quarta-feira, 31 de julho de 2013

THE HOBBIT, J. R. R. TOLKIEN

Superei minhas expectativas com Tolkien e tentarei convencer todos a lerem The Hobbit e dar a conhecer aos filhos a magia da Terra Média, sob pena de sofrerem bullying na escola. Não lembro de uma história me conquistar a ponto de eu sonhar que estou dentro dela. Já aconteceu com você?  :X
Novamente este blog aborda uma obra que virou filme, situação cada vez mais comum por ser bastante rentável e prático para diretores de cinema, mas nem tão unânime entre os fãs da versão escrita. Pois bem. 

Bilbo Bolseiro, um hobbit morador do Condado, recebe um convite do mago Gandalf para auxiliar 13 anões a reaver bens que lhes pertencem e repousam sob o dragão Smaug na Montanha Solitária (inspiração em Beowulf). O clássico da literatura infanto-juvenil The Hobbit narra as aventuras por que Bilbo e os anões passam até chegar lá. Liderada por um ´grande` guerreiro - o anão Thorin Escudo de Carvalho - a comitiva enfrenta trolls (gigantes que à luz solar viram pedra), passa pelas montanhas sombrias e chega em Valfenda, a morada dos elfos. É durante a jornada que Bilbo conhece Gollum e encontra fortuitamente o anel (o Um Anel, da trilogia O Senhor dos Anéis. Para quem não sabe, Frodo é sobrinho de Bilbo Bolseiro!).
Se por um lado orcs, wargs (lobos maus) e aranhas gigantes são obstáculos, por outro Beorn (homem/urso do bem) e águias apresentam-se como fiéis escudeiros. Seria loucura se não fosse envolvente! [Esse negócio de conceder uma inteligência semelhante à humana a animais, objetos e eventos naturais (chuva, vento) chama-se animismo].
 
Escrita originalmente para seus filhos (dizem) e inspirada em mitologia e contos de fada, o obra nos apresenta inúmeros seres mágicos, inteligentes e falantes (em línguas exclusivas), como uma grande fábula! Tolkien pesca leitores de 8 a 80 anos de idade, de modo que qualquer preconceito com literatura fantástica ou contos de fada deve ser deixado pra trás! Possivelmente, no entanto, considera-se que o livro é um romance infantil apenas no sentido de que ele apela para a criança dentro de um leitor adulto. (Chance, Jane. Tolkien's Art. [S.l.]: Kentucky University Press, 2001.)

Os personagens são arraigados em princípios humanistas apesar (e além) da atmosfera fantasiosa e belicosa. Virtudes como honra, coragem e fidelidade estão em xeque a cada passo do grupo, que aos poucos vai rendendo respeito e consideração à figurinha de Bilbo, cuja altivez é provada em atitude e tomada de iniciativa nas situações mais escabrosas. O destaque da obra é justamente o crescimento pessoal do Bilbo, a partir do autoconhecimento, enfrentamento de perigos e responsabilidade frente à missão proposta. :) 
eu li essa edição Martins Fontes
Fui cativada pela linguagem simples e descritiva (não cansativa) e fiz uma rápida e fervorosa leitura! Eu diria que a narrativa possui uma ´´simplicidade complexa ou simples complexidade``, ou super coesão, como quiser, pois em poucas linhas acontecem muitas coisas importantes e grandiosas que, sem perceber, nos envolvem e impulsionam pra ler mais. Além disso, há uma voz narrativa que dialoga com o leitor e dá pitacos com humor e ironia.  
 
Tolkien é um grande contador de histórias e conquista gerações desde 1930, revelando uma sensibilidade imensa a partir do coração do hobbit, repleto de um heroísmo especial.

Um beijo bom,
Camilla.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Do sal da vida

Essa semana levei meus pais ao cinema. 
A comédia começou no elevador do Santa Maria Shopping enquanto eu explicava que o filme era brasileiro e que, apesar disso, não tinha cenas de violência, drogas, sexo e po%#&, car@%&! ..
- Pai, fica tranquilo, a faixa etária é adequada pra idosos! 
E rimos. Há 5 anos meu pai ingressava na ''categoria'' terceira idade, e deste então, numa espécie de negação, preferimos levar na brincadeira esse termo pejorativo
De qualquer forma, naquele dia foi desnecessário apresentar identidade pra garantir o direito, já que nas quartas-feiras todos pagam meia entrada. Ele se sentiu mais jovem por isso. :)
 
