quinta-feira, 20 de junho de 2013

Intervenção de terceiro #2, com Hector Justo

Que eu me lembre ainda não falei de Literatura Fantástica por aqui, mas não vejo a hora de adiantar algumas leituras e postar resenha de Tolkien, G. Martin, passando por C. S. Lewis... Aliás, todos eles já moram na minha estante! #pródigaliterária #shameonme  ;P
Esse gênero literário existe há muito tempo, mas de uns anos para cá estourou no mercado editorial e virou febre, a ponto de abduzir leitores de todas as idades para universos totalmente inéditos e mágicos! Hogwarts e Terra média são alguns exemplos!! 

Numa agradável tarde de sábado, participei de um Sarau Literário promovido pela Athena Livraria, nossa parceira, onde tive o prazer de absorver lições e debater ideias fantásticas com  o professor Andre Zanki Cordenonsi e um grupo de leitores clientes da Athena. Falou-se da origem histórica desse gênero literário, que mesclando mitologia e história antiga tem o poder de criar universos imaginários onde convivem desde dragões e bruxos a elfos e orcs! :D (OBS: o mediador do debate, o santamariense André Z. Cordenonsi, recentemente lançou a saga Duncan Garibaldi e a ordem dos bandeirantes, uma aventura ficcional ambientada na Vila Belga, aqui em Santa Maria-RS!! Espie o site do livro!)
:) 

O 'terceiro interveniente' de hoje é meu amigo Hector Justo, centrado estudioso do curso de Direito e apreciador de literatura de todas as ordens. Fã de O Senhor dos Anéis, Hector apresenta pra gente a resenha de Beowulf, um dos mitos mais famosos da história humana ( e que serviu de inspiração para Tolkien!):
 
Originalmente, Beowulf foi concebido como um poema, um cântico, objeto dos bardos (pessoas encarregadas de transmitir as histórias, lendas e poemas de forma oral, cantando a história de seus povos, na história antiga da Europa). O leitor afeto à ação e grandes aventuras não se decepcionará com esta leitura cujo único manuscrito existente data do século XI, apesar de que possa ter sido concebido antes disso. 
Redigido em prosa, o livro Beowulf retrata o cenário bélico da Idade Média no norte da Europa, remontando a antiga Escandinávia, sem qualquer acréscimo surreal, mas eivado de suspense! É nesse ambiente lúgubre marcado por temores a criaturas míticas que surge a figura do herói mitológico Beowulf, um guerreiro nórdico com ambições de glória e provação. Ele combate inimigos monstruosos como dragões e ogros perversos (revitalizados em diversas obras futuras), mas também enfrenta confrontos internos, inerentes a todos os seres humanos, tais como o medo do desconhecido e a necessidade básica de sobrevivência. Além disso, aspectos como vingança, inveja e disputas pelo poder são encontrados na história do herói godo.
A trama retrata a luta pela sobrevivência de um povo. Sem excessos linguísticos, porém com metáforas pautadas em códigos de honra, essa obra transporta o leitor para um ambiente hostil onde são constantemente testados os valores da lealdade, honra, heroísmo e superação. Vislumbramos pontos de contato com obras futuras, por exemplo a figura do doador de anéis, inspiração de J.R.R Tolkien - que inclusive escreveu um ensaio de mais de 2 mil páginas sobre o poema (a.k.a. Contos Inacabados). E o personagem Hrothgar, utilizado pelo novel autor Christopher Paolini, bem como o tradicional cenário da caverna guardada por um dragão e seu imenso tesouro que depois engendrou o mais famoso Role Play Game (RPG) Dungeonsand Dragons D&D. 
Beowulf apresenta uma forma sui generis da violência, que constrói e desconstrói a ordem. Além disso, leciona que a violência gera mais violência, a exemplo da morte do monstro Grendel (seria descendente do clã de Caim), estopim pra surgirem outros inimigos ainda mais perigosos. Sua escalada não tem limites! Propõe um resgate de valores e uma inversão de princípios. O final é épico e grandioso, digno daquele que foi bravo e forte até o fim!


Grande Hector, curti a resenha! 
É válido contemplar a fonte de inspiração de muitos escritores de fantasia que admiramos atualmente.

Vale mencionar que essa histórica alegoria sobre a cobiça humana, que influenciou sobremaneira a obra de Tolkien, virou filme! Com Angelina Jolie, John Malkovich, Anthony Hopkins etc.. 

