quinta-feira, 8 de junho de 2017

Circulando sentimentos

Ciranda, cirandinha/ Vamos todos cirandar!/ Vamos dar a meia volta/ Volta e meia vamos dar/O anel que tu me destes/Era vidro e se quebrou/O amor que tu me tinhas/Era pouco e se acabou/ Por isso, dona Rosa/Entre dentro desta roda/Diga um verso bem bonito/Diga adeus e vá se embora. 

Eu achava que ficar girando servia só para tontear e ver o chão movendo e depois cair de bunda no chão, como eu e meus colegas fazemos no recreio. Mas adultos também gostam de girar, olha só. Esses dias, a profe Ana pediu que todos afastassem as classes e cadeiras para as paredes da sala de aula, e foi uma barulheira tremenda que até a orientadora veio espiar na porta! Mas a profe Ana sorriu e disse a ela que faria uma dinâmica conosco.

Eu achei muito engraçada a palavra “dinâmica”, porque Dina é o nome da gatinha do meu avô e Mica é a babá desde que eu era “uma coisinha titica que só mamava e fazia titica”, segundo minha mãe. A minha mãe é linda: tem cabelo bem pretinho enrolado, que fica preso no meio da cabeça com lenço azul. Ela tem um cheiro bom de cheirar e meu sonho era passar mais tempo com ela, tipo a mamãe canguru que carrega os filhotes dentro da pele, mas o Vô garantiu que se eu frequentar a escola me tornarei uma grande pessoa. Então eu vou todos os dias para a escola, menos quando tem missa, que chamam domingo.

Depois que arrastamos as classes, a profe mandou toda a turma sentar no chão formando um círculo como um bambolê ou roda-gigante. Então, depois de muito empurra-empurra e risinhos infinitos, ela também sentou no chão, com as pernas cruzadas que nem índio, pedindo silêncio. Estávamos achando o máximo, porque era aula, mas não parecia aula, já que ninguém segurava caderno e lápis, menos ainda a professora que, após um tempo, escondendo as mãos atrás das costas, apresentou uma girafa de pelúcia (com nome e tudo)!

Nessa hora foi difícil segurar o riso, pois na nossa classe tem um colega apelidado de girafa. Ele é bem alto, mas bem alto mesmo, tipo árvore de cinamomo. Eu sei o que é um cinamomo, porque as varinhas que meu pai usa para dar em mim são feitas do galho dessa árvore, e dói mais que beliscão. Mas daí o colega girafa corou de raiva (deve ter pensado: Por que a pelúcia não era um urso ou tigre?).

De início, a profe Ana mandou fecharmos os olhos e respirar profundamente. Com uma vozinha suave de dar sono, começou a falar sobre um príncipe que era amigo de uma rosa e que cuidava daquela rosa porque ela era especial, apesar dos espinhos! Ele protegia a rosa do vento e dos carneiros que comiam rosas! 

Curiosos, escutamos atentos até ela mandar abrir os olhos. Ela perguntou se a gente se sentia mais como príncipe ou como rosa. Eu pensei dentro da minha cabeça que príncipe tem poder e espada, e rosa tem perfume e espinhos, mas achei isso tão difícil quanto a letra Z, que é o S ao contrário, mas sem curva. Daí a girafa de pelúcia foi passando de mão em mão, funcionando como um microfone, e cada colega dizia sua resposta. 

O girafa, digo, o colega alto, falou que seria príncipe e construiria uma fortaleza para ele morar com a rosa, cercada por um fosso muito profundo onde os carneiros cairiam ao tentar se aproximar. A colega filha do dono do armazém disse que se sentia rosa, e que usaria seus espinhos pra espetar a mãe dela que, todas as noites, se ausenta de casa para fazer faxina noutras casas. O meu melhor amigo falou que se fosse o príncipe ia arrancar a rosa e levar para a avó dele que está doente e logo, logo vai para o céu. Quando chegou minha vez quase morri de vergonha, sentindo o suor das mãos molhar a girafa, mas consegui dizer que me sentia príncipe e queria herdar o trono do rei. Eu seria um rei bem grandão que espanta carneiros usando varinhas de cinamomo. A profe Ana falou que se sentia príncipe, pois cuidava de nossa turma como se fôssemos um jardim de rosas. Eu achei graça disso de ser flor, porque o vô conversa com suas margaridas e as protege da gatinha Dina. Meu avô também gosta de cactos, que precisam de pouca água porque nasceram no deserto, e dificilmente seriam brinquedo de gato porque têm espinhos e gatos são bem espertos.