A partir da logística estabelecida, eu desci pra buscar café, a mãe comprava pipoca; e o pai entrava pra guardar lugar estratégico ao fundo e próximo do corredor central. 
Entrei lépida na sala de cinema com capuccino pra mim, café com leite pra ele e um sorriso de orelha a orelha pra quem quisesse ver minha alegria.
Daí constatamos que a poltrona da frente era ocupada por uma senhora com cabeção cabelos crespos proeminentes e bolávamos um plano pra otimizar a visão da tela inteira, quando ploft!! 
O pai conseguiu virar um pouco do café com leite nele mesmo (confirmando que meu gene desastrado tem razão de ser). Levantei pra buscar guardanapos, esbarrei nele e mais um pouco de café foi ao chão. E a mãe ainda na fila da pipoca! :|

Nos minutos iniciais passaram trocentos patrocinadores e apoiadores (bem coisa de filme nacional), que foi o tempinho útil pra gente se acomodar evitando o cabeção na frente. Eis que chegam mais três pessoas naquela fileira, alterando a ordem das cabeças, mas no fim ficou por isso mesmo. A senhora de cabelos proeminentes era a profe de natação da mãe. 
E começa o filme em meio às nossas risadas.
A pipoca estava salgada do tipo de arder a boca (dá-lhe tomar água) e minha mãezinha sacudiu o saco pra descer o sal, que acabou escapando pelas frestas da embalagem e caindo sobre a roupa. Genial. :D
O filme que assistimos é uma adaptação da comédia que já levou quase um milhão de espectadores aos teatros pelo Brasil, Minha Mãe é uma Peça – O Filme, acompanha as hilárias peripécias de Dona Hermínia, uma mulher de meia idade, aposentada, que após ser trocada pelo marido por uma mulher mais nova e não ter mais que cuidar dos filhos já crescidos, tem como preocupação maior procurar o que fazer. Sem um trabalho ou um companheiro, a nada simpática Dona Hermínia passa seu tempo desabafando com a tia idosa, fugindo da vizinha fofoqueira, ou “enchendo o saco” dos filhos ao tentar continuar a “cuidar” da vida deles (fonte: site oficial do Paulo Gustavo).

O filme Minha mãe é uma peça revisita valores basilares que fundam uma família: respeito, consideração, tolerância e amor. Ensina o quanto a adolescência pode cegar para o sentido das coisas, desde a figura materna, hábitos alimentares e boas maneiras. Demonstra que a ausência obriga à reflexão e que o perdão é o início do diálogo. 
O legal é que rola uma identificação muito forte, pois todo mundo é filho, e quase todo mundo é - ou será - pai ou mãe!
Fiquei particularmente emocionada (tipo choro manso que não cessa) a partir da cena da caixinha de cartas. 
Chorei de rir e de chorar mesmo. 
É muito humor, é claro, mas é muito amor. <3  

Foi especial demais ver esse filme com meus queridos Cid e Carmen. Mais uma vez, senti que a simplicidade do encontro é o sal da vida. É o sal que dá sabor. 
 
Posso dar um conselho? 
Tire um tempo, dê um jeito e leve seus pais ao cinema!
Um beijo bom,
Camilla.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Intervenção de terceiro #3, com Vinícius Cavalheiro

A seção Intervenção de terceiro desta semana traz o escritor bósnio Aleksandar Hemon, que no início de julho esteve na Festa Literária Internacional de Paraty. Vale conferir o vídeo no youtube da mesa que ele participou [joga no youtube: FLIP 2013 - mesa 13 - O espelho da história]. 
Confira a resenha que o Vinícius Cavalheiro fez pra gente:

"O projeto Lazarus é uma crônica notável sobre perda, desesperança e crueldade impulsionada por um eloquente incômodo existencial. É cheio de humor e de piadas. E é, ao mesmo tempo, inexplicavelmente triste." The New York Times

Bom, primeiramente, gostaria de agradecer a Camilla pelo convite. O trabalho dela neste blog certamente é uma inspiração, tanto para aqueles que têm a leitura como hábito em suas vidas, como para aqueles que (ainda) não têm. Ela não me deixou escrever sobre “Deuses Americanos”, só porque ela não queria ler spoilers, já que este repousa confortavelmente em alguma posição intermediária na lista de 982387327923 livros que ela comprou e vai ler ainda este ano.

Sinceramente, nunca tinha ouvido falar no Aleksandar Hemon antes de ela me emprestar “O Projeto Lazarus”. E, depois de lê-lo, não vejo a hora de botar minhas mãos nos outros livros do autor.


Sobre ele: Hemon é bósnio, mudou-se em 1992 para os Estados Unidos, e, três anos depois, passou a escrever em inglês. “O Projeto Lazarus” foi eleito a melhor obra de ficção de 2008 pela revista "The New Yorker" e foi finalista do “National Book Award”.

