependimento

Se me perguntassem ´Camilla, que livro tu te arrependeu de ler?` eu pensaria por uns minutos e talvez demorasse até formular uma resposta razoável. Mas como matutei um pouco antes de escrever esse post lhes digo: ´nenhum`.
Explico.                
Na linguagem literária o bordão ´tempo é dinheiro` tem um significado peculiar porque em se tratando de livros há um infinito de títulos interessantes, dos clássicos indispensáveis aos contemporâneos freneticamente publicados a cada semestre, por isso a escolha da próxima leitura é delicada como uma borboleta e decisiva como um pênalti.
 
Quaisquer decisões trazem consigo o custo de oportunidade, que é aquele tanto que deixamos de ganhar caso tivéssemos escolhido a opção deixada de lado, e o custo de oportunidade de livros é infinito! (Mais sobre isso no post O paradoxo da escolha).
 
Voltando à pergunta acerca de arrependimento, note que ela só tem espaço porque conservo a mania de ´tendo começado um livro vou até o final`, ainda que meio chato ou não empolgativo, o que nos joga diretamente pro dilema tempo de vida x livros desejados.
Eis minha teoria. Vou mostrar pra vocês como a vida de um leitor contumaz é tensa. #exagerada. Fiz um cálculo bastante opressor, confesso, mas necessário, para demonstrar a finitude do ser o quão apreensivo é aquele momento de parar em frente à estante pra puxar a próxima companhia de papel.
Se a proposta for a média de 1 livro/mês, serão 12 livros/ano e 120 livros/década. Considerando o período dos 20 anos aos 70 anos de idade, conclui-se que temos 5 décadas de vida útil de leitura. Por cima, entonces, somaremos uns 600 livros na vida!!! (cara de espanto + tristeza). É pouca leitura pra uma vida curta, minha gente!
/Uma noite longa
Pr'uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar.../


Veja bem, muito mais que constituírem nossa biblioteca empoeirada os livros têm o poder de definirem a nós mesmos. Tal uma pessoa que cruza nosso caminho, permanece por um tempo e depois sai de cena, é muito provável que façamos leituras em que apenas um capítulo ou um parágrafo será útil e capaz de tocar a gente.

Por isso não me arrependo de nenhum livro.
E não me arrependo de nenhuma pessoa.

/E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar.../
Um beijo bom,
Camilla.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O ENTERRO PREMATURO E OUTROS CONTOS DO MESTRE DO TERROR, Edgar Allan Poe

Tradicional e culturalmente, os países de origem inglesa celebram em 31 de outubro o ´´dia dos mortos``, que precede o dia de Todos os Santos. Tá certo que aqui no Brasil esse negócio de Halloween não é difundido pela real origem histórica, e, sim, pelo inevitável copy/paste americanizado (minha opinião), mas aproveitando o ensejo vou ´´celebrar`` o dia das Bruxas com a resenha de um livro do gênero terror que eu li esse dias. 
 
Antes de qualquer coisa cabe uma confissão: Eu, Camilla, não assisto a filmes de terror porque não vejo razão em provocar medo ou pânico em mim mesma pra depois tomar sustos gratuitos quando o vento-norte santamariense bate uma porta ou sussura numa frestinha da janela. Em geral, lido bem com minha imaginação, mas ver Atividade paranormal ou O exorcista sob o argumento de sentir frio na barriga e arrepios não me comove. Pra isso prefiro montanha-russa ou massagem nos pés, por exemplo. Porém, o peixe morre pela boca de muito ler comentários sobre a obra do Edgar Allan Poe, numa bela tarde comprei O enterro prematuro e outros contos do mestre do terror. Eis, pois, meu primeiro contato com literatura de terror de verdade e totalmente influenciado pela Tatiana Feltrin, do blog Tinny Little Things, que morre de amores por Edgar Allan Poe (nascido em 1809 em Boston) e tem autoridade pra tratar do assunto. Aqui no blog já fiz resenhas de livros que dão medinho ou ´tidos por terror`, como o FrankensteinCoraline e até mesmo O oceano no fim do caminho, mas Poe é incomparável! Ups! E não posso esquecer de O iluminado (esse, sim, dá medão) que a Débora resenhou pra gente, mas eu ainda não li.
*
Vamos lá!
Dizem que Allan Poe sofria de catalepsia - doença em que os sinais vitais desaparecem e a pessoa aparenta estar morta -, e nutrido pelo medo de ser enterrado vivo ele criou personagens em situações claustrofóbicas, com pouco ar, falta de força pra empurrar a terra ou cimento ou madeira que lhe cobre, etc... Também concebeu personagens absolutamente lúcidas em sua loucura, com ojeriza injustificada e instinto assassino antes desconhecidos.  
 
