quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

EM BUSCA DE SENTIDO - Um psicólogo no campo de concentração, Viktor E. Frankl

Tudo o que já se disse acerca da Segunda Guerra Mundial não é o bastante frente ao caos espiritual por que passaram milhões de judeus e minorias. E esta é a temática do livro Em busca de sentido, que além de um relato de experiência no campo de concentração é um compêndio de como encarar o sofrimento de uma forma positiva e encontrar sentido para sua vida - objetivo de 11 em cada 10 pessoas, não é? 
 
Seu conteúdo extrapola qualquer autoajuda barato vendido em aeroporto e vai muito além dos tradicionais métodos tapar sol com a peneira, desviar foco, meditar loucamente ou apagar situações dramáticas com hipnose.
O psiquiatra vienense Viktor Frankl* ficou mais de três anos num campo de concentração nazista e as conclusões a que chegou são a base da Logoterapia**, um sistema teórico-prático de psicologia que visa auxiliar pessoas a VIVEREM o sofrimento com leveza e coragem, extraindo o MELHOR que a pior situação pode oferecer.
 
Milhões de seres humanos morreram em câmaras de gás mas antes sentiram a privação de tudo o que lhe garantia dignidade: família, emprego, titulação, calçados, cabelos.. E baseado no que vivenciou graças ao Hitler, Frankl ensina que no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. (página 88). 
Ou seja, estando em circunstâncias de extremada dor espiritual ou física a única liberdade possível é a de decidir qual atitude tomar. Supero? tolero? me entrego à dor? ou luto pela cura?
 
Frankl experimentou a lucidez dos heróis pois brindou a sociedade com sua sabedoria, tornando possível a redenção e felicidade de tantos outros pares, noutras gerações e continentes. De forma similar, recordo a história do Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, cujo período no campo de concentração em Dachau rendeu méritos heróicos por sua infinita fé cristã, consolidou sua obra e lhe deu abrangência internacional, tudo isso a partir de firmes propósitos de uma vida consagrada à Mãe de Deus.
 
Qualquer abordagem do Holocausto tende a ser cruel e impactante, mas Viktor Frankl aliou inteligência e sensibilidade para nos alertar que precisamos aprender e também ensinar às pessoas em desespero que a rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós. (página 101).
 
O livro Em busca de sentido é válido pra qualquer pessoa, mas em especial para as que têm sofrido física ou espiritualmente, seja a perda de alguém querido, ou fragilidade da saúde ou relacionamentos..
Por fim, dedico o post aos familiares e amigos das vítimas da tragédia da boate Kiss, aqui em Santa Maria. <3
 
Um beijo bom,
Camilla.
 
* O Ph.D. Viktor Emil Frankl (Viena, 1905-1997) foi professor de Neurologia e Psiquiatria na Universidade de Viena e também lecionou em Harvard, Stanford, Dallas e Pittsburgh.
** Logoterapia é conhecida como a Terceira Escola Vienense de Psicoterapia, sendo a Psicanálise Freudiana a Primeira e a Psicologia Individual de Adler a Segunda. (fonte: Wikipedia)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O FILHO DE MIL HOMENS, Valter Hugo Mãe

Eu poderia não escrever minhas impressões sobre o livro e simplesmente dizer: leiam!! Tenho certeza que os amigos que confiam em mim (e/ou no meu gosto) iriam considerar essa indicação mesmo às escuras. Mas ficaria um vácuo para a outra porcentagem de leitores que espera bons argumentos pra dar crédito a novos autores, no caso de ainda não conhecer o angolano radicado em Portugal, Valter Hugo Mãe.
VHM deixou de ser novo quando li A máquina de fazer espanhóis, onde trata e retrata a terceira idade com inafastável realismo, sem descuidar da sensibilidade merecida. Tem post aqui.
O filho de mil homens morava na minha estante há alguns meses e escolheu o mês de janeiro pra me encantar. Esse livro fala da solidão, ou melhor, daquilo que se coloca no coração pra fazê-la mais discreta, ou melhor, da tentativa de dar mais sentido pra nossa existência única.

Crisóstomo é um pescador solteiro de 40 anos de idade que deseja muito ter um filho. No povoado, uma anã perece ao dar à luz a um menino chamado Camilo, que o velho Alfredo acaba adotando. A jovem Isaura é deflorada e o pai pensava que a honra da família tinha sido morta e sua mãe Maria era só repúdio. Antonino, filho de Matilde, apesar de maricas se engraçou por Isaura e até casaram. Rosinha, a caseira de Matilde, tinha uma filha de sete anos e suspirava pelo velho Rodrigues, mas foi o viúvo Gemúndio que a levou ao altar. Depois, a sorte triste de Rosinha fez com que sua filha Mininha ficasse ao amparo de Matilde. E tudo o mais que acontece é o cruzamento de todas essa vidas, a costura das fraquezas de uns no amor de outros. Singelas personagens ficcionais, mas tão reais quanto a saudade que senti ao fechar o livro. 