O livro conta a história de Vladimir Brik, escritor bósnio que vive em Chicago, e que fica obcecado em contar a história de Lazarus Averbuch, judeu imigrante do leste europeu de 19 anos, que também vivia em Chicago, e foi assassinado em 1908 pela polícia local, por ter uma pretensa ligação com anarquistas. Lazarus era um sobrevivente do pogrom de 1903 em Kishinev. Brik viaja ao leste europeu em busca de informações sobre o passado de Lazarus, acompanhado do amigo e fotógrafo Rora, que registra a viagem através de suas lentes. As histórias de Brik e de Lazarus são narradas de forma alternada. Em 1908, a história começa com o assassinato de Lazarus, e o leitor o conhece apenas através dos depoimentos dos demais personagens, em especial a irmã Olga. É interessante ver a forma como o crime foi abordado na época, em que há uma verdadeira “caça às bruxas” aos anarquistas por parte da imprensa. A gratuidade do crime cometido contra Lazarus é encoberta por uma campanha contra o anarquismo. 
Hemon insere na narrativa trechos de reportagens dos jornais, bem como do suposto pensamento dos homens da força policial, claramente de forma a ironizar a predisposição a condenar indivíduos estrangeiros (rola também um paralelo com a América pós 11/09). A título exemplificativo, em determinado ponto da narrativa faz-se menção a uma reportagem publicada em um jornal local, que trás uma foto do rosto de Lazarus sob uma manchete intitulada “O tipo anarquista”. Sobre o retrato, estão espalhados números, listando as características típicas de anarquistas como sendo “1. testa baixa; 2. boca larga; 3. queixo retraído; 4. malares proeminentes; 5. orelhas gra ndes e simiescas”. Provavelmente os juristas de plantão lembrarão Lombroso neste momento.
Acho interessante mencionar que a história de Lazarus Averbuch, pelo menos em relação aos fatos centrais, é real (sobre isso, o autor inicia a narrativa dizendo: “O dia e o lugar são as únicas coisas de que tenho certeza: 2 de março de 1908, Chicago”). A obra, inclusive, é ilustrada com algumas fotos dele, fornecidas pela “Chicago Historical Society”. Dá pra ler um pouco sobre a história de Lazarus aqui.
Em 2004, a história é narrada do ponto de vista de Vladimir Brik, pessoa atormentada por uma crise de identidade, em especial pela sua condição de imigrante e pela estagnação de sua carreira de escritor (uma das principais “queixas” de Brik é o fato de ser sustentado pela esposa neurocirurgiã). Brik obtém uma bolsa de uma fundação a fim de escrever o livro e resolve reconstituir os passos de Lazarus no leste europeu, aproveitando, também, para visitar lugares referentes à sua própria origem. Para acompanhá-lo e registrar a viagem, Brik convida Rora, fotógrafo e amigo de infância de Saravejo.
Durante a viagem, Brik divaga sobre sua vida americana e sobre suas origens, e especula sobre as esperanças e sonhos de Lazarus, dividindo algumas dessas inquietações com seu companheiro de viagem. Rora, por sua vez, narra fatos que testemunhou (ou inventou), em especial durante a guerra civil de 1992, em Saravejo. Pra mim, o contraste entre as histórias de Brik e Rora são o ponto alto do livro. Enquanto Brik é dado a filosofar sobre a vida, Rora, responsável por boa parte do humor da obra, é um contador de histórias que não está lá muito comprometido com a realidade, e que também não é muito chegado em discussões existenciais.
O protagonista é claramente um alter ego do autor, sendo possível delinear diversas semelhanças entre eles. Ambos bósnios, nascidos em Saravejo, vieram aos Estados Unidos em 1992 e foram impedidos de voltar por causa da guerra civil em seu país. Além disso, para escrever “O Projeto Lazarus”, Hemon também excursionou pelo leste europeu, na companhia de seu melhor amigo, que também é fotógrafo (algumas das fotos tiradas nesta viagem ilustram a obra).
Bom, em resumo, é um livro fantástico. Hemon consegue contar histórias sobre pogroms, guerra civil na Bósnia, anarquismo nos EUA do início do século XX, imigrantes; mistura crenças e culturas das mais diversas, em duas épocas diferentes, e aborda os mais variados dramas existenciais, tudo com uma boa dose de ironia. Mais importante: faz tudo isso sem perder o “fio da meada” em nenhum momento, demonstrando, muitas vezes, as semelhanças dos sofrimentos vividos por pessoas com culturas/crenças/épocas completamente diferentes umas das outras, em especial, por aqueles que estão longe da sua terra natal. Afinal, “lar é o local que só descobrimos a distância.”