A maioria dos contos é escrita em primeira pessoa: recurso perfeito para o leitor entrar nos pensamentos e emoções de mentes perturbadas, sentir o pânico de um prisioneiro da inquisição, lutar contra a morte quando ela é iminente, acompanhar detalhes da execução e, até, da ocultação de cadáveres... E por aí segue mesclando respiração tensa e silêncio eloquente pra desaguar em surpreendentes desfechos! 
Nesse livro estão reunidos cinco contos: O coração delator; O gato preto; Berenice; O enterro prematuro; O poço e o pêndulo.
Só lendo pra sentir a força da prosa poética desse escritor que, a par do conteúdo sinistro, é envolvente e capaz de nos travar a respiração enquanto conta episódios de culpa, dor e desespero. 

´´Ler Edgar Allan Poe exige coragem. Exige, também, uma forte atração por universos densos, repletos de seres cujas existências situam-se na zona fronteiriça entre vida e morte. Não é à toa que o autor norte americano acabou inscrevendo seu nome como o maior escritor de terror. Um terror, todavia, muito  mais psicológico. Um terror que investiga o interior do ser humano e sua capacidade de praticar atos que poderiam ser considerados tortos, terríveis, grotescos, mas que para aqueles que os executam tornam-se necessários, vitais. Um terror que, ao mesmo tempo em que inquieta e assusta, seduz e convida à leitura. Há que se estar preparado.`` (prólogo).
 
Ler Poe é inquietante, mas muito legal! Sério!! heheh
Experimente começar pelos clássicos O poço e o pêndulo (sobre inquisição na Idade Média) e O gato preto e depois comente aqui ou na fanpage do facebook!
 
Trick-or-treat?
Camilla.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O CHAMADO DA NATUREZA, Jack London

O Chamado da natureza ou O chamado da floresta foi indicado no site papodehomem como uma leitura para macho, mas qualquer gênero que conviva com bicho de estimação, especialmente cachorro, vai gostar muito!! A estória é intensa e contada sem frescura.. e deve ser por causa dessa linguagem objetiva que o classificaram ´pra homem`! (obs: mulheres também sabem ser objetivas, viu!?)  :p
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Em 1867 os americanos compraram do Império Russo o território Alasca, mas somente um pouco antes de 1900 aconteceu de descobrirem ouro por lá, o que atraiu uma galera de garimpeiros americanos em busca de riqueza. Um desses era o Jack London, cuja vivência e cenário inspiraram O chamado da floresta, Caninos brancos, O lobo do mar, entre outros. 

O protagonista de O chamado da floresta é o cachorro Buck, uma mistura de São Bernardo com pastor  que tem a sorte dos atuais cachorros de apartamento. A felicidade do Buck é a vidinha doméstica onde pode comer, brincar e dormir até que é roubado do dono e levado com mais uns quantos cães para puxar trenó rumo ao Alasca. Durante a jornada ele sofre no pelo (na carne, nas patas..) as intempéries e os maus tratos dos homens  que conduzem a matilha. ´´(...) um homem com um porrete era um legislador, um mestre a ser obedecido, embora não necessariamente respeitado``. E o sofrimento moral fica por conta da crueldade dos lobos e cães que, manjados na atividade, exercem domínio sobre os novatos. A hostilidade do ambiente testa sua adaptabilidade, mas o instinto de sobrevivência é mais forte que o gelo, o vento e a dor. 
 