Ainda que cada capítulo possa ser lido individualmente, como contos, ao final o resultado se mostra orgânico e coeso como a sensação de selar com cola o quebra-cabeça prontinho; ou de estender a cama com uma recém costurada colcha de patchwork. A naturalidade com que os espaços (e corações) vão sendo preenchidos dá ritmo e verdade pra história.
E vontade de que o livro dure pra sempre. 

A narrativa é de uma cadência maravilhosa que até acelera a leitura. Mas eu me demorava nos capítulos pra que não acabasse tão cedo...

Foi uma leitura tão prazerosa que mereceu imediata releitura no afã de eternizá-la.

Um (suspiro e) beijo bom,
Camilla.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Intervenção de terceiro #7, com Elizandro Moraes

O Elizandro Moraes é um simpático atendente da Athena, uma livraria aqui de Santa Maria cujo diferencial é promover cultura e não apenas vender livros. Em frente às prateleiras, metralhando-o de perguntas e trocando ideia de leituras, fiz amizade e o convidei pra escrever uma resenha para o blog! Sem pestanejar ele disse que falaria sobre seu livro predileto da vida: Sidarta, do escritor alemão Herman Hesse (Prêmio Nobel de Literatura 1946).
 
Vamos às considerações que o Elizandro fez pra nos recomendar SIDARTA, na primeira resenha do ano da seção Intervenção de terceiro!
 
"Hesse teve e ainda tem uma grande importância na minha vida. Porque admiro muito a doutrina budista. Não só a doutrina, mas os ensinamentos interiores. O livro, publicado em 1922, narra a busca de Sidarta pela iluminação na Índia. Educado, bonito, filho de um homem rico, ele procura a luz com os Samanas (shramana), que vivem para pensar, esperar e jejuar. Descobre Buda, mas não aceita sua doutrina. É iniciado nos jogos do amor por uma cortesã, mas só encontra a decadência e decide abandonar tudo. Torna-se então balseiro num rio junto ao sábio Vasudeva e só então conhece a redenção.
As histórias de Sidarta e de Buda se confundem.
Nascido na Índia, filho da aristocracia religiosa dos brâmanes, Sidarta passa a infância e a juventude isolado das misérias do mundo, gozando a existência calma e contemplativa que sua condição de casta lhe permitia. 
À certa altura, porém, abdica da vida luxuosa, protegida, e parte em peregrinação pelo país, onde a pobreza e o sofrimento eram regra.
Sidarta experimenta de tudo, usufruindo tanto as maravilhas do sexo e da carne quanto da miséria e o jejum absolutos.
Entre os intensos prazeres e as privações extremas, termina por descobrir "o caminho do meio", libertando-se dos apelos dos sentidos e encontrando a senda da iluminação interior."
*
 
Fiquei contente por ter aceito o convite, caro Elizandro!
A peregrinação em busca de si mesmo é uma pauta bastante atual já que vivemos numa sociedade super socializada que dificulta a percepção da essência das pessoas. Esse olhar para dentro é fundamental para a busca da verdade, inclusive da nossa.
 
E os leitores? Tem mais fãs de Herman Hesse por aí?? Ou budistas?
 
Obs: já resenhei Gertrud, do Herman Hesse, nesse post aqui.
 
Um beijo bom,
Camilla.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA, Edney Silvestre

Depois de férias na praia, onde descansei (adivinha?) lendo, retomo as atividades aqui no Companhia de papel com algumas resenhas por publicar... [Acho que o sol na cuca otimiza as leituras, não acham?! Não fosse o Kobo eu teria ficado sem outras opções, já que levei apenas duas companhias de papel na mala! Quem nunca?]
Pois bem.. eis um premiado Jabuti que o clube de leitura escolheu para o primeiro encontro do ano: Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre. (esse livro ganhou o Prêmio Jabuti 2009 na categoria romance).

