quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O ENTERRO PREMATURO E OUTROS CONTOS DO MESTRE DO TERROR, Edgar Allan Poe

Tradicional e culturalmente, os países de origem inglesa celebram em 31 de outubro o ´´dia dos mortos``, que precede o dia de Todos os Santos. Tá certo que aqui no Brasil esse negócio de Halloween não é difundido pela real origem histórica, e, sim, pelo inevitável copy/paste americanizado (minha opinião), mas aproveitando o ensejo vou ´´celebrar`` o dia das Bruxas com a resenha de um livro do gênero terror que eu li esse dias. 
 
Antes de qualquer coisa cabe uma confissão: Eu, Camilla, não assisto a filmes de terror porque não vejo razão em provocar medo ou pânico em mim mesma pra depois tomar sustos gratuitos quando o vento-norte santamariense bate uma porta ou sussura numa frestinha da janela. Em geral, lido bem com minha imaginação, mas ver Atividade paranormal ou O exorcista sob o argumento de sentir frio na barriga e arrepios não me comove. Pra isso prefiro montanha-russa ou massagem nos pés, por exemplo. Porém, o peixe morre pela boca de muito ler comentários sobre a obra do Edgar Allan Poe, numa bela tarde comprei O enterro prematuro e outros contos do mestre do terror. Eis, pois, meu primeiro contato com literatura de terror de verdade e totalmente influenciado pela Tatiana Feltrin, do blog Tinny Little Things, que morre de amores por Edgar Allan Poe (nascido em 1809 em Boston) e tem autoridade pra tratar do assunto. Aqui no blog já fiz resenhas de livros que dão medinho ou ´tidos por terror`, como o FrankensteinCoraline e até mesmo O oceano no fim do caminho, mas Poe é incomparável! Ups! E não posso esquecer de O iluminado (esse, sim, dá medão) que a Débora resenhou pra gente, mas eu ainda não li.
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Vamos lá!
Dizem que Allan Poe sofria de catalepsia - doença em que os sinais vitais desaparecem e a pessoa aparenta estar morta -, e nutrido pelo medo de ser enterrado vivo ele criou personagens em situações claustrofóbicas, com pouco ar, falta de força pra empurrar a terra ou cimento ou madeira que lhe cobre, etc... Também concebeu personagens absolutamente lúcidas em sua loucura, com ojeriza injustificada e instinto assassino antes desconhecidos.  
 
A maioria dos contos é escrita em primeira pessoa: recurso perfeito para o leitor entrar nos pensamentos e emoções de mentes perturbadas, sentir o pânico de um prisioneiro da inquisição, lutar contra a morte quando ela é iminente, acompanhar detalhes da execução e, até, da ocultação de cadáveres... E por aí segue mesclando respiração tensa e silêncio eloquente pra desaguar em surpreendentes desfechos! 
Nesse livro estão reunidos cinco contos: O coração delator; O gato preto; Berenice; O enterro prematuro; O poço e o pêndulo.
Só lendo pra sentir a força da prosa poética desse escritor que, a par do conteúdo sinistro, é envolvente e capaz de nos travar a respiração enquanto conta episódios de culpa, dor e desespero. 

´´Ler Edgar Allan Poe exige coragem. Exige, também, uma forte atração por universos densos, repletos de seres cujas existências situam-se na zona fronteiriça entre vida e morte. Não é à toa que o autor norte americano acabou inscrevendo seu nome como o maior escritor de terror. Um terror, todavia, muito  mais psicológico. Um terror que investiga o interior do ser humano e sua capacidade de praticar atos que poderiam ser considerados tortos, terríveis, grotescos, mas que para aqueles que os executam tornam-se necessários, vitais. Um terror que, ao mesmo tempo em que inquieta e assusta, seduz e convida à leitura. Há que se estar preparado.`` (prólogo).
 
Ler Poe é inquietante, mas muito legal! Sério!! heheh
Experimente começar pelos clássicos O poço e o pêndulo (sobre inquisição na Idade Média) e O gato preto e depois comente aqui ou na fanpage do facebook!
 