´E não somente ele aprendeu através da experiência, como instintos mortos há séculos retornaram à vida. As gerações de animais domesticados foram sendo descartadas. De uma forma vaga, ele recordava as experiências ocorridas aos primeiros de sua raça, retornava ao tempo em que os cães selvagens corriam em alcateias através das florestas primitivas e matavam seu próprio alimento depois de persegui-lo até a exaustão. Não foi absolutamente difícil para ele aprender a lutar com a tática dos lobos, de cortar, de retalhar, morder rapidamente e então saltar par afora do alcance do adversário. Era a maneira como combatiam seus antepassados esquecidos. Eles fizeram ressurgir a vida antiga dentro dele, e as velhas artimanhas que haviam gravado na hereditariedade de sua linhagem tornaram-se as suas próprias artimanhas. Retornaram a ele sem esforço nem sensação de descoberta, como se as tivesse praticado durante toda a vida. (...)´  (capítulo 2)
 
Esse livro é fantástico porque não é clichê como algumas estórias protagonizadas por animais. Tem um estilo mais bruto realista e narrado do ponto de vista do cachorro. Cada capítulo avança para um encontro íntimo do Buck domesticado e afetuoso com o Buck compelido à origem selvagem e instintiva, sem retirar dele o entusiasmo no trato com seu amo. ´Ele conservava a fidelidade e a devoção, coisas nascidas do fogo e do teto. Porém mantinha sua selvageria e sua astúcia instintiva`. (...) (capítulo 5)
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Baseado na história real do americano Christopher McCandless, Sean Penn dirigiu o filme Into the wild (Na natureza selvagem) onde um jovem americano ´rasga` seu recém conquistado diploma e parte sozinho numa aventura rumo ao Alasca. O chamado da natureza é um dos livros que fazem companhia pra ele nessa empreitada. 

Uma excelente companhia de papel, eu diria. Vale a pena!

Um beijo bom, Camilla.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O PEQUENO PRÍNCIPE, Antoine de Saint-Exupéry

O clube de leitura companhia de papel reuniu-se no domingo, 13 de outubro, pra debater a leitura do mês: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Tão conhecido e publicado quanto a Bíblia e o Corão, a singela estória de um piloto - que por uma falha mecânica no avião vai parar no deserto do Saara - eterniza princípios universais sobre a vida em sociedade. A escrita simpática e ilustrações delicadas camuflam numa fábula as nossas fraquezas de adulto que tentamos camuflar.
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O pequeno príncipe é sábio como o mestre Yoda, com a diferença de que o Grande mestre da ordem Jedi dá conselho na lata e o principezinho deixa nas entrelinhas. Mas, ainda assim, atinge nosso brio ao descrever cada tipo de pessoa nos planetas que vai desbravando: do homem que pensa em números ao rei que só enxerga súditos; do vaidoso sedento por admiradores ao geógrafo que anota tudo sem saber o porquê. 
Sábio é o leitor que se identifica com a raposa, porém mais sábio ainda aquele que se vê, ora ou outra, na rosa orgulhosa, no guarda-chaves ou no vendedor de pílulas pra matar a sede. :)
A sabedoria da mensagem de O Pequeno Príncipe está justamente em, percebendo as falhas de caráter de cada personagem, retirar um conteúdo moral e praticável na busca do sentido da sua vida.
Se é dureza acordar, sorrir para motoristas que te fecham, discutir jurisprudência do TJ do Acre, a subida do dólar, o formol nas progressivas, o potencial emagrecedor do chocolate e outras polêmicas que a Veja/Globo/Nasa se encarrega de incutir na nossa inteligência medianta, imagina pra quem fala imbigo? Imagina pra quem não busca sentido pra sua existência? Pois é.
Se você acha perda de tempo refletir sobre o sentido da vida e ´´para quê vim ao  mundo?`` considere-se um zumbi.
De volta ao conteúdo do livro... notamos que aquelas clássicas (e decoradas) frases ´´Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas`` e ´´O essencial é invisível aos olhos`` são escritas com frequência e repetição em dedicatória (até) de livro de culinária e declamadas com louvor pelas misses magras e cultas. Todo caso, mergulhemos mais fundo neste texto pra alcançar a filosofia que o Exupéry propõe: 

´´Quando a gente anda sempre pra frente não pode mesmo ir longe``.

