quinta-feira, 28 de novembro de 2013

BARBA ENSOPADA DE SANGUE, Daniel Galera

O clube de leitura companhia de papel reuniu-se no dia 10 de novembro para uma loooonga conversa sobre o livro do mês: Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, publicado em 2012 pela Companhia das Letras. Quando surgiu a proposta houve quem entendesse "´barbie` ensopada de sangue", acarretando certa preocupação caso crianças se deparassem com o livro pela casa (né Luciano? e Tatiana?).  :P

Se no início o título causou olhares tortos, posso afirmar que depois provocou olhos brilhantes e afoitos! A euforia do debate bem representou a intensidade do enredo e o efeito ímã da narrativa, afinal encaramos um escritor com habilidade ímpar pra conduzir seu leitor por capítulos arenosos e salgados, construindo personagens psicologicamente afetados, mas com carisma malemolente. Durante as 420 e poucas páginas pudemos sentir a maresia de Garopaba, o sabor do chimarrão, a dor da perda e a resignação que a sabedoria ou o tempo é capaz de construir.

O protagonista (não nomeado) tem uma conversa com seu pai e fica sabendo que o avô, Gaudério, teria sido assassinado na cidade de Garopaba, fato encoberto por uma névoa de incertezas e informações desencontradas. Para além dessa notícia surpreendente, o pai abre pro fillho um plano suicida e, dispensando piedade, apenas deseja que sua fiel companheira, a cadela Beta, seja sacrificada.
Após o suicídio, o professor de Educação Física, de alcunha nadador, desconsidera aquele último pedido e com a cadela Beta deixa Porto Alegre rumo a Garopaba/SC na intenção de ali investigar a morte do avô. A história se desenrola nessa cidade do litoral catarinense, à época, castigado pelas enchentes de 2008.

Os maiores trunfos de Galera são a construção das personagens e o foco na própria narrativa e não propriamente num objetivo a ser alcançado. Durante a leitura, sem querer, a gente espera que "algo aconteça" quando na verdade observamos a própria vida "acontecendo" sem grandes sustos ou supresas. É mais ou menos isso que senti ao cabo do Barba: a vida é a soma dos dias, com marés altas ou baixas, tanto faz. Uma sequência de escolhas e não escolhas, como rotineiras apostas na lotérica do bairro desprovidas de esperança concreta de premiação. Confesso que certa feita tive gana de jogar o livro na parede porque ansiava algum evento bombástico. Todavia, somente no final rolou um ligeirão de justificativas que oferecem certo alento ao leitor médio.
Mas o gran finale - que costura e confere sentido ao todo - só aconteceu quando voltei e reli o prólogo (#ficaadica)!
 
Quando o clube de leitura enfrentou as proposições, o tempo de debate pareceu-nos pouco para tanto a ser considerado!! A seguir, alguns pontos:
- impressão e expectativa antes e depois da leitura;
- reação do protagonista como fuga e distanciamento da dor sentida, como uma recusa de encarar os fatos e agir como adulto;
- doença que impede reconhecimento dos rostos x descrição minuciosa das características das pessoas;
- tempo verbal fixado no presente;
- descrição detalhada e precisa do ambiente, praia, natureza;
- representação feminina e papel das mulheres na vida do nadador;
- domínio na construção dos diálogos;
- transição do homem ao mito..
 
 Por acaso, a Tatiana Kuplich encontrou Daniel de bike pelas ruas de Porto Alegre e falou rapidamente com ele, contando da nossa coletiva leitura. Parece que inclusive o convidou pra confraternização de fim de ano do Clube de leitura aqui em Santa Maria! ;) (Confirma aí nos coments, Galera, é sábado, dia 30!)

Esse rapaz vem ganhando premiações literárias, tal como o recente Prêmio São Paulo de Literatura anunciado nesta segunda-feira dia 25/11/2013, mas não é só o Barba que faz sucesso. Convém mencionar as outras obras Até o dia em que o cão morreu, Mãos de Cavalo e Cordilheira, que já coloquei na lista!

 
O Barba ensopada de sangue foi traduzido para pelo menos dez países estrangeiros e, bem dizer, é a obra que está consolidando Galera dentre os melhores escritores contemporâneos nacionais! Vale conferir pra tirar a prova, não?