Trick-or-treat?
Camilla.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O CHAMADO DA NATUREZA, Jack London

O Chamado da natureza ou O chamado da floresta foi indicado no site papodehomem como uma leitura para macho, mas qualquer gênero que conviva com bicho de estimação, especialmente cachorro, vai gostar muito!! A estória é intensa e contada sem frescura.. e deve ser por causa dessa linguagem objetiva que o classificaram ´pra homem`! (obs: mulheres também sabem ser objetivas, viu!?)  :p
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Em 1867 os americanos compraram do Império Russo o território Alasca, mas somente um pouco antes de 1900 aconteceu de descobrirem ouro por lá, o que atraiu uma galera de garimpeiros americanos em busca de riqueza. Um desses era o Jack London, cuja vivência e cenário inspiraram O chamado da floresta, Caninos brancos, O lobo do mar, entre outros. 

O protagonista de O chamado da floresta é o cachorro Buck, uma mistura de São Bernardo com pastor  que tem a sorte dos atuais cachorros de apartamento. A felicidade do Buck é a vidinha doméstica onde pode comer, brincar e dormir até que é roubado do dono e levado com mais uns quantos cães para puxar trenó rumo ao Alasca. Durante a jornada ele sofre no pelo (na carne, nas patas..) as intempéries e os maus tratos dos homens  que conduzem a matilha. ´´(...) um homem com um porrete era um legislador, um mestre a ser obedecido, embora não necessariamente respeitado``. E o sofrimento moral fica por conta da crueldade dos lobos e cães que, manjados na atividade, exercem domínio sobre os novatos. A hostilidade do ambiente testa sua adaptabilidade, mas o instinto de sobrevivência é mais forte que o gelo, o vento e a dor. 
 
´E não somente ele aprendeu através da experiência, como instintos mortos há séculos retornaram à vida. As gerações de animais domesticados foram sendo descartadas. De uma forma vaga, ele recordava as experiências ocorridas aos primeiros de sua raça, retornava ao tempo em que os cães selvagens corriam em alcateias através das florestas primitivas e matavam seu próprio alimento depois de persegui-lo até a exaustão. Não foi absolutamente difícil para ele aprender a lutar com a tática dos lobos, de cortar, de retalhar, morder rapidamente e então saltar par afora do alcance do adversário. Era a maneira como combatiam seus antepassados esquecidos. Eles fizeram ressurgir a vida antiga dentro dele, e as velhas artimanhas que haviam gravado na hereditariedade de sua linhagem tornaram-se as suas próprias artimanhas. Retornaram a ele sem esforço nem sensação de descoberta, como se as tivesse praticado durante toda a vida. (...)´  (capítulo 2)
 
Esse livro é fantástico porque não é clichê como algumas estórias protagonizadas por animais. Tem um estilo mais bruto realista e narrado do ponto de vista do cachorro. Cada capítulo avança para um encontro íntimo do Buck domesticado e afetuoso com o Buck compelido à origem selvagem e instintiva, sem retirar dele o entusiasmo no trato com seu amo. ´Ele conservava a fidelidade e a devoção, coisas nascidas do fogo e do teto. Porém mantinha sua selvageria e sua astúcia instintiva`. (...) (capítulo 5)
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Baseado na história real do americano Christopher McCandless, Sean Penn dirigiu o filme Into the wild (Na natureza selvagem) onde um jovem americano ´rasga` seu recém conquistado diploma e parte sozinho numa aventura rumo ao Alasca. O chamado da natureza é um dos livros que fazem companhia pra ele nessa empreitada. 

Uma excelente companhia de papel, eu diria. Vale a pena!

Um beijo bom, Camilla.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O PEQUENO PRÍNCIPE, Antoine de Saint-Exupéry