´´Mas ninguém lhe dera crédito por causa das roupas que usava. As pessoas grandes são assim.``

´´- E de que te serve possuir as estrelas?
- Serve-me para ser rico.
- E para que te serve ser rico?
- Para comprar outras estrelas, se alguém achar.``

´´É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar``.
E por aí vai.. cada capítulo um soco!
Mas agora, dando meu pitaco, acho que o principezinho nada mais é que uma miragem do piloto (com sol do Saara na cabeça), e representa a consciência dele próprio quando criança! E daí todo o resgate da alma infantil cujos valores (muitas vezes) são gradativamente esquecidos quando se tornar adulto supõe vestir gravata e responsabilidades e pagar imposto. ´´É assim pra todo mundo``, ´´faz parte``, dirão, sem romantismo, os auditores da Receita. Enfim.
Será que suas coisas sérias são mais sérias que a profissão do hippie que fabrica pulseiras e faz piruetas no semáforo? Será mais importante regar a flor ou colocá-la sob uma redoma? Será que cegados pela rotina descuidamos de olhar o essencial? ...
OBS: no parágrafo abaixo vou encerrar meu post em respeito às pessoas grandes e ocupadas que abriram o blog rapidamente no meio do expediente e não têm tempo pra ler muitos caracteres que podem ou não trazer luz à sua assoberbada semana. 
Então, caro leitor, é impressionante como as lições desse livrinho (infantil?) ganham novos significados aos 12, aos 20 ou aos 58 anos de idade. Se não leu, ainda dá tempo! X)
Depois volte aqui pra comentar. Não a clássica pergunta se terá ou não o carneiro comido a flor?, e, sim, por que o principezinho abandonou o seu planeta B612, afinal?
Um beijo bom,
Camilla.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Intervenção de terceiro #5, com Diego Hahn

Nineteen Eighty-Four é um romance distópico clássico do autor inglês Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, um dos escritores mais influentes da sociedade moderna! Também foi ele que escreveu A revolução dos bichos, cuja resenha postei aqui.
O santamariense Diego Hahn, do blog De letra, mandou sua resenha do 1984! Vamos dar uma espiadinha (#tipoBial) ??

 
O detalhe mais popular da obra-prima de George Orwell (ao menos no nosso Brasilzão) é o termo ´´Big Brother``, devido ao reality show que leva o nome do poder supremo da velha Oceania do livro. É, meu amigo, não foi o Bial que inventou o Big Brother e nem a Globo que inventou o totalitarismo. 


Sempre se associou a sociedade controlada descrita na obra ao regime soviético stalinista, o que sempre pareceu bem óbvio já que Orwell era um socialista decepcionado com o regime totalitarista que imperava por aquelas bandas em tempos de Guerra Fria. A ´´sociedade controlada`` no livro é a Oceania, um dos três países remanescentes de uma grande guerra mundial, juntamente com a Eurasia e a Lestasia, contra as quais se mantém em guerra. Impera um regime totalitário onde o governo controla a tudo e a todos, monitorando a vida das pessoas através da "teletela" - uma televisão de duas vias onde o espectador assiste e é assistido.


Se já faz um tempo que caiu o Muro de Berlim e com ele, quase por completo, o comunismo, por que "1984" continua tão atual e há sempre referências a ele quando se tratam de fatos do nosso cotidiano? Não será tão somente para criticar os resquícios do comunismo nos regimes de Cuba e da Coréia do Norte?Será?

Apesar de focar sua crítica no regime soviético do final dos anos 40, Orwell acabou tornando-se uma espécie de “profeta”. Particularmente para mim fica difícil não visualizar a face do Grande Irmão em algumas bandeiras que tremulam imponentes sobre nosso mundo globalizado - especialmente depois do vazamento de informações confidenciais da inteligência estadunidense que dão conta de que o país conta com um intrincado sistema de monitoramento de ligações telefônicas e comunicação em redes sociais, e-mails, e outras ferramentas, na internet, planeta afora...

