terça-feira, 8 de março de 2016

Do café com aroma de afeto


DE TODOS OS PRAZERES DO SER HUMANO, VOCÊ ESTÁ DIANTE DO QUE TEM MAIS SABOR. ENTÃO, SE O PRAZER É UM BOM CAFÉ, FOI UM PRAZER TE CONHECER.
Uma das tantas alegrias da vida é lembrar-se de alguém por um motivo especial, seja ele um objeto ou lugar visitado. É como ver esculturas de gatinhos de madeira e automaticamente pensar naquela amiga defensora dos felinos; ou sentir o aroma de flor-de-laranjeira e recordar da pracinha onde brincava na infância...
Nossa mente é assim, faz links automáticos e por vezes inexprimíveis em palavras!
Mas melhor do que se lembrar é ser lembrada. E o que passo a descrever abaixo tem a ver com memórias afetivas, e aconteceu neste verão com meu pai.
Ele esteve numa cafeteria/confeitaria chamada Doce Art Café, no município de Torres/RS, e não sossegou até conseguir esta xícara de presente para mim.
Para isso, foi ter com o dono da cafeteria e contou da filha sonhadora, muito dada às leituras e escritas; contou do blog e dos clubes de leitura...   
Eis que, ao chegar do veraneio, me entregou este bonito regalo.
Lembrou-se da Camilla porque aquilo que nos é caro nos constitui e, portanto, torna-se parte da gente. Somos lembrados pelos afetos expressados e obras realizadas, tal como o amor paterno marca num filho sua incansável força cuidadora!
Meu pai fez questão de concretizar seu afeto assim, o que de certa forma também representa a sua simplicidade: o aroma das palavras servidas numa singela xícara de café.
Um beijo,
Camilla.

quinta-feira, 3 de março de 2016

O GIGANTE ENTERRADO, Kazuo Ishiguro

Tudo azul.
Capa azul brilhante, fonte incrível e essa árvore linda: um verdadeiro capricho da editora Companhia das Letras. 

Comprei esse livro porque achei bonito, quem nunca?

Eis um livro misterioso, melancólico e repleto de entrelinhas. 
Escrito pelo japonês Kazuo Ishiguro, O gigante enterrado vai perturbar o inconsciente de qualquer leitor, porque, afinal, todos somos feitos de lembranças!

O GIGANTE ENTERRADO é um livro metafórico e profundo sobre memória e resgate daquilo que é essencial para um indivíduo, para um casal ou para uma comunidade inteira. 
É difícil definir um único tema abordado por Kazuo Ishiguro, podendo elencar o tempo, a honra, perdas, o valor da amizade, sentimentos de honra e glória, desejo de vingança, e amor.
É uma longa lista de emoções a serem "administradas", como na vida.
O que devemos carregar na bagagem após um período de guerra e sofrimento? Os sentimentos de vingança ou justiça ficam latentes por quanto tempo? Qual lembrança um casal reputa mais relevante desde quando se conheceram? O que fica registrado para uma pessoa também marcou o coração da outra?
Tais questionamentos me acompanharam durante a leitura da história de Axl e Beatrice, casal de idosos bretões que decide fazer uma jornada em busca do seu filho, em algum lugar que lembra a Grã-Bretanha, entre o final do século 5 e o início do século 6.

O caminho é percorrido nas companhias de dois saxões, o garoto Edwin e o guerreiro Wistan, e depois aparece o cavaleiro Gawain, parente do Rei Arthur.

Feridas de disputas entre bretões e saxões são expostas com ódio, honra e sentimento de redenção, num clima parecido com O Hobbit e o Senhor dos Anéis. 

Ressalto que durante a jornada as personagens sentem a falta de memória provocada pela ‘névoa do esquecimento’, uma espécie de feitiço causado pelo hálito de um dragão. E esses elementos fantásticos funcionam justamente para suavizar o tema da passagem do Tempo e suas consequências, nessa história tão bela quanto melancólica, cuja reflexão permanece incomodativa mesmo após fechar o livro. 

O esquecimento é o que nos salva, penso eu, já que não poderíamos carregar no consciente todas as memórias das experiências vividas, quiçá todas impressões registradas acerca de cada pessoa, objeto ou lugar que passamos ou passam por nós.

Um beijo,
Camilla.
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