O clube de leitura companhia de papel reuniu-se no domingo, 13 de outubro, pra debater a leitura do mês: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Tão conhecido e publicado quanto a Bíblia e o Corão, a singela estória de um piloto - que por uma falha mecânica no avião vai parar no deserto do Saara - eterniza princípios universais sobre a vida em sociedade. A escrita simpática e ilustrações delicadas camuflam numa fábula as nossas fraquezas de adulto que tentamos camuflar.
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O pequeno príncipe é sábio como o mestre Yoda, com a diferença de que o Grande mestre da ordem Jedi dá conselho na lata e o principezinho deixa nas entrelinhas. Mas, ainda assim, atinge nosso brio ao descrever cada tipo de pessoa nos planetas que vai desbravando: do homem que pensa em números ao rei que só enxerga súditos; do vaidoso sedento por admiradores ao geógrafo que anota tudo sem saber o porquê. 
Sábio é o leitor que se identifica com a raposa, porém mais sábio ainda aquele que se vê, ora ou outra, na rosa orgulhosa, no guarda-chaves ou no vendedor de pílulas pra matar a sede. :)
A sabedoria da mensagem de O Pequeno Príncipe está justamente em, percebendo as falhas de caráter de cada personagem, retirar um conteúdo moral e praticável na busca do sentido da sua vida.
Se é dureza acordar, sorrir para motoristas que te fecham, discutir jurisprudência do TJ do Acre, a subida do dólar, o formol nas progressivas, o potencial emagrecedor do chocolate e outras polêmicas que a Veja/Globo/Nasa se encarrega de incutir na nossa inteligência medianta, imagina pra quem fala imbigo? Imagina pra quem não busca sentido pra sua existência? Pois é.
Se você acha perda de tempo refletir sobre o sentido da vida e ´´para quê vim ao  mundo?`` considere-se um zumbi.
De volta ao conteúdo do livro... notamos que aquelas clássicas (e decoradas) frases ´´Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas`` e ´´O essencial é invisível aos olhos`` são escritas com frequência e repetição em dedicatória (até) de livro de culinária e declamadas com louvor pelas misses magras e cultas. Todo caso, mergulhemos mais fundo neste texto pra alcançar a filosofia que o Exupéry propõe: 

´´Quando a gente anda sempre pra frente não pode mesmo ir longe``.

´´Mas ninguém lhe dera crédito por causa das roupas que usava. As pessoas grandes são assim.``

´´- E de que te serve possuir as estrelas?
- Serve-me para ser rico.
- E para que te serve ser rico?
- Para comprar outras estrelas, se alguém achar.``

´´É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar``.
E por aí vai.. cada capítulo um soco!
Mas agora, dando meu pitaco, acho que o principezinho nada mais é que uma miragem do piloto (com sol do Saara na cabeça), e representa a consciência dele próprio quando criança! E daí todo o resgate da alma infantil cujos valores (muitas vezes) são gradativamente esquecidos quando se tornar adulto supõe vestir gravata e responsabilidades e pagar imposto. ´´É assim pra todo mundo``, ´´faz parte``, dirão, sem romantismo, os auditores da Receita. Enfim.
Será que suas coisas sérias são mais sérias que a profissão do hippie que fabrica pulseiras e faz piruetas no semáforo? Será mais importante regar a flor ou colocá-la sob uma redoma? Será que cegados pela rotina descuidamos de olhar o essencial? ...
OBS: no parágrafo abaixo vou encerrar meu post em respeito às pessoas grandes e ocupadas que abriram o blog rapidamente no meio do expediente e não têm tempo pra ler muitos caracteres que podem ou não trazer luz à sua assoberbada semana. 
Então, caro leitor, é impressionante como as lições desse livrinho (infantil?) ganham novos significados aos 12, aos 20 ou aos 58 anos de idade. Se não leu, ainda dá tempo! X)
Depois volte aqui pra comentar. Não a clássica pergunta se terá ou não o carneiro comido a flor?, e, sim, por que o principezinho abandonou o seu planeta B612, afinal?
Um beijo bom,
Camilla.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Intervenção de terceiro #5, com Diego Hahn

Nineteen Eighty-Four é um romance distópico clássico do autor inglês Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, um dos escritores mais influentes da sociedade moderna! Também foi ele que escreveu A revolução dos bichos, cuja resenha postei aqui.
O santamariense Diego Hahn, do blog De letra, mandou sua resenha do 1984! Vamos dar uma espiadinha (#tipoBial) ??

 
O detalhe mais popular da obra-prima de George Orwell (ao menos no nosso Brasilzão) é o termo ´´Big Brother``, devido ao reality show que leva o nome do poder supremo da velha Oceania do livro. É, meu amigo, não foi o Bial que inventou o Big Brother e nem a Globo que inventou o totalitarismo. 