Depois que todos os colegas falaram, a profe bateu palma e sugeriu brincarmos de trocar abraços com o colega do lado esquerdo e com o colega do lado direito no círculo. A confusão de abraços esquentou a sala e pensei por um momento como eu estava confortável e aliviado por falar e escutar aquelas coisas de príncipe, rosa e espinhos.

Acho que estou quase descobrindo o que significa dinâmica. Deve ser quando falamos meio que traduzindo aquela dorzinha que aperta o peito, mas que na hora quase some porque os colegas escutam quietinhos esperando sua vez de segurar a girafa. Entendi que a girafa girou igual ciranda e fiquei pensando se as girafas não ficam tontas ou caem no chão justamente por suas cabeças quase tocarem o céu.
Desde aquele dia vou para a escola cantarolando “Girafa, girafinha, vamos todos girafar...”.

Camilla Brites Caetano.

terça-feira, 7 de março de 2017

Bode ao dia/semana/mês internacional da mulher

Nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho,
que hoje eu passei batom vermelho...
(Malu Magalhães)



com ou sem batom vermelho, fato é que eu saio da ‘fortaleza confortável do silêncio’ para me expressar em rede social correndo risco de ser contrariada, mas ok eu aguento. (e já aviso que a música epígrafe deste texto é uma ironia ao padrão O Boticário de beleza, porque batom jamais será sinal de empoderamento).
na minha opinião, acho uma bobagem sem precedente esse negócio da mídia e do comércio em geral ´celebrar` nós, mulheres, no início do mês de março.

todo ano é a mesma balela que vai desde série de entrevistas e matérias jornalísticas sobre ´´o papel da mulher na sociedade/borracharia/economia/política/cozinha/segurança pública”; passando pela “tripla jornada”; “juventude e ditadura da beleza”,  e outras questões que, vamos combinar?, não são exclusivas do sexo feminino!
ninguém merece ganhar um bombom ou rosa ou brindes de empresas em reconhecimento por ter nascido mulher!
é lógico que eu não recusaria chocolate rs rs, mas veja só você o momento histórico em que estamos para se continuar premiando pessoas pelo seu gênero e sendo obrigados a ver campanhas publicitárias sexistas que vão desde desconto em Livraria (a Saraiva dará 50% para livrinhos de categorias ditas de mulherzinha!?) a cerveja ‘especial para mulheres’ (marca Proibida, com rótulo cor-de-rosa).
essa data historicamente é celebrada por conta do incidente na fábrica da Triangle Shirtwaist, em que 123 trabalhadoras e 23 homens morreram devido às más condições de trabalho. mas desde lá ganhou novos significados.
hoje, o sentido da ´´celebração” não pode nem deve se resumir a publicidade medíocre cujo resultado final subjuga a mulher e subtrai a duramente conquistada (será?) Isonomia.
ninguém quer florzinha do chefe, e discriminação no RH.
ninguém quer desconto pra comprar roupa e ali na rua olhares que despem.
todos só precisam de respeito e um copo d´água.
o dia internacional da mulher deveria servir apenas para, isso sim, mobilizar a sociedade para a conquista de IGUALDADE REAL DE DIREITOS (Equidade!), e abominar todo tipo de violência sofrida pelas mulheres, sob qualquer circunstância, condição social, profissional, roupa ou cor de batom. 

Camilla Caetano
“On ne naît pas femme, on le devient”, Simone de Beauvoir.
Ocorreu um erro neste gadget