Isso sem falar, é claro, nos satélites e seus Google Street Views e Google Earths e tal, a não nos deixar sumir do mapa... Assim, estamos lá, queiramos ou não. E, a propósito de querer ou não, o mais incrível de tudo talvez seja exatamente isso: parece que a todo custo queremos estar lá! - sem nos importarmos nem um pouco ou sequer pensarmos a respeito de eventuais consequências e efeitos colaterais da exposição contínua...

Flagrei-me imaginando a face imponente do Grande Irmão pairando na nossa velha e boa rede mundial de computadores, especialmente na tela de entrada de algumas redes sociais – como no Facebook, que dado sua abrangência virou uma espécie de império virtual mundial. O curioso, neste caso, é que esse suposto novo Grande Irmão seria tão sutil e perspicaz que não nos obrigaria a nada: ele conta com a nossa bondade e a nossa espontânea colaboração e nós, por contra própria, expomos tudo – nossos dados pessoais e de nossos familiares e amigos, nossos rostos, nossos corpos, nossa localização exata neste exato instante; enfim, nossa vida inteira ali, para ele.
E como o Facebook, por exemplo, foi uma das empresas que cedeu seus dados – ou melhor, o de seus “clientes”, ou sua “população” – ao governo norte-americano, seria, de certa forma, um “círculo que se fecha”... Parece que o Grande Irmão se transformou, se adaptou, se refinou, fez-nos acreditar que é tudo legal e não há perigo algum: tudo existe para o nosso bem. Não precisamos mais levar porrada como levou Winston, o protagonista de 1984, na ficção de Orwell. E, como é
tudo inofensivo e para o nosso bem, o Ministério do Amor continua ali de prontidão (piada interna).

Os motes do Partido que controlava Oceania eram: “Ignorance is strenght, freedom is slavery, war is peace” (ignorância é força, liberdade é escravidão, guerra é paz). Mais alguma semelhança com a realidade talvez seja mera coincidência, uma fantástica profecia do escritor... ou pura obviedade!
Diego Hahn.

Agradeço ao Diego a gentileza em dividir conosco sua percepção do Grande Irmão ´´profetizado`` no livro de Orwell. Se se trata de espionagem, inteligência comercial ou quebra diplomática, bem ou mal, estamos inseridos nessa sociedade de informação e sujeitos a olhos que (nos) enxergam mais longe!

Um beijo bom,
Camilla.  

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

DO QUE EU FALO QUANDO FALO DE CORRIDA, Haruki Murakami

O simplório ritual de calçar o par de tênis e encaixar o fone do Ipod no ouvido precede essa atividade tão completa (mental e fisicamente) que é a corrida.
O calcanhar deve tocar primeiro o chão, seguido de toda a extensão do pé que, carimbando o chão, impulsiona ao próximo e repetido movimento... A passada vai compassada no ritmo da música e no tênis que bem entender. A depender da direção do vento e do espírito, minha trilha é Gipsy Kings, samba, Madonna ou deep house. Calço adidas ou mizuno, sem muita frescura, e lembrando que, apesar de haver tênis para qualquer bol$o, não vai ser o gel que interferirá na performance de uma iniciante como eu. E assim começa a liberação da endorfina.
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Pra quem gosta e costuma correr, mais do que wave creation ou gel kayano, esse livro é um MARAVILHOSO propulsor! Aos que (ainda) não enfrentaram a rua, será uma interessante cutucada motivacional! São APENAS 152 páginas em papel pólen soft, com as características margens largas da Editora Alfaguara (isso significa que o livro é curto!)  

O Haruki Murakami é um escritor e tradutor japonês cujos livros alcançam recordes de vendas no mundo! Já tinha notado a popularidade dos romances 1Q84, Norwegian Wood, Kafka à beira-mar, Minha querida Sputnik, mas esse aí da capa psicodélica preto e branca com vermelho foi o primeiro que li! E que leitura top! [Amigos, acho que esse post vai ser grande, não vou resistir a colocar alguns trechos (em itálico), ok?]
 
