sábado, 20 de junho de 2015

Das rosquinhas de cachaça e chá de capim-cidreira

22 de maio era a data de aniversário da minha avó materna, a Vó Mila.
Na carteira de identidade, Emília da Silva Brites.
Tinha a simplicidade ´da Silva` e a calejada sabedoria de quem cuidou mais de 10 filhos. Ela era bochechas brilhantes e proeminentes, logo abaixo dos castanhos olhos de bondade que o tempo foi branqueando.

Ainda posso vê-la molhando a linha na boca e apertando os olhos pra enfiá-la na agulha. Gesto tão observado e admirado, que hoje copio sem querer os trejeitos ao sentar-me à máquina de costura.
Se minhas mãos sorriem com tecidos, apenas confirmo que sangue não é água.

Minhas melhores e mais distantes lembranças estão naquela casa.
Desde o silêncio absoluto que o vô Gentil exigia na hora da séstia (uma eternidade quando se tem primos prontos para agitar) até o som metálico das cadeiras de praia abrindo para receber visitas no pátio. 
Saudade é cheiro de rosquinha de cachaça que ela preparava na mesa azul de madeira, pura farinha.
Eu devia medir 90 centímetros de altura e ficava na ponta do pé pra espiar e, com auxílio de um banquinho, festejava poder espichar a massa com o rolo de madeira, objeto que ora repousa de herança na cozinha da minha mãe.
Em dia de rosquinhas, a casa da vó Mila exalava um cheiro de amoníaco.
Nunca entendi que o aroma, a princípio incômodo, magicamente sumia quando saíam do forno. Uma mordida crocante e outra molhada no leite com Nescau. 

Sabor difícil de repetir, lágrima fácil de rolar.

Eu gostava de me encostar na vó Mila e tocar aquela pelezinha do tríceps que sobra nos braços idosos. Parecia papel de seda, bem fininho, que ela deixava tocar porque sabia que carinho de neto tem dessas bobices sensoriais.
Meu coração quase que diariamente é afagado com afeto da vó Mila quando preparo chá de capim-cidreira. Hoje é embalado em sachê individual, mas o verdadeiro sabor era colhido por ela, na horta, no costado direito da casa, bem do lado dos tomateiros.. 
Tomates eram colhidos e comidos na hora; já as folhas de cidreira - cortantes ao tato - deusolivre criança por a mão.

Meus sentidos são máquina do tempo. Amor é o combustível. 

Um beijo bom,
Camilla.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, José Saramago

Eis um livro impactante, minha gente!!! 
 
Não encontrei melhor adjetivo para Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, que não esse: IMPACTANTE. 
 
Quem é leitor de Saramago já sabe o que esperar quanto à linguagem, troca das vozes narrativas e diálogos - que não são pontuados da maneira tradicional. O texto de Saramago é um manancial de água onde você é simplesmente levado, ora boiando, ora submerso, numa correnteza veloz rio abaixo! Se ainda não leu Saramago, de repente seria legal começar com O conto da Ilha Desconhecida

Mas hoje minha dica literária é o 
Ensaio sobre a cegueira!

Uma pessoa é acometida de uma cegueira. 
Não uma cegueira comum, onde se ´vê` escuridão, mas uma cegueira branca, leitosa. E então contagia outro, que contagia outro, que contagia outro... e em poucas horas e dias parte de um país é tomada pela falta do sentido da visão. 
Uma epidemia sem causa conhecida.
 
O Governo providencia o isolamento do grupo (tipo uma quarentena) e se compromete a fornecer mantimentos, itens de higiene e limpeza, mas quando isso começa a faltar... a dignidade e bom senso ficam rarefeitos!! Os instintos primários do ser humano se sobrepõem à educação, respeito e moral e a face mais cruel daqueles homens e mulheres cegos ficarão à vista do leitor. 
Apenas a personagem ´mulher do médico` não é acometida da doença, e permanece vendo e testemunhando o desfalecer da civilidade e a busca da sobrevivência a qualquer custo. 
Esbarro no imaginário que eu construí lendo esse livro para me desculpar por não dizer mais do que já disse, senão acrescentando que muito mais do que VER, é preciso REPARAR no outro!