Um beijo bom, 
Camilla.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A CONFISSÃO DA LEOA, Mia Couto

252 páginas de rugidos de leões 
e/ou surdos gritos humanos
Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem que correr mais veloz que o leão ou será morta. 
Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome.
Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr. (Provérbio africano)
*
Poeta quando escreve prosa, sai de baixo! São enxurradas de abraços e beliscões linguísticos e metáforas não convencionais, além de uns quantos trechos pra anotar no seu moleskine!! 
A confissão da leoa foi a escolha de abril do Clube de Leitura Companhia de Papel (mais um livro no universo ´´animais`` heheh).
É uma obra ficcional, fruto de incursão do autor numa localidade moçambicana em que  ocorreram, durante um período, reiterados ataques de leões contra humanos. 
Na oportunidade, ele foi enviado e atuou como oficial ambiental de campo, além, é claro, de reunir anotações reais para forjar esse livro que ora vos apresento
 
Bueno. O livro é dividido em capítulos alternados entre dois narradores: o caçador Arcanjo Baleiro e a jovem Mariamar. Ele tem embates de consciência sobre a missão de caçar - animais e/ou homens... e ela nutre um interesse platônico neste homem que, na sua cabecinha, poderia tirá-la da tribo Kulumani e levá-la à liberdade... 
Em Kulumani, as mulheres não eram livres e a ´´fraqueza`` da figura feminina - tradicionalmente submissa em meio a crenças e rituais machistas - é trazida à luz nas personagens Hanifa Assulua, Silência, Mariamar e Naftalinda.. (a meu ver, funcionam como representação das mazelas da agressão sexual, incesto, indiferença, aborto e sofrimentos emocionais de toda a ordem).
Enfim, apesar do conteúdo forte e realista, Mia Couto passeia pelo fantástico para  suavizar (nem digo intencionalmente) o contexto hostil com lirismo. Sem falar na perícia linguística e alguns neologismos - marca carimbada dele!   :D   

Mia Couto é um biólogo moçambicano que escreve!! E, contrariando a massa de vaidosos que pululam nesse meio, ele próprio não se considera escritor profissionalmente falando: 
"eu fujo dessa casa chamada Literatura; eu sou um contador de histórias; quando vejo um grupo de escritores digo logo que sou biólogo". 
 
Mia Couto é filho de imigrantes portugueses e nasceu em 1955, na cidade de Beira, a segunda maior do país atrás apenas da capital Maputo. Na juventude, o escritor integrou o movimento pela libertação de Moçambique da dominação de Portugal. Após a independência, em 1975, trabalhou como jornalista em vários veículos e chegou a assumir o posto de diretor da Agência de Informação de Moçambique. Na década de 1980, ele voltou à universidade - onde tinha iniciado os estudos em Medicina - para cursar Biologia e exerceu profissão por muitos anos no país.  (fonte O Globo).
Para nossa alegria, ele acaba de receber o Prêmio Camões 2013, então foi providencial o Clube de Leitura ter essa leitura fresca. Eis um trechinho do discurso da Presidenta Dilma na entrega do prêmio: (...) a contribuição de Mia Couto extrapola os limites de sua arte. Oferece-nos o sonho de um mundo de compreensão e entendimento entre os seres humanos e desses com os mistérios da natureza, da vida e da morte.

Vale (mesmo!) conferir a sagacidade, humildade e apego às raízes na sua participação no programa Roda Viva, da Tv Cultura.

Mais de 25 línguas são faladas em Moçambique!! Assim, Mia Couto propõe deixar a linguagem oral entrar no texto, especialmente porque a oralidade transporta as histórias de umas pessoas para outras, de geração em geração...
Crenças e comportamentos sociais são transmitidos principalmente através da voz nesse país africano que engatinha independente desde 1975 e conta com no máximo 10 livrarias em todo seu território!  :O

Seguindo a mesma vibe do post A Revolução dos bichos, vou elencar alguns  dos questionamentos que propus no encontro do Clube de Leitura sobre A confissão da leoa:
- ``Ela diz que esse caderno é a sua única roupa´´ (p. 249). Qual a nossa única roupa?
- A serpente coxa somos nós mesmos?
- Pra você, Mariamar é Maria+mar ou Maria+amar?
- Com o atual empoderamento da mulher, houve inversão da juba? Hoje quem tem juba manda mais?
- Mariamar refere que o receio de todos os homens – inclusive Arcanjo Baleiro – era que regressasse o tempo em que nós, mulheres, já fomos divindades (p. 185). Nós, mulheres, já fomos divindades?
- A mãe do Arcanjo Baleiro tinha razão quando disse: ``Fica a saber, marido: este menino não será nunca um caçador´´ ?
- ``Você olha pra mim e é tão fácil mudar, qualquer plano..´´ (música ´Caça e caçador´, do Fábio Jr.). Como Mariamar é vista por Arcanjo na primeira e, depois, na segunda vez?
- Nossa sociedade capitalista vende a ideia do consumo como solução/satisfação/cura de males.. Atualmente, pratica-se o takatuka (p. 163)?
- Há um paradoxo ou paralelo entre as vidas/realidades de Naftalinda e Hanufa Assulua?
 
O meu ídolo Márcia Tiburi fala que ``Podemos passar séculos debatendo o gosto, afinal ele é formado cultural e educacionalmente´´
Ok, mas e quando esse gosto sequer é formado ou desenvolvido? .. 
O que dizer de tribos e vilarejos completamente isolados do resto do mundo e que apesar de independentes convivem com o muro invisível da opressão?? São aglomerados de homens e mulheres vivendo sabe-se lá onde, provavelmente num lugar onde regras morais repetem comportamentos abusivos e a perversidade de humanos e leões andam a par e passo... Aí me pergunto se os direitos humanos alcançam todos os cantos da África. Cri-cri-cri..