Obrigada, Vinícius, pela clara e objetiva resenha do Projeto Lazarus!! ;)
Certamente as 304 páginas (Editora Rocco) são um deleite para quem curte ironia refinada, descrição de ambientes em períodos bélicos e conflitos pessoais que independem de raça ou cultura. 
Bora descobrir o motivo pelo que O Projeto Lazarus foi eleita a melhor obra de ficção de 2008 pela New Yorker, além de Hemon ter sido  finalista do prêmio National Book Award.


Um beijo bom, Camilla.

sábado, 13 de julho de 2013

THE GREAT GATSBY, F. S. Fitzgerald

Gatsby acreditara na luzinha verde, naquele futuro orgástico que ano após ano se afasta de nós. O futuro já nos iludiu tantas vezes, mas não importa... Amanhã correremos mais depressa e esticaremos nossos braços um pouco mais além... até que, em uma bela manhã...
E assim nós prosseguiremos, barcos contra a corrente, empurrados incessantemente de volta ao passado.

Este é um conclusivo trecho do livro The Great Gatsby, obra do F. S. Fitzgerald, novela ambientada na costa leste americana em plena Era do Jazz. O mistério que permeia a narrativa é a identidade do homem que promove suntuosas festas na sua mansão numa praia de Long Island, em que os convidados são a hi-society do entorno de Nova Iorque nos anos 20. Loucos, embriagados, hedonistas, fúteis, e que desconheciam o passado e o presente do anfitrião.
Toda a futilidade e superficialidade sugerida ao longo da obra é retrato da euforia americana após a Primeira Guerra e são a coxia dos acontecimentos que entrelaçam as vidas de Tom, Daisy, Jordan, Gatsby e Nick.


Primeira impressão do Gatsby, aos olhos de Nick
(muuuito legal!)
O narrador Nick Carraway é vizinho e se torna amigo de Jay Gatsby. Nick é um personagem que está dentro, mas está fora; está fora, mas está dentro. Idolatra os ricos, mas rejeita o materialismo e a imoralidade da galera. Seus trinta anos de glória são completados em meio a fervorosa trama shakeaspeariana, cuja narrativa é de cair o queixo. Sabe quando o exagerado detalhamento, ainda assim, deixa espaços para a imaginação da gente completar? É esse o trunfo do Fitzgerald, que brinca de contar ou esconder informações, nem sempre imprescindíveis, mas que deixam o texto charmoso e instigante. 
É uma leitura extremamente agradável, gostosa, e o clímax vai surgindo sem a gente se dar conta. 
Pra mim o final foi surpreendentemente positivo. Nota dez, sem dúvida! Fica a dica para ser debatida em grupo, porque as entrelinhas persistem forever.
Quem é Gatsby? é o questionamento de somenos importância quando findamos as 242 páginas da edição L&PM pocket, pois tudo que se cogita acerca da origem de sua riqueza é justificado por seu histórico de rapaz ambicioso e apaixonado. Sofrendo pra não fazer spoiler, só posso dizer que se trata de uma história da esperança de que é feito o amor

Sobre a quinta adaptação para o cinema (direção de Baz Luhrmann):
Na vibe do Moulin Rouge (mesmo diretor), o filme The Great Gatsby estrelado por Leonardo Di Caprio e Carey Mulligan tem muita cor e efeitos especiais. Deu tontura assistir às cenas de carros em movimento e coreografias entusiásticas nas festas, sendo que não vi em 3D! Esta versão 2013 é fidedigna ao propósito da obra, tem cenas e falas ipsis literis e personagens bem definidos. Acho que só não curti muito a trilha sonora, porque, a meu ouvir, modernizou além da conta: Indie Rock + Jazz + Hip-Hop. (TODAVIA, não sou parâmetro musicalmente falando! Quem quiser conferir: Fergie, Q-Tip, & GoonRock – A Little Party Never Killed Nobody; Jay-Z – $100 Bill; Beyoncé & Andre 3000 – Back To Black; Will.I.Am. – Bang Bang; Lana Del Rey – Young And Beautiful; Bryan Ferry With The Bryan Ferry Orchestra – Love Is The Drug; Florence + The Machine – Over The Love; Coco O. – Where The Wind Blows; Emeli Sandé & The Bryan Ferry Orchestra – Crazy in Love; The XX – Together; Gotye – Hearts A Mess; Jack White – Love Is Blindness; Nero – Into The Past; Sia – Kill and Run) 
Ademais, foi sensacional assistir ao filme com o livro fresquinho na cuca, cotejando a minha imaginação com a imaginação do diretor estampada na telona, com interpretação impecável de cada um dos atores!  :)
Recomendo (muito) o livro + filme!! 