A experiência sensorial e metafórica que Saramago proporcionou com Ensaio sobre a cegueira é - tocando o óbvio - minha e única.. 
Você terá que vivenciar por si só a jornada rumo ao caos que a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o velho da venda preta e outros personagens percorrem.. 
Até mesmo para admitir, se for o caso, que você também é acometido de alguma cegueira! 
"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." José Saramago
Obs: Para quem já viu a adaptação para o cinema dirigida por Fernando Meirelles, só vou mencionar aquilo que debatedores de literatura geralmente acordam: o livro é incomparável, e supera mil vezes o filme. ;)
 
Um beijo bom, 
Camilla.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

XADREZ, TRUCO E OUTRAS GUERRAS, José Roberto Torero

Com um sem-fim de livros à disposição, tantas chamadas de lançamentos, reedições,
reimpressões em papel perfumado (#ironia), etc.. é justificado se perguntar Que livro vale tomar meu valioso tempo?


Para isso que servem (a maioria dos) os blogs literários, de modo que se você não é dotado de intuição ou apurado faro literário – o que sinto que estou desenvolvendo com o passar dos anos – ler blogs é uma maneira de pegar indicações certeiras e se livrar de furadas!

Leio gêneros bem diferentes, sem me ater a projetos ou metas, escolhendo aleatoriamente minhas leituras. ;)
A par disso, tenho lido aquilo que definimos nos clubes de leitura que coordeno e participo...
Assim foi com XADREZ, TRUCO E OUTRAS GUERRAS, livro do mês no clube de leitura companhia de papel! Esse livro faz parte da coleção Plenos pecados, publicada pela editora Objetiva, onde 7 autores escreveram 7 livros sobre os temas: Soberba, Luxúria, Preguiça, Inveja, Gulo, Avareza e Ira.

Conforme a própria editora: "A proposta da coleção é analisar os pecados que fascinam e aprisionam os homens ao longo dos séculos, sob um ponto de vista libertador e contemporâneo. A série nos apresenta as questões: o que deles, dos pecados, permanece, como noção de ofensa e erro, em nosso imaginário? Que limites traçam, até onde nos desafiam? Como oscilar, sem culpa e medo, entre a condenação e a celebração do pecado?"

A José Roberto Torero coube a IRA. 
Assim, ele valeu-se da Guerra e de jogos (truco e xadrez) para desenvolver este livro que tem personagens cativantes, sarcasmo e ironia!!

Temos o Rei, o General, o Coronel, o Capitão, o Sargento, o Soldado.. cada qual com um movel pessoal pra ir à Guerra.. nenhum deles era essencialmente a ira...

Os capítulos curtos deixam a leitura veloz e agradável.. Uns descrevem tomada de decisões e movimento das tropas, e outros relatam fatos prosaicos das batalhas.

Apesar do tema, é bom dizer que sua leitura, ao contrário de ira, desperta descontraídas risadas!! Isso porque há diálogos com ironia e bizarrices... 

É impossível não sentir a vibe dos livros Dom Quixote, Tarás Bulba e Cândido ou O otimismo (clique no link e vá para as resenhas!) Reputo ser essa a informação mais pontual da minha pretensa resenha... já que por mais que a gente leia coisas boas, no fundinho elas sempre serão inspiradas em algo melhor ainda - que geralmente são chamados de ´clássicos`. ;)

Eis alguns trechinhos que destaquei...

"A vitória tem muitas mães; mas a derrota é sempre órfã".

"Assim como há sins que não são sins mas nãos, há também nãos que não são nãos mas sins, de modo que tudo, não e sim, é, na verdade, talvez ou depende".

"A ira é sempre mais forte por quem está mais perto de nós".

"A ira, meu caro, só é sábia se possui um grão de covardia. Se não, é pecado".

Super recomendo essa leitura, que em 183 páginas se torna inesquecível a seu modo. :)

Um beijo bom,
Camilla.
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