´´Sou um poeta que escreve em prosa``.
Por essa e outras acho válido apreciar nossa familiar Língua portuguesa pelas mãos brancas de um autêntico moçambicano, até porque um cara fã de Guimarães Rosa, Jorge Amado e que em sua cabeceira repousa o Livro do Desassossego merece nossa curiosidade e respeito! :) 

Um beijo bom, 
Camilla.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Do tesouro da minha infância

Fuçar em papelada antiga é descobrir tesouro cujo valor é medido em lágrimas. 
Qual não foi minha surpresa ao encontrar um livrinho amarelado escrito por uma turma de crianças – sim, é uma obra coletiva – da primeira série do ensino fundamental, especificamente a Turma 12, do ano 1989, da Escola Medianeira.
Orientados pela profe Heloísa Morgão, que sugeriu palavras-tema (bola, cenoura ou jacaré), eu e cada coleguinha escrevemos um texto para ´publicação` no encerramento do ano letivo.
Eu tinha 5 anos de idade (entrei precocemente na escola!) e cabelos esvoaçantes. Eis o primeiro texto que escrevi (de que tenho notícia). Não chore (de rir).


 

O JACARÉ E ZICO
 
Aí, será que é um peixe-marinho ou um jacaré?
Tá chegando a mamãe e o pai, solta meu pé.
Eu tenho que ficar lá tomando café.
Eu tenho que sair daqui rapidinho senão meu pai ficará brabo.
Como é bonito este lugar, só que tem um jacaré que é brabo.
                                      Camilla  1a série  turma 12
 
 
 
Nota-se:
a) certa dificuldade de diferenciação entre espécies (só fui ter a disciplina ´ciências` nas séries seguintes);
b) ambientação num lugar aquático, indicando apreço por rios e mares;
c) utilização de rimas simples, identificando uma veia poética;
d) consciência de dever e responsabilidade precoces, por meio da reiterada expressão ´´eu tenho que``;
e) sinal de paladar apurado, uma apreciadora de café
f) obediência e temor reverencial em relação à figura paterna;
g) espírito de contemplação: ´´como é bonito este lugar``.

Enfim, acho que não mudei muito desde 1989.

E a pergunta que não quer calar e que morrerei sem saber a resposta: E Zico ??

Um beijo bom,
Camilla.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Da ´Vacatio discordiam´

Amanhã vai começar a semana romântica do ano, sensação especialmente forjada pelo comércio e aceita por apaixonados consumidores ou consumidores apaixonados. Precedentes indicam que é um período de paz e calmaria onde só o amor tem vez.
Batizei de Vacatio discordiam esse período que antecede o dia 12 de junho, espaço de uma semana, no máximo duas, em que nenhum do casal propõe/sugere/vivencia uma briga ou D-érre.
A Vacatio discordiam protege o núcleo emocional de ambos, que se mantém incólume a qualquer debate ou discórdia, inclusive sobre o restaurante. Notem que sempre um irá ceder e acatar a difícil decisão: Pizzaria rodízio ou Santo Garden à La carte (cuja escolha consciente definirá os contornos do restante da noite).

A situação mediana não sofre nenhum abalo com tal período cor-de-rosa, porque a virtude está no meio e o relacionamento feliz não diferencia calendário.
Já as duas extremadas situações ´´dá`` ou ´´desce`` padecem de uma tensão especial..
A) Situação pendente/perigante ´´DESCE``: 
sofre uma neutralização, já que qualquer indício de dúvida é jogado para além-julho, porque a felicidade da troca de presentes numa suíte cara tem efeitos duradouros e, se for perspicaz, o autor da proposta de tempo/término deixará tudo stand by até ganhar distância da data festiva, evitando mágoas. É uma lógica.
B) Situação pendente/perigante ´´DÁ``:
sofre "A" pressão! São felizes, mas algo precisa consolidar... Tipo ficantes quase-namorados ou namorados quase-noivos.. E quem não sonha ser pedido em casamento nessa data? Ups. Pequeno erro de gênero: .. quem não sonha ser pedidA
E aí está a vacatio discordiam no sentido da forca, digo, da força do matrimônio enquanto símbolo de estabilidade, construção de família e amor eterno.
De todo modo, a Vacatio discordiam existe, mas passa super-rápido.
Aproveite essa trégua feliz para usar o Visa como se não houvesse amanhã com flores, chocolate, lingerie..
Ou, melhor ainda, livros – esses, sim, eternizáveis.  

E lembre-se de que o último minuto do Dia dos namorados dá lugar ao primeiro minuto do dia de Santo Antônio.

P.s.: do latim, discordia ou discordiam significa fora do coração (dis=fora e cordia=coração).

Um beijo bom, <3
Camilla.
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