Paulo e Eduardo, dois amigos de aproximadamente 12 anos de idade, encontram o cadáver de uma mulher à margem de um lago numa cidadezinha interiorana do Rio de Janeiro, fato arquivado pela delegacia local. A partir de então, diante das marcas de violência e um seio decepado, os guris resolvem investigar o crime e suas circunstâncias contando com o auxílio de Ubiratan - um senhor que fugiu do asilo. A vítima e suas ascendentes eram mulheres morenas constantemente agredidas pelos senhores da cidade por isso todos queriam abafar o caso...
Questões políticas e sociais vêm à tona na abordagem de Edney, que contextualiza a narrativa no período histórico pré-revolução, em meados de 1961, quando o mundo comemorava a chegada do homem à lua e o Brasil celebrava o crescimento do país creditado ao governo JK. Todavia, o interior brasileiro continuava sofrendo as consequências do coronelismo.
A amizade dos meninos é cultivada apesar das diferenças de classe social e cultural, e é essa tenra amizade que confere leveza ao livro, mostrando o quanto somos crus até perceber a realidade como ela é.
*
Numa noite no início de janeiro, em volta da piscina e saboreando galetinhos, nosso grupo debateu as seguintes pontuações...

- a história do livro acontece num período histórico pouco abordado na literatura brasileira, que é vivenciado de maneiras diferentes na capital e no interior;
- As identidades escravizadas das mulheres fazem parte só das baixas classes sociais? Há Anitas ou Aparecidas na classe A?
- Último ano do mandato de JK, modernização do país e chegada do homem ao espaço versus mentalidade interiorana e coronelismo;
- o livro faz um exercício de memória afetiva. Como e em que medida as vivências da infância influenciam nossas escolhas futuras?
- o desfecho do livro surpreendeu? Que outro final sugere?
- o papel de Ubiratan na ´investigação´ do crime;
- amizade de Paulo e Eduardo;
É isso aí, literatura brasileira abrindo 2014 aqui no Companhia de papel!!

obs1: telefonei pra editora Record tentando um contato com Edney Silvestre. Eis que ele próprio me mandou email com seu número de telefone. Então, bati um papo cabeça com o jornalista e escritor, que ficou grato por nosso grupo ler e debater sua obra. Comentou sobre o trabalho de pesquisa que empreendeu para escrever o Se eu fechar os olhos agora; falamos sobre atualidades do mercado editorial, jovens escritores e amenidades literárias. Eu fiquei toda prosa contando para os amigos do telefonema, em que, inclusive, me indicou alguns títulos. Obrigada, Edney! :D

obs2: Se alguém ainda não sabe, o Edney Silvestre está à frente do programa Globo News Literatura, na TV a cabo. Vale conferir!!
Um beijo bom,
Camilla.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

BALANÇO LITERÁRIO 2013: 30 livros

Quando postei o Balanço literário de 2012 eu disse que poderia ter feito mais e tal, pois pareceu-me pouco 18 livros num ano... (coisa minha, me deixa!).
Mas pelo visto 2013 ouviu aquele lamento e permitiu que um maior número de livros encantasse a minha vida apesar de minha rotina seguir a mesma, ou seja, 40 horas de trabalho semanal, muito trânsito e +- 147 atividades extras.

No fim das contas o resultado foi positivo e esse post vai soar #táseachando, o que se tratando de leonina é um comportamento perfeitamente razoável e socialmente aceito. ;P
Essa pilha de livros ao lado indica meu ímpeto literário, mas muito mais que quantidade, suponho ter lido títulos de comprovada qualidade!! 

Foram 30 companhias de papel em 2013!
Clicando vai direto pra resenha!
Coraline, Neil Gaiman
- A lista dos meus desejos, Grégoire Delacourt (a resenha sumiu do blog não sei porquê)

[Li menos clássicos do que gostaria, mas em compensação conheci autores contemporâneos promissores que surpreenderam. Gostei do ritmo de +- 2 livros/mês, acho que consigo seguir assim em 2014.]

Como no ano passado, entrego alguns troféus:
Troféu ''MELHOR do ano'':   O encantador, Lila Azam. Tenho que imediatamente reler essa obra-prima!
Troféu ''REVELAÇÃO do ano'':   empate técnico entre O guia do mochileiro das galáxias, Douglas Adams e O oceano no fim do caminho, Neil Gaiman
Troféu ''PIOR ou NEM TÃO LEGAL do ano'': O exército de um homem só, Moacyr Scliar. Não brilhou no meu coração hehe
Troféu ''PERDI TEMPO do ano'': felizmente não teve vencedor nessa categoria. :P
*


Se estou me gabando das leituras de 2013, também devo a você que acessa o companhia de papel e me incentiva com feed backs e compartilhamentos no Facebook. 
É aquele negócio né: quanto mais cultura a gente difunde, menos espaço sobra pra comentar Big Brother (a menos que seja de Orwell).
E pra quem pergunta como faço pra ler bastante:
          a) gosto de ler, gosto muito de ler, gosto muito de ler muito;
          b) coloco leitura como prioridade;
          c) não vejo/não curto televisão (salvo filmes de vez em quando);
          d) sou organizada com o tempo ocioso.