Um beijo bom,
Camilla.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Das pequenas alegrias

Hoje falarei amenidades porque percebi que a última resenha foi de outra pessoa, e também porque do dia 21 de junho para cá alguns leitureiros reclamaram atualização. X)  Shame on me! :P  Sabe como é, né? O mês de junho foi atípico: manifestações e protestos dos quais não participei; dia dos namorados do qual não gozei, digo, não celebrei.. Então aqui estou caetaneando um pouco pra descontrair enquanto mastigo a próxima resenha (publicarei daqui algumas horas...).
Aos que tiram férias no inverno gaúcho: ler, comer e coçar é só começar! 

Encontrei esses dias um moleskine laranja antiguinho e surrado com anotações de 2010. Sempre tive/tenho comigo cadernetinhas de anotação, e cultivo diários criptografados (sim, eu tenho um alfabeto próprio para escrever diários e evitar que agentes secretos invadam minha casa e roubem meus planos de dominar o mundo). 
Anoto coisas porque não confio na minha memória, além de ser um interessante exercício de resgate do passado (que te condena) e de vergonha alheia, digo, vergonha própria, especialmente quando as datas indicam que você já contava 25 anos à época dos escritos. 
Recheado de lista de filmes e livros, citações de amigos pouco sóbrios, dicas de blogs e restaurantes, essa caderneta é um importante laço comigo mesma. Confirma teses de autoconhecimento e direciona certos caminhos que depois, efetivamente, trilhei. 
Do mesmo modo que o hábito não faz o monge e a barba não faz o filósofo, acho justo dar crédito para ideias juvenis que brotam em mesas de bar para explicar a vida e seus desafios. Os autores mais phoda escreveram suas obras em tenra idade.
Analisando meus escritos da infância, adolescência e atuais, identifico certa estabilidade  nas escolhas e preferências, e estas constituem a adulta que me tornei, em tese. (Com 5 anos de idade eu já demonstrava certa inclinação por poesia e café, por exemplo).
'Vou dizer uma coisa importante para você. Os adultos também não se parecem com adultos por dentro. Por fora, são grandes e desatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles se parecem com o que sempre foram. Com o que eram quando tinham a sua idade. A verdade é que não existem adultos. Nenhum, no mundo inteirinho.'  (Neil Gaiman)
No livretinho laranja, tenho apontado ''Coisas que amo''. A par do nome de ex-namorado, todos os demais itens da lista persistem como preferências que salvaguardam minha intimidade e personalidade. Coisa mais querida 'se encontrar', né?! <3
Vou citar apenas algumas, en passant, para dizer sobre as pequenas alegrias que motivam esta que subscreve, de modo a também motivar quem está lendo... 

- Schoenstatt;  - flores do campo;  - música francesa;  - dançar axé;  - pintar unhas;  - montanha-russa (again and again);  - cavalgar e sentir o vento no rosto;  - observar gorilas em família ...

O que te move? O que te comove? “Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas". (Voltaire) :)  Eu atualizo essas perguntas constantemente, pois o autoconhecimento é a primeira etapa da autoeducação. E não teria porquê tanto estudo e trabalho se fosse pra ficar na mesma, certo? Autoeducação é um processo para confirmar ou mudar detalhes pessoais, emocionais e tem por finalidade melhorar nossa vida para formar-nos pessoas fortes, livres e responsáveis. Ocorre que a vida não para pra gente acertar 'as coisas', e o desafio é viver a transformAÇÃO, simultaneamente! #tudoaomesmotempoagora

Falei aqui sobre a arte de fazer listas como tentativa de pseudo controle do tempo. É uma tentativa, né? Já que o danadinho do tempo voa, tipo as folhas de calendário jogadas pelas janelas uruguaias na virada de ano, sinto que escrever desacelera um pouco essa loucura. Concordam?

"A vida é, no mínimo, bem educativa" é um dos bordões de minha autoria, por isso sigo anotando tudo... até mesmo pra verificar se sou feita de coerências ou paradoxos ou granola ou sorvete. E já que estamos constantemente sendo educados, também quero aprender alcançar um ideal de felicidade razoável e factível. Mas daí vem o Ernest Hemingway e diz que “Felicidade em pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço.” É, amigo..
A listinha de 'Coisas que amo' é mutável, but is ok!! 
Mudar de opinião nada mais é do que não ter compromisso com o erro.


Um beijo bom,

Camilla.

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