Do que eu falo quando falo de corrida não é um livro de autoajuda ou manual de como ser saudável correndo, portanto não espere conselhos de alimentação+água+sono. Aqui o ´´esporte`` corrida é erigido a um estilo de vida, ou melhor, a uma filosofia de vida, como um método simples, gratuito e eficaz de alcançar a felicidade pisando quilômetros. :D
Murakami fala sobre correr com disciplina (como absolutamente tudo que os japas fazem), não porque um treinador está gritando do lado, e, sim, por determinação da sua própria mente; não porque precisa emagrecer, mas porque se sente VIVA e PLENA suando enlouquecida na Avenida Medianeira. Se tá difícil encaixar um tempo...
.. você precisa realmente estabelecer prioridades na vida, imaginando em que ordem deve dividir seu tempo e sua energia. Se não consegue estabelecer esse tipo de sistema em uma certa idade, vai perder o foco e sua vida fica em desequilíbrio. p.37
Numa escrita simples e direta, ele relata sua experiência de corredor (e escritor), descrevendo os passos, dor, prazer, raiva, consciência respiratória, etc, das maratonas que decidiu correr anualmente, a partir dos 33 anos de idade:
Certo dia, do nada, quis escrever um romance. E um dia, do nada, comecei a correr – simplesmente porque eu quis. Sempre fiz o que tive vontade de fazer na vida (p. 127).
Corredores iniciantes ou avançados têm que ler esse livro, cuja resenha eu dedico pra Ingrit Gava, Dudu Jobim, Margot Tome, Rodrigo Minuzzi, Júlia Rebelato, Rômulo Oliveira e Ivanise Pereira !
Se você quer desfrutar os anos, é muito melhor vivê-los com objetivos claros e plenamente vivo do que numa bruma, e acredito que correr ajude a fazer isso. Forçar a si mesmo ao máximo dentro de seus limites individuais: essa é a essência de correr, e uma metáfora aplicável à vida – e, para mim, ao ato de escrever, também. Acredito que muitos corredores concordariam. p.73

orla de Floripa, abril/2013
Falando na atividade de escritor/corredor, Murakami determina que você precisa transmitir continuamente o objeto de sua concentração para seu corpo todo, e se certificar de que ele assimilou por inteiro a informação necessária para que você escreva todo dia e se concentre na tarefa diante de si. E gradualmente você expandirá os limites do que é capaz de fazer.(p.70). E mais... acho que fazer algo por si mesmo (e nao para espectadores) é o trunfo dos que vencem, seja um campeonato de xadrez, vaga de emprego ou rústica sem premiação. Desde início de 2013 estou sendo conquistada e surpreendida por essa atividade, que inclusive proporciona novas amizades. :)
 
Para mim, correr é tanto um exercício como uma metáfora. Correndo dia após dia, colecionando corridas, pouco a pouco elevo meu patamar, e cumprindo cada nível aprimoro a mim mesmo. Pelo menos é nisso que deposito meu empenho dia após dia: elevar meu próprio nível. p.16
Ao narrar step-by-step uma ultramaratona, quando cruzou a linha de chegada, descreve:  Um sentimento pessoal de felicidade e alívio por ter aceitado fazer uma coisa arriscada e mesmo assim ter encontrado forças para superá-la. Nesse caso, o alívio sobrepujou a felicidade. Era como se um nó cego dentro de mim estivesse gradualmente se afrouxando, um nó de que eu nem sequer me dera conta, até então, de estar ali. p.101.
 
Falo por mim, com meu razoável pace médio de 5,40min/k, que correr é uma atividade que precisa apenas dois itens: tênis e vontade. E dispensa apenas 1 item: desculpinhas.
 
 
Tenho apenas alguns motivos para continuar a correr, e um caminhão deles para desistir. Tudo que tenho a fazer é manter esses poucos motivos muito bem-cuidados. p. 66


Um beijo bom,
Camilla.
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