Um beijo bom,
Camilla.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS, Douglas Adams

O guia do mochileiro das galáxias é o primeiro livro de uma ´´trilogia de cinco`` publicado originalmente em 1979 por Douglas Adams, escritor e comediante britânico que escrevia esquetes para a BBC. Foi assim que nasceu a série de ficção científica composta pelos livros O guia do mochileiro das galáxias; O restaurante no Fim do Universo; A vida, o universo e Tudo Mais; Até Logo, e Obrigado pelos peixes e Praticamente Inofensiva. Ganhei a coleção no início do ano, mas só agora fiz a leitura do primeiro. Por questão de ordem (a.k.a. desordem) os outros ficarão pra 2014! ;)

"Existe uma teoria que, se um dia alguém descobrir exatamente pra que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. ..... Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu."

Esse clássico da literatura tem início quando tentam demolir a casa de Arthur Dent. Na ocasião, pra tentar tirá-lo do caminho dos tratores, o amigo Ford Prefect avisa que a Terra explodiria em poucos minutos e com manobras argumentativas o convence a fugirem dali pegando ´carona` numa nave espacial. Em seguida, Arthur é apresentado ao guia do mochileiro das galáxias, uma espécie de manual pra viagens interestelares que reúne informações sobre lugares, habitantes do universo e dicas de sobrevivência no espaço. A partir de então, seguem explorando o universo e o sentido de tudo que possa ter provada a existência. Inclusive da vida humana em sociedade e suas intercorrências... sob a ótica alienígena.
 
Ler ficção científica renovou o prazer da leitura por justamente quebrar paradigmas e fórmulas prontas, inverter sentidos e me causar novas sensações! Sem dúvida, O guia do mochileiro das galáxias é o livro mais engraçado e nonsense que eu já li!! Gostei da pegada irônica que satiriza a política, a sociedade, a burocracia, tudo numa linguagem simples e narrativa fluida. (Desculpem a resenha wannabe, mas não adianta eu contar trechos do livro pra suscitar interesse dos leitores, porque a probabilidade de eu escrever bobagem tentando descrever a genialidade de Douglas Adams  é de 98,90% segundo o Gerador de improbabilidade infinita).
  
Conforme a sinopse: Mestre da sátira, Douglas Adams cria personagens inesquecíveis e situações mirabolantes para debochar da burocracia, dos políticos, da "alta cultura" e de diversas instituições atuais. Seu livro, que trata em última instância da busca do sentido da vida, não só diverte como também faz pensar. (...)
 
Apesar de definirem-no como literatura infanto-juvenil certamente agradará adultos com olhar crítico. Mas nem embarque com Arthur e Ford se tiveres preconceito com literatura nonsense, geek ou nerd. E mais, é muito tênue a linha de amar ou odiar um livro, então arrisque! 8)

Sou eclética pra gênero literário e constantemente me desafio nesse sentido, o que reputo uma virtude diante de um mundo tão relativista, não é?! Estamos num pé em que todo ponto de vista é válido e todas as bandeiras são hasteáveis. Nesse passo, mais ainda, a literatura reveste-se daquela importância repetida nas campanhas educacionais: a de permitir observar e vivenciar o mundo a partir de outros referenciais e culturas, levando o leitor pra um castelo de bruxos, pra Terra do Nunca ou pra outra galáxia num virar de página. 
Se com toda essa viagem um livro conseguir dar moral pra ´compreender o sentido da vida`, tanto melhor! Leiam! Vale a pena conhecer o poder e utilidade de uma toalha e respirar tranquilo sabendo que 42 é a resposta à Questão Fundamental da Vida, o Universo e Tudo Mais.

Um beijo bom,
Camilla.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA, José Saramago

O conto da ilha desconhecida conta a estória de um súdito que bate à porta do rei postulando um barco. 
No palácio real há 3 portas: a das decisões, a das petições e a porta dos obséquios. 
O rei basicamente ficava à porta dos obséquios onde só recebia favores e agradecimentos do povo, comodamente e sem muito estresse. Por isso ele demorou pra atender o impetrante que não arredou o pé enquanto não falasse pessoalmente com o rei. 

