sexta-feira, 25 de abril de 2014

ANIVERSÁRIO DO BLOG * 2 ANOS *



Hoje o companhia de papel faz 2 anos de aniversário!!


Esse projeto pessoal (um despretensioso diário de leituras) enriquece minha veia leitora e dá sentido para a biblioteca interior que construo a cada título lido. ;)


Tornar pública a impressão sobre alguma coisa abre caminhos em vários sentidos. Mas em tempos de facilidade de expressão e amplitude das redes sociais, expor a opinião é um ato que se não for conscientizado corre o risco de ser banalizado.


Dizer que gosta ou não gosta de um livro é íntimo porque diz muito sobre quem escreve, porém percebo que a missão dos ditos ´´blogueiros`` literários é bela e honesta, indo além de quaisquer exposição e promoção pessoal. No meu caso, minha formação jurídica limita análises técnicas aprofundadas, mas com certeza os posts são escritos com o coração, levando em conta minha condição de leitora afetiva. Aliás, são os afetos que nos movem. Pra tudo.


São 2 anos de dedicação, mas que trazem consigo 24 de vida de leitora (comecei com 5 anos)... Com esperança e otimismo, gosto de saber que por meio de um singelo espaço na internet eu ajudo a adubar e cultivar a semente do hábito da leitura em muitas pessoas!


É com confiança e alegria que nesses 2 anos de blog conto com mais de 46.000 visualizações! 

90 postagens com média de 3 mil acessos mensais.


Questionar-me-ia: são apenas números? Talvez.

Mas a cada livro resenhado espalho sementes. E sigo no cultivo porque a leitura é colheita certa!

Tanto quanto a chuva na hora certa favorece o soja; o fomento da boa literatura faz colher bons leitores.

Obrigada! 

Um beijo bom,
Camilla.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A METAMORFOSE, Franz Kafka


"Ao despertar de um sonho inquieto, certa manhã, Gregor descobriu que se havia transformado num gigantesco inseto." 
Essa é a primeira frase de A metamorfose, e não fosse a seriedade com que a história prossegue, incluindo a aparente normalidade dos membros da família diante do absurdo fato, eu podia jurar que começava uma ficção científica com monstros e alienígenas talvez..  

Desde sempre eu sabia sobre esse livro do Franz Kafka, tal como alguém que nunca leu Dom Casmurro mas sabe da dúvida sobre a traição de Capitu. Eis que agora, em março, li A metamorfose. Ou melhor, ouvi (audiobook).
* MAS o que era aquilo? Que texto mais maluco! 
Não sei dizer com firmeza se gostei ou não gostei. Apenas concluo que é uma leitura imprescindível para conhecer Kafka. (De sua obra, eu só tinha lido O processo durante a faculdade de Direito, e ainda quero ler Carta ao Pai).

Gregor é um caixeiro-viajante que trabalha muito pra tentar pagar as dívidas da família. Está cansado e estressado, tem um chefe mala, e se sente frustrado pela vidinha que leva. Num belo dia, ao despertar, percebe a metamorfose...

O inseto em que Gregor se transforma é repugnante e causa repugnância. Não é dito, mas toda a descrição leva a crer que é uma barata, e mesmo assim ele continua um ser pensante como se humano fosse. 

Na primeira parte do livro, o chefe vai até sua casa e faz algumas reclamações do seu funcionário... mas Gregor não consegue sair do quarto por sua nova estrutura física.. Após grande esforço consegue abrir a porta, mas todos se apavoram ao vê-lo... e ele não entende nada do que falam, soando apenas como murmúrios incompreensíveis. Seu pai o empurra de volta aos aposentos.
Na segunda parte, sua irmã deixa comida numa tijela... Acontecia de toda vez alguém entrar no quarto, Gregor se esconder. Passava seu tempo escutando a família reclamando dele, e se distraía, então, perambulando pelas paredes e teto do quarto.
Aos poucos a família vai deixando esse 'problema' de lado e o quarto do inseto vai virando depósito de lixo. Certa feita, Gregor sai por uma fresta da porta e aparece na sala para ouvir a irmã tocar violino. Surpreendido também pelos inquilinos que observavam a cena, Gregor retorna rápido ao quarto. 
No dia seguinte é encontrado morto e a família não dá muita atenção pra sua ausência...

A complexidade do livro anda junto com as interpretações possíveis. O ponto central é a solidão e o não reconhecimento, que ora ou outra acometem os seres em sociedade. O livro é curto mas oferece inúmeras reflexões. 
Para enriquecer a reflexão, me permito citar trecho de um elucidativo ensaio sobre a obra de Kafka, de Vilto Reis, publicado no site HomoLiteratus em outubro de 2013:


Estátua de Kafka, em Praga
O “problema” desta obra, sendo o autor considerado realista, é que ela praticamente impossibilita a visão alegórica. Como disse Walter Benjamim: “O mundo de Kafka se caracteriza pela mais precisa das deformações”. Se por um lado a perspectiva apresentada parece fantasiosa, por outro a narração é concisa, como a mais comum normalidade. O início avassalador de A Metamorfose – “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso” – já é por si só uma inversão, pois é como se a história começasse pelo clímax; o ponto alto da narrativa está no começo. Não é como se alguém normal, dormindo, entrasse num pesadelo, mas sim como se a pessoa acordasse ela mesmo “pesadelesca”. Modesto Carone, no livro Lições de Kafka, afirma que “…a metamorfose não está aí como um disparate, mas como uma licença poética transformada em fato”. A frieza da narração transforma o fato numa situação sombria por ser real.
O homem normal, escravo de sua própria vida, de sua condição social, de sua família, vê-se de repente suprimido numa monstruosidade incompreendida. Pode haver solidão maior que esta? Aqui o que está em voga não é a solidão de estar distante dos seus, mas sim aquela de estar perto de quem deveria se importar consigo, mas ser repelido como um monstro. Modesto Carone, no livro já citado, ainda complementa: “ele se comporta como um homem que ainda existe, mas que já não pode ser visto como sendo ele mesmo, e nessa medida é empurrado para o isolamento e a solidão (para acabar na exclusão)”. (...) Distante, solitário, nulo, este é o personagem kafkaniano, sentindo-se um inseto (ou mesmo sendo um); ele precisa lidar com o estar entre muitas pessoas, mas mesmo assim estar só. É como todos nós nos sentimos num momento de carência, de exaustão emocional, em que gostaríamos de ter alguém por perto, mas não temos; mesmo numa volta para casa, num transporte público, estando suprimidos por uma multidão de outros trabalhadores, sentimo-nos sozinhos, pois na verdade estamos só, como somente em nosso século poderíamos estar. Sendo quase centenário, Kafka ainda consegue ser moderno. Nossa época é o tempo da solidão, somos contemporâneos da depressão massificada, como doença comum; o que vem a calhar com a afirmação de Theodor Adorno: “Os protocolos herméticos de Kafka revelam a gênese social da esquizofrenia”. 
Alegórico ou não, A metamorfose propõe uma metamorfose do nosso pensamento, propões um despertar pra certa letargia que pode acometer as pessoas. Precisamos enxergar mais e melhor.

Um beijo bom, Camilla.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, Aldous Huxley

No domingo dia 09 de março, no encontro do clube de leitura companhia de papel, tivemos um debate extenso e profundo sobre essa obra publicada em 1931 que, à época, foi banida em razão das suas ideias subversivas. E que ideias, miagente!! À frente do seu tempo e visionário, Aldous Huxley concebeu o Admirável mundo novo como sendo uma sociedade projetada em 600 anos cujo objetivo é a estabilidade social e o meio é a ciência e tecnologia avançadas. As pessoas são geradas e concebidas em laboratório, e em seguida condicionadas mentalmente num processo louco de formação durante o sono, a hipnopedia. Homens e mulheres são alfas, betas, gamas, deltas e ípsilons (com mais ou menos inteligência, esperteza, vigor físico, etc...) e vivem em castas bem definidas.

Conceitos como família, monogamia e sentimento são tidos como coisas do passado, absolutamente vedadas e por isso criminalizadas (!!). Promiscuidade é incentivada e deusolivre se apegar mais de duas semanas com a mesma pessoa. O governo centralizador determina que relacionamentos causam instabilidade social porque a pessoa não produzirá tanto quanto um solteiro despreocupado, livre e feliz. Por falar em liberdade, o livre-arbítrio é um engodo no Admirável mundo novo, porque todos estão sob as amarras de Nosso Ford! No Admirável mundo novo qualquer insatisfação, probleminha ou mal-estar é resolvido com doses de soma - uma pílula "sossega-leão" que o próprio Estado fornece pra geral ficar contente e não reclamar de nada (qualquer semelhança com antidepressivos atuais é mera coincidência).

Se conseguir passar o choque inicial na leitura do primeiro e segundo capítulos, você vai engrenar e chegará a crer na possibilidade de tudo aquilo!! O ´problema` central da história é um rapazito revolucionário que passa a questionar o sistema... e o que acontece na sequência você descobre quando ler o dito manual de libertinagem livro!  
*
É evidente que seria banido porque foi verdadeira bomba no início do século passado!
Mas não pense você, vivente de 2014, que está ileso de ser sugestionado pelas ideias prafrentex e louvar Nosso Ford!!  :P

Essa é uma das obras mais elementares do século passado!! A cada capítulo ficamos boquiabertos com a insanidade genialidade do escritor, então não desistam da leitura se parecer complicadinha. Vale a pena conhecer Huxley!! 


Algumas pontuações que propus no encontro do clube de leitura:
 - Qual a pior forma de dominação: a visivelmente violenta ou a camuflada?
- Fale sobre a culpa experimentada pelo Selvagem quando estava na ilha.
- Há "ilhas"(onde não existam ordem, controle e condicionamento mental) nos dias atuais?
- Há um limite para o desenvolvimento humano? Se há, qual seria essse limite e quem o imporia?
- Comente o trecho: "Cremos nas coisas porque somos condicionados a crer nelas" (página 359).
- O cientificamente possível é eticamente viável?
- Nota-se semelhança entre o Selvagem John e o Chris McLandless (do livro Na natureza selvagem) em relação ao desejo de isolamento da civilização e purificação espiritual?
- "O selvagem reclamava o direito de ser infeliz". Na nossa sociedade parece que somos impelidos a intolerar a dor, tristeza e sofrimento. Concorda? Comente.
- Vivemos submetidos a "sucedâneos.." como doses regulares de felicidade?
- Comente o fato de não haver religião, mas uma adoração a Ford.

[A leitura compartilhada no clube foi essencial. Por isso combine com mais pessoas de ler ao mesmo tempo, pois otimiza a discussão!]

É um clássico de leitura indispensável por duas razões: conhecer a obra e os motivos pelos quais ela foi banida e aguçar nossa percepção e compreensão das coisas postas atualmente. Especialmente redes de televisão, estatísticas e publicidade manipuladoras.

p.s.: virou filme... quem já assistiu comenta aí!

Um beijo bom,
Camilla.
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