Sempre se associou a sociedade controlada descrita na obra ao regime soviético stalinista, o que sempre pareceu bem óbvio já que Orwell era um socialista decepcionado com o regime totalitarista que imperava por aquelas bandas em tempos de Guerra Fria. A ´´sociedade controlada`` no livro é a Oceania, um dos três países remanescentes de uma grande guerra mundial, juntamente com a Eurasia e a Lestasia, contra as quais se mantém em guerra. Impera um regime totalitário onde o governo controla a tudo e a todos, monitorando a vida das pessoas através da "teletela" - uma televisão de duas vias onde o espectador assiste e é assistido.


Se já faz um tempo que caiu o Muro de Berlim e com ele, quase por completo, o comunismo, por que "1984" continua tão atual e há sempre referências a ele quando se tratam de fatos do nosso cotidiano? Não será tão somente para criticar os resquícios do comunismo nos regimes de Cuba e da Coréia do Norte?Será?

Apesar de focar sua crítica no regime soviético do final dos anos 40, Orwell acabou tornando-se uma espécie de “profeta”. Particularmente para mim fica difícil não visualizar a face do Grande Irmão em algumas bandeiras que tremulam imponentes sobre nosso mundo globalizado - especialmente depois do vazamento de informações confidenciais da inteligência estadunidense que dão conta de que o país conta com um intrincado sistema de monitoramento de ligações telefônicas e comunicação em redes sociais, e-mails, e outras ferramentas, na internet, planeta afora...

Isso sem falar, é claro, nos satélites e seus Google Street Views e Google Earths e tal, a não nos deixar sumir do mapa... Assim, estamos lá, queiramos ou não. E, a propósito de querer ou não, o mais incrível de tudo talvez seja exatamente isso: parece que a todo custo queremos estar lá! - sem nos importarmos nem um pouco ou sequer pensarmos a respeito de eventuais consequências e efeitos colaterais da exposição contínua...

Flagrei-me imaginando a face imponente do Grande Irmão pairando na nossa velha e boa rede mundial de computadores, especialmente na tela de entrada de algumas redes sociais – como no Facebook, que dado sua abrangência virou uma espécie de império virtual mundial. O curioso, neste caso, é que esse suposto novo Grande Irmão seria tão sutil e perspicaz que não nos obrigaria a nada: ele conta com a nossa bondade e a nossa espontânea colaboração e nós, por contra própria, expomos tudo – nossos dados pessoais e de nossos familiares e amigos, nossos rostos, nossos corpos, nossa localização exata neste exato instante; enfim, nossa vida inteira ali, para ele.
E como o Facebook, por exemplo, foi uma das empresas que cedeu seus dados – ou melhor, o de seus “clientes”, ou sua “população” – ao governo norte-americano, seria, de certa forma, um “círculo que se fecha”... Parece que o Grande Irmão se transformou, se adaptou, se refinou, fez-nos acreditar que é tudo legal e não há perigo algum: tudo existe para o nosso bem. Não precisamos mais levar porrada como levou Winston, o protagonista de 1984, na ficção de Orwell. E, como é
tudo inofensivo e para o nosso bem, o Ministério do Amor continua ali de prontidão (piada interna).

Os motes do Partido que controlava Oceania eram: “Ignorance is strenght, freedom is slavery, war is peace” (ignorância é força, liberdade é escravidão, guerra é paz). Mais alguma semelhança com a realidade talvez seja mera coincidência, uma fantástica profecia do escritor... ou pura obviedade!
Diego Hahn.

Agradeço ao Diego a gentileza em dividir conosco sua percepção do Grande Irmão ´´profetizado`` no livro de Orwell. Se se trata de espionagem, inteligência comercial ou quebra diplomática, bem ou mal, estamos inseridos nessa sociedade de informação e sujeitos a olhos que (nos) enxergam mais longe!

Um beijo bom,
Camilla.  