Eis que descendo do trono, afinal temia a repercussão da fila que se formava, e arguindo o súdito (o que queres e para que queres?), o rei ordenou num bilhete ao capitão do porto: Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro...

E lá foi o súdito navegar em busca da Ilha Desconhecida...

A breve aventura que se segue está no livreto editado pela Companhia das Letras na forma de uma parábola sobre poder, tomada de decisões, burocracia, esperança, mas principalmente sobre não desistir dos sonhos! Num divertido conto, Saramago também permite observarmos a profundidade e imensidão do oceano que habita em nós, apesar da (impraticável) distância que se deve tomar do ponto observado. 
Ou seja, fisicamente não consigo me ver de fora... 
´´...mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver``.... ´´ se não sais de ti, não chegas a saber quem és.`` p.40
Levei duas horas pra terminar a leitura e dei umas boas risadas porque os diálogos são leves e divertidos. 
Recomendo porque é literatura portuguesa, é Saramago, é nobel!
Recomendo porque é todo metafórico (adoro!) e muito bonito, pois diversas páginas são aquarelas pintadas por Arthur Luiz Piza!
 
No Youtube é possível assistir variadas interpretações de O conto da ilha desconhecida, desde vídeos e animações a teatrinhos escolares. Esse ao lado conta o conto e depois comenta as simbologias propostas! :D
*
O afã de buscar e querer algo (com existência desconhecida) é o combustível pra vida, e notadamente todos os homens sonham com o que os fará felizes. Como dizem, a esperança gera sonhadores. E os idealizadores foram um dia sonhadores.

O projeto de vida do cidadão do conto é buscar a ilha desconhecida. 
Qual é o seu projeto de vida?

Um beijo bom,
Camilla.

P.s.: Acadêmicos do Direito! Vale conferir um ponto de vista jurídico deste conto, explorado no programa Direito e Literatura.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Do não arrependimento

Se me perguntassem ´Camilla, que livro tu te arrependeu de ler?` eu pensaria por uns minutos e talvez demorasse até formular uma resposta razoável. Mas como matutei um pouco antes de escrever esse post lhes digo: ´nenhum`.
Explico.                
Na linguagem literária o bordão ´tempo é dinheiro` tem um significado peculiar porque em se tratando de livros há um infinito de títulos interessantes, dos clássicos indispensáveis aos contemporâneos freneticamente publicados a cada semestre, por isso a escolha da próxima leitura é delicada como uma borboleta e decisiva como um pênalti.
 
Quaisquer decisões trazem consigo o custo de oportunidade, que é aquele tanto que deixamos de ganhar caso tivéssemos escolhido a opção deixada de lado, e o custo de oportunidade de livros é infinito! (Mais sobre isso no post O paradoxo da escolha).
 
Voltando à pergunta acerca de arrependimento, note que ela só tem espaço porque conservo a mania de ´tendo começado um livro vou até o final`, ainda que meio chato ou não empolgativo, o que nos joga diretamente pro dilema tempo de vida x livros desejados.
Eis minha teoria. Vou mostrar pra vocês como a vida de um leitor contumaz é tensa. #exagerada. Fiz um cálculo bastante opressor, confesso, mas necessário, para demonstrar a finitude do ser o quão apreensivo é aquele momento de parar em frente à estante pra puxar a próxima companhia de papel.
Se a proposta for a média de 1 livro/mês, serão 12 livros/ano e 120 livros/década. Considerando o período dos 20 anos aos 70 anos de idade, conclui-se que temos 5 décadas de vida útil de leitura. Por cima, entonces, somaremos uns 600 livros na vida!!! (cara de espanto + tristeza). É pouca leitura pra uma vida curta, minha gente!
/Uma noite longa
Pr'uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar.../


Veja bem, muito mais que constituírem nossa biblioteca empoeirada os livros têm o poder de definirem a nós mesmos. Tal uma pessoa que cruza nosso caminho, permanece por um tempo e depois sai de cena, é muito provável que façamos leituras em que apenas um capítulo ou um parágrafo será útil e capaz de tocar a gente.

Por isso não me arrependo de nenhum livro.
E não me arrependo de nenhuma pessoa.

/E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar.../
Um beijo bom,
Camilla.
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