Então é isso amigueenhos! Encerro o ano muito feliz com mais de 35 mil visualizações do blog e mais de 500 curtidas na fanpage!!Valeeeeu!

Tenham uma ótima virada, inclusive virada de hábitos!
Um saudável 2014 pra vc! <3

Um beijo bom,
Camilla.

SEIS PASSEIOS PELOS BOSQUES DA FICÇÃO, Umberto Eco

"O que é o texto de ficção? Em que medida ele difere da verdade histórica? E o que ocorre quando o leitor mistura os papéis e considera como reais personagens fictícias ou vice-versa? Estas e outras questões cruciais da arte narrativa são discutidas, de forma acessível e bem-humorada, por Umberto Eco, nestas seis conferências que realizou (...)." (contracapa)

Eis que uma leitura mais ´´técnica`` tomou minha atenção nesse final de ano! Seis passeios pelos bosques da ficção reúne conferências que Umberto Eco proferiu em 1973 na Universidade Harvard.
Já aviso que não é uma leitura comum, por tratar-se de metalinguagem, mas que reputo essencial para leitores mais adiantados que queiram refletir sobre o ato da leitura em si! Nestes ensaios Umberto Eco investiga aspectos filosóficos da construção até a interpretação de textos narrativos passando pela análise da estrutura da obra ficcional e os conceitos de leitor empírico e leitor-modelo. Aborda o tempo da história, do discurso e da leitura, diferenciando os conceitos de história, enredo e discurso. Esse livro é inteligente, interessante e didático, mas requer uma leitura atenta e estudiosa, digamos assim. São 160 páginas de conclusões incríveis e bem-humoradas. Acho que vale a pena para leitores mais adiantados e estudiosos da linguagem.

Me permitam colocar uns trechinhos dos ensaios/capítulos (porque a vontade era de postar o livro inteiro de tão perfeito heheh):

capítulo 1. Entrando no bosque   
"Só quero dizer que em qualquer narrativa de ficção é necessária e fatalmente rápida porque, ao construir um mundo que inclui uma multiplicidade de acontecimentos e de personagens, não pode dizer tudo sobre esse mundo. Alude a ele e pede ao leitor que preencha toda uma série de lacunas. Afinal, todo texto é uma máquina preguiçosa pedindo ao leitor que faça uma parte de seu trabalho." p.9


capítulo 2. Os bosques de Loisy   
"Há duas maneiras de percorrer um texto narrativo. Todo texto desse tipo se dirige sobretudo a um leitor-modelo do primeiro nível, que quer saber muito bem como a história termina. (...) Mas também todo texto se dirige a um leitor-modelo do segundo nível, que se pergunta que tipo de leitor a história deseja que ele se torne e que quer descobrir precisamente como o autor-modelo faz para guiar o leitor. (...)" p. 33

capítulo 3. Divagando pelo bosque   
"Quando enalteceu a rapidez, Calvino preveniu: ´Não quero dizer que a rapidez é um valor em si. O tempo narrativo também pode ser lento, cíclico ou imóvel... Essa apologia da rapidez não pretende negar os prazeres da demora´. Se tais prazeres não existissem, não poderíamos admitir Proust no Panteão das letras." p. 55 
"Demora nem sempre indica nobreza." p. 66

capítulo 4. Bosques possíveis   
"Qualquer passeio pelos mundos ficcionais tem a mesma função de um brinquedo infantil. As crianças brincam com boneca, cavalinho de madeira ou pipa a fim de se familiarizar com as leis físicas do universo e com os atos que realizarão um dia. Da mesma forma, ler ficção significa jogar um jogo através do qual damos sentido à infinidade de coisas que aconteceram, estão acontecendo ou vão acontecer no mundo real. Ao lermos uma narrativa, fugimos da ansiedade que nos assalta quando tentamos dizer algo de verdadeiro a respeito do mundo." p. 93.
 
capítulo 5. O estranho caso da rue Servandoni   
"Como leitores empíricos sabemos muito bem que lobo não fala, mas como leitores-modelo temos de concordar em viver num mundo em que lobos falam". p. 113

capítulo 6. Protocolos ficcionais   
"De qualquer modo, não deixamos de ler histórias de ficção, porque é nelas que procuramos uma fórmula para dar sentido a nossa existência. Afinal, ao longo de nossa vida buscamos uma história de nossas origens que nos diga por que nascemos e por que vivemos. (...)" p.145

Esse livro merece uma releitura imediatamente. heheh

Um beijo bom, 
Camilla.
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