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

DO QUE EU FALO QUANDO FALO DE CORRIDA, Haruki Murakami

O simplório ritual de calçar o par de tênis e encaixar o fone do Ipod no ouvido precede essa atividade tão completa (mental e fisicamente) que é a corrida.
O calcanhar deve tocar primeiro o chão, seguido de toda a extensão do pé que, carimbando o chão, impulsiona ao próximo e repetido movimento... A passada vai compassada no ritmo da música e no tênis que bem entender. A depender da direção do vento e do espírito, minha trilha é Gipsy Kings, samba, Madonna ou deep house. Calço adidas ou mizuno, sem muita frescura, e lembrando que, apesar de haver tênis para qualquer bol$o, não vai ser o gel que interferirá na performance de uma iniciante como eu. E assim começa a liberação da endorfina.
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Pra quem gosta e costuma correr, mais do que wave creation ou gel kayano, esse livro é um MARAVILHOSO propulsor! Aos que (ainda) não enfrentaram a rua, será uma interessante cutucada motivacional! São APENAS 152 páginas em papel pólen soft, com as características margens largas da Editora Alfaguara (isso significa que o livro é curto!)  

O Haruki Murakami é um escritor e tradutor japonês cujos livros alcançam recordes de vendas no mundo! Já tinha notado a popularidade dos romances 1Q84, Norwegian Wood, Kafka à beira-mar, Minha querida Sputnik, mas esse aí da capa psicodélica preto e branca com vermelho foi o primeiro que li! E que leitura top! [Amigos, acho que esse post vai ser grande, não vou resistir a colocar alguns trechos (em itálico), ok?]
 
Do que eu falo quando falo de corrida não é um livro de autoajuda ou manual de como ser saudável correndo, portanto não espere conselhos de alimentação+água+sono. Aqui o ´´esporte`` corrida é erigido a um estilo de vida, ou melhor, a uma filosofia de vida, como um método simples, gratuito e eficaz de alcançar a felicidade pisando quilômetros. :D
Murakami fala sobre correr com disciplina (como absolutamente tudo que os japas fazem), não porque um treinador está gritando do lado, e, sim, por determinação da sua própria mente; não porque precisa emagrecer, mas porque se sente VIVA e PLENA suando enlouquecida na Avenida Medianeira. Se tá difícil encaixar um tempo...
.. você precisa realmente estabelecer prioridades na vida, imaginando em que ordem deve dividir seu tempo e sua energia. Se não consegue estabelecer esse tipo de sistema em uma certa idade, vai perder o foco e sua vida fica em desequilíbrio. p.37
Numa escrita simples e direta, ele relata sua experiência de corredor (e escritor), descrevendo os passos, dor, prazer, raiva, consciência respiratória, etc, das maratonas que decidiu correr anualmente, a partir dos 33 anos de idade:
Certo dia, do nada, quis escrever um romance. E um dia, do nada, comecei a correr – simplesmente porque eu quis. Sempre fiz o que tive vontade de fazer na vida (p. 127).
Corredores iniciantes ou avançados têm que ler esse livro, cuja resenha eu dedico pra Ingrit Gava, Dudu Jobim, Margot Tome, Rodrigo Minuzzi, Júlia Rebelato, Rômulo Oliveira e Ivanise Pereira !
Se você quer desfrutar os anos, é muito melhor vivê-los com objetivos claros e plenamente vivo do que numa bruma, e acredito que correr ajude a fazer isso. Forçar a si mesmo ao máximo dentro de seus limites individuais: essa é a essência de correr, e uma metáfora aplicável à vida – e, para mim, ao ato de escrever, também. Acredito que muitos corredores concordariam. p.73

orla de Floripa, abril/2013
Falando na atividade de escritor/corredor, Murakami determina que você precisa transmitir continuamente o objeto de sua concentração para seu corpo todo, e se certificar de que ele assimilou por inteiro a informação necessária para que você escreva todo dia e se concentre na tarefa diante de si. E gradualmente você expandirá os limites do que é capaz de fazer.(p.70). E mais... acho que fazer algo por si mesmo (e nao para espectadores) é o trunfo dos que vencem, seja um campeonato de xadrez, vaga de emprego ou rústica sem premiação. Desde início de 2013 estou sendo conquistada e surpreendida por essa atividade, que inclusive proporciona novas amizades. :)
 
Para mim, correr é tanto um exercício como uma metáfora. Correndo dia após dia, colecionando corridas, pouco a pouco elevo meu patamar, e cumprindo cada nível aprimoro a mim mesmo. Pelo menos é nisso que deposito meu empenho dia após dia: elevar meu próprio nível. p.16
Ao narrar step-by-step uma ultramaratona, quando cruzou a linha de chegada, descreve:  Um sentimento pessoal de felicidade e alívio por ter aceitado fazer uma coisa arriscada e mesmo assim ter encontrado forças para superá-la. Nesse caso, o alívio sobrepujou a felicidade. Era como se um nó cego dentro de mim estivesse gradualmente se afrouxando, um nó de que eu nem sequer me dera conta, até então, de estar ali. p.101.
 
Falo por mim, com meu razoável pace médio de 5,40min/k, que correr é uma atividade que precisa apenas dois itens: tênis e vontade. E dispensa apenas 1 item: desculpinhas.
 
 
Tenho apenas alguns motivos para continuar a correr, e um caminhão deles para desistir. Tudo que tenho a fazer é manter esses poucos motivos muito bem-cuidados. p. 66


Um beijo bom,
Camilla.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Da simplicidade revelada num único pó

O implemento de idade, ou, se preferir, o amadurecimento, revela a simplicidade.
Recordo que eu surtava frente às inúmeras novidades em maquiagem e pesquisava na internet como/quando/onde teria lançamento a preço amigo. Sites especializados ou não (americanas, ebay, amazon..) oferecem a quinquilharia toda pra pele ficar mais lisa, as bochechas proeminentes e os cílios alongados tipo quase fazendo cócegas na pessoa da frente. É um sem-fim de possibilidades. Recordo que amaaaava a revolucionária máscara Oscilation, da Lancôme (se a Ana Paula Bordin ler esse post poderá confirmar), mas substancialmente nunca fez muito mais do que a popular Avon. :p
 
Daí que nos últimos tempos observo meu arsenal de ´barbie adulta` subutilizado e indo pra doação ou lixo e, veja bem, não é porque fiquei mais bonita naturalmente, mas porque me dei conta de que certas coisas (e a quantidade delas) vão perdendo a importância junto com a data de validade.
Não usei todos os tons de sombra que adquiri em viagens, sequer ressaltei meu olhar com os iluminadores Clinique e Revlon dispostos ao lado de 9 ousadas cores de batons Mac!!
Na real, nunca soube lidar com pincel para esfumar a pálpebra e tornar o olhar mais profundo, penetrante, sexy ou preto com borrão mesmo.
 
É meio óbvio, mas o poder revelador da maquiagem é inútil se não tiver o que ser revelado. E o mais competente maquiador não fará milagre se o brilho não surgir de dentro. O Raphael Lindeker há de concordar que dentes alinhados não serão destacados com batom nos lábios, nem rímel nos cílios terá o poder de evidenciar olhos azuis, senão um sorriso espontâneo e um olhar sincero.
Talvez o sutil processo de validação pessoal e social por que passamos – em fases, intensidade e tempos diversos – se esgote numa manhã de terça-feira ao contemplar seu rosto amanhecido e decidir dispensar o corretivo. Pela simplicidade do natural. Pela saudável linha de expressão cujo aparecimento só indica vida. Pela dignidade das olheiras de amamentação ou estudo noturno.
Veja só, eu não estou falando em renúncia da vaidade – que compõe a autoestima -, mas me refiro a contemplação do belo sem adereços.
É sentir que com o tempo o afã de possuir muitos e variados itens é substituído pela vontade de manter os poucos e bons que já se tem: se por um lado essa conclusão/desapego libera espaço e cartão de crédito, por outro deixa a vida e a pele mais leves. É virtude do tempo essa renovada percepção do que é indispensável ou dispensável.
De itens de maquiagem a hábitos e pessoas.
 
Estou contente por perceber que sobrevivo com uma base, um pó, um blush, um rímel. E dispenso iluminador!
obs: É que eu fiz faxina no meu armário de maquiagens ontem, por isso o metafórico devaneio.
 
Um beijo bom